Uma agroindústria de agricultura familiar montada num assentamento de reforma agrária do semiárido paraibano vai abrigar a primeira fábrica de beneficiamento de leite de cabra em pó do Nordeste — e ela já tem venda garantida antes de ligar as máquinas. Os governos da Paraíba e federal anunciaram, em 27 de agosto de 2026, a compra de R$ 6 milhões do produto, divididos em partes iguais: R$ 3 milhões do estado e R$ 3 milhões da União.
A aquisição será feita pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), na modalidade Compra com Doação Simultânea — em que o poder público compra da agricultura familiar e doa a alimentos a pessoas em situação de insegurança alimentar. O leite de cabra em pó produzido na fábrica será destinado a famílias atendidas por políticas de combate à desnutrição no estado.
Onde fica e quem toca
A fábrica está no Assentamento Che Guevara, no município de Casserengue, região do Curimataú, no agreste-sertão da Paraíba. É operada pela Coopac (Cooperativa de Produção e Comercialização do Curimataú Paraibano), sob a marca Nutrilê, que desde junho de 2023 mantém ali a primeira agroindústria de laticínios ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no estado. A Nutrilê já produz e vende queijo de coalho, iogurte e leite de cabra, e coleciona premiações: em 2024, levou ouro (queijo de coalho condimentado), prata (iogurte caprino) e bronze (queijo de coalho tradicional) no Concurso Nacional de Produtos Lácteos realizado durante o Congresso Nacional de Laticínios.
A nova linha de leite em pó é uma etapa de agregação de valor e, principalmente, de solução para um problema estrutural da cadeia: a sazonalidade. O leite líquido tem prazo curto e a produção oscila ao longo do ano; transformado em pó, o produto pode ser estocado, transportado a distâncias maiores e vendido fora de época. A unidade tem capacidade instalada para processar até 45 mil litros de leite por dia e a operação está prevista para começar em setembro de 2026. Hoje, a cooperativa capta em torno de 50 mil litros por mês.
Quanto custou e quem pagou
Os valores de investimento na planta de leite em pó variam conforme a fonte. O Governo da Paraíba aportou R$ 1,5 milhão. Somando os recursos próprios da cooperativa — incluindo cerca de R$ 580 mil em infraestrutura e uma captação de aproximadamente R$ 1,1 milhão junto ao fundo Finapop, voltado a empreendimentos da agricultura familiar — e a contrapartida federal, o custo total do projeto é citado entre R$ 3,75 milhões e R$ 5,08 milhões.
Quem é beneficiado
A Coopac reúne cerca de 390 famílias cooperadas de 16 municípios paraibanos e faz coleta de leite em mais de 14 municípios da região. A cooperativa nasceu pequena: “Esse trabalho coletivo começou com 30 sócios cooperados. Nosso laticínio foi o primeiro da Reforma Agrária da Paraíba”, relata Augusto Belarmino, da direção da Coopac. Além do PAA, a cooperativa já fornece iogurte de leite de cabra para a merenda escolar de mais de 20 municípios por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), e projeta ampliar a base de fornecedores para cerca de 1,8 mil produtores.
Declarações
O anúncio foi feito durante visita do ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, ao governador da Paraíba, Lucas Ribeiro. “A Paraíba é o estado que tem o melhor desempenho na execução do Programa de Aquisição de Alimentos, o PAA Leite”, afirmou o ministro. “É uma grande alegria receber a visita do ministro Wellington Dias para discutir o fortalecimento da agricultura familiar, com a geração de mais oportunidades para quem produz”, disse o governador.
Contexto: a caprinocultura do semiárido
A criação de cabras é uma das atividades mais adaptadas ao semiárido nordestino, que concentra cerca de 90% do rebanho caprino brasileiro. A Paraíba é referência nacional em produção de leite de cabra e em melhoramento genético do rebanho, com apoio de instituições de pesquisa como a Embrapa Algodão, em Campina Grande, que mantém trabalhos voltados à qualidade do leite caprino. Historicamente, o leite de cabra da agricultura familiar paraibana teve nas compras públicas — sobretudo o Programa do Leite estadual e o PAA — o principal mercado, o que dá previsibilidade de renda ao produtor, mas também deixa a cadeia dependente do orçamento governamental.
Consequências para produtores e para a região
Para as famílias do Curimataú, a fábrica significa um comprador estável e um preço melhor pelo litro entregue, além de empregos na agroindústria. Ao converter leite em pó, a cooperativa passa a poder disputar mercados fora da Paraíba e a atravessar o período de seca sem despejar produção a preço baixo. O risco é a alta dependência de contratos públicos: sem diversificar para o varejo privado e para o mercado institucional de outros estados, a operação fica exposta a cada revisão de orçamento do PAA e dos programas estaduais.
Relação com Pernambuco
Pernambuco tem bacias leiteiras caprinas relevantes no Sertão do Pajeú e no Sertão do Araripe, e enfrenta o mesmo gargalo de escoamento e de agregação de valor. Uma planta de secagem de leite operando no Curimataú, a poucas centenas de quilômetros, funciona como referência tecnológica e, no médio prazo, como possível destino para excedentes de leite caprino pernambucano, caso a Coopac amplie sua área de captação — hoje restrita a municípios paraibanos.
Perspectivas
O teste será a entrada em operação, prevista para setembro, e a capacidade da cooperativa de honrar o contrato de R$ 6 milhões com regularidade de volume e qualidade. Se a linha de leite em pó funcionar como planejado, a Nutrilê se torna um caso concreto de industrialização da agricultura familiar no semiárido — com potencial de servir de modelo para outras cooperativas do Nordeste que hoje vendem só leite líquido e derivados frescos.
Fontes: Governo da Paraíba e Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (anúncio da compra via PAA, 27/08/2026).

