O setor sucroenergético da Paraíba deu início à safra 2026/2027 de cana-de-açúcar com a estratégia claramente voltada para o etanol. As sete usinas associadas ao Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool no Estado da Paraíba (Sindalcool) começaram a moagem entre o fim de julho e o início de agosto, e o mix de produção — a divisão entre quanto da cana vira açúcar e quanto vira álcool — deve pender para o combustível, ajustado mês a mês conforme o mercado.
O empurrão da mistura obrigatória
A aposta no etanol ganhou um reforço regulatório importante. Em 14 de julho de 2026, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou resolução que eleva temporariamente de 30% para 32% (E32) o percentual obrigatório de etanol anidro adicionado a toda a gasolina comum vendida no país. A medida tem vigência de 180 dias, prorrogável por igual período, e, segundo o governo, deve reduzir em cerca de 900 milhões de litros por ano a importação de gasolina. Na prática, cada ponto percentual a mais na mistura amplia a demanda garantida por etanol anidro — exatamente o produto que as usinas paraibanas têm priorizado.
A Paraíba já havia se movimentado nessa direção antes: o Decreto estadual nº 47.764/2025 instituiu incentivo de ICMS ao Álcool Etílico Anidro Combustível (AEAC), buscando tornar a produção local mais competitiva frente à de outros estados.
De onde o setor vem: a safra 2025/2026
A safra anterior foi difícil. Segundo o Sindalcool, as usinas paraibanas moeram 6.471.561 toneladas de cana em 2025/2026 e produziram 216.603 toneladas de açúcar e 352,2 milhões de litros de etanol (176,7 milhões de litros de anidro e 175,6 milhões de litros de hidratado). A moagem caiu pouco mais de 7% e a produção de açúcar recuou cerca de 24% na comparação com o ciclo anterior. A queda desproporcional do açúcar — muito maior que a da cana — reflete a decisão das usinas de desviar matéria-prima para o etanol diante da baixa rentabilidade do açúcar e da perda de acesso a mercados preferenciais, como a cota de exportação para os Estados Unidos.
O clima ajudou a explicar o resto: seca nas fases iniciais do canavial e chuvas em excesso no período de colheita. Em Pernambuco, o excesso de chuva comprometeu o ATR (Açúcares Totais Recuperáveis), indicador que mede quanto de açúcar cada tonelada de cana rende — quanto menor o ATR, menor a eficiência industrial. No conjunto do Nordeste, estima-se uma redução de 500 mil a 600 mil toneladas de açúcar na safra 2025/2026.
Declarações
O presidente-executivo do Sindalcool, Edmundo Barbosa, tem afirmado que, apesar do ambiente econômico desafiador, “as usinas seguem investindo em eficiência, inovação e competitividade”. Sobre a safra passada, ele avaliou que o baque foi “sentido especialmente pelas usinas da Paraíba, que passaram a reavaliar projetos de expansão”. O sindicato descreve o cenário atual como de pressão simultânea sobre os preços do etanol e do açúcar, num mercado nacional com oferta elevada.
O peso econômico na Paraíba
O setor sucroenergético paraibano responde por cerca de 20 mil empregos diretos e opera em 26 municípios, concentrados na Zona da Mata e no Litoral — regiões como Santa Rita, Sapé, Mamanguape e o entorno de João Pessoa —, além de movimentar transporte, manutenção, comércio e serviços nessas cidades. Boa parte do açúcar produzido para exportação escoa pelo Porto de Cabedelo, que funciona como hub logístico do setor no estado.
Relação com o Brasil
A política de mistura obrigatória é nacional e foi desenhada para reduzir a dependência de gasolina importada, conter preços na bomba e dar previsibilidade de demanda ao etanol. O Nordeste, porém, tem custo de produção mais alto e escala menor que o Centro-Sul, o que deixa as usinas da região mais expostas quando o preço do etanol cai. A elevação para E32 é vista pelo setor como um alívio de demanda no momento certo, ainda que temporária.
Relação com Pernambuco e Paraíba
Paraíba e Pernambuco compartilham o mesmo parque sucroenergético da Zona da Mata nordestina e enfrentam problemas parecidos: canaviais antigos, produtividade abaixo da do Centro-Sul, dificuldade de investimento e concorrência com o etanol vindo de fora da região. Uma demanda interna maior por anidro, garantida pela mistura, tende a beneficiar as usinas dos dois estados e a sustentar empregos na cadeia — do corte da cana ao transporte. O efeito sobre o consumidor local é mais indireto: em tese, mais etanol na gasolina ajuda a segurar o preço do litro na bomba, mas isso depende também do preço internacional do petróleo e da política de preços dos combustíveis, variáveis que fogem ao controle do setor.
Perspectivas
O ponto de atenção para os próximos meses é se a safra 2026/2027 consegue recuperar volume de moagem depois do recuo do ciclo anterior, e a que preço o etanol será vendido num mercado com oferta abundante. A vigência do E32 termina em cerca de seis meses, com possibilidade de renovação — e a definição sobre prorrogar ou não a mistura mais alta é a principal incerteza regulatória no radar das usinas. No médio prazo, a competitividade do setor na Paraíba passa por renovação de canaviais, ganho de produtividade e diversificação, incluindo cogeração de energia elétrica a partir do bagaço.
Fontes: Sindalcool — Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool no Estado da Paraíba (dados da safra 2025/2026 e início da safra 2026/2027.

