A Exposição Paraíba Agronegócio 2026 chega à sua segunda semana em João Pessoa com uma agenda que mistura feira tradicional e debate técnico sobre o futuro da pecuária brasileira. Nesta quinta-feira, 17 de setembro, o Parque de Exposições Henrique Vieira de Melo, no bairro Cristo Redentor, sedia o 1º Encontro Paraibano de Rastreabilidade Bovina, com 12 palestras dedicadas a explicar aos produtores da Paraíba como funcionará o novo sistema nacional de identificação individual de bovinos e búfalos, que começa a valer de forma obrigatória a partir de janeiro de 2027.
O encontro acontece dentro de uma feira que já demonstrou força de público: segundo a Secretaria de Estado do Desenvolvimento da Agropecuária e da Pesca da Paraíba (Sedap-PB), cerca de 20 mil pessoas visitaram o espaço só no domingo de abertura, 13 de setembro. A organização projeta público total de 200 mil visitantes até o encerramento, no domingo, dia 20. São 500 expositores distribuídos em 14 mil metros quadrados — área quatro vezes maior que a ocupada na edição de 2025, que teve 3,4 mil m².
O que é o programa de rastreabilidade
O tema central do encontro desta quinta-feira é o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), lançado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em dezembro de 2024, em cerimônia em Brasília com a presença do então ministro Carlos Fávaro. O plano prevê que cada animal do rebanho nacional receba uma identificação individual inviolável — um brinco amarelo com código composto pelo prefixo 076 (código ISO do Brasil) mais 12 dígitos numéricos, gerados pela Base Central de Dados de Identificação Animal do Mapa.
O cronograma oficial do Mapa é dividido em quatro etapas. Em 2025, foi desenvolvido o sistema informatizado e a base central de dados. Ao longo de 2026 — etapa em curso — os órgãos estaduais de defesa sanitária agropecuária, como a Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária da Paraíba, estão sendo integrados ao sistema nacional. A partir de 1º de janeiro de 2027 e até dezembro de 2029, começa a identificação obrigatória inicial, prioritariamente para fêmeas vacinadas contra brucelose e animais incluídos em protocolos privados homologados pelo Mapa. Entre 2030 e 2032, a exigência se estende a 100% do rebanho nacional, e a partir de 1º de janeiro de 2033 fica proibida a movimentação de bovinos e búfalos não identificados no país.
Por que o setor está de olho
A pecuária brasileira historicamente vive de rastreabilidade coletiva por lote ou propriedade, exceto em sistemas voluntários como o SISBOV, voltado à exportação para mercados mais exigentes. A adoção de identificação individual e obrigatória para todo o rebanho é vista pelo setor como uma mudança estrutural, com efeito direto sobre custos operacionais, controle sanitário e acesso a mercados internacionais mais restritivos, como a União Europeia. Fernando Sampaio, diretor de sustentabilidade da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), classificou a iniciativa como “muito importante para o setor”, em declaração à imprensa especializada por ocasião do lançamento do plano.
Para produtores de pequeno e médio porte — perfil predominante em boa parte da pecuária paraibana — a transição embute custos com identificadores, leitores eletrônicos e adequação de manejo, mas também abre caminho para melhor rastreio sanitário, redução de fraudes em movimentação de animais e, potencialmente, acesso a preços melhores em cadeias que já exigem rastreabilidade, como frigoríficos voltados à exportação.
Consequências para empresas e consumidores
Para frigoríficos, laticínios e exportadores que atuam na Paraíba e no Nordeste, a identificação individual tende a facilitar auditorias sanitárias e certificações de origem, reduzindo o risco de embargos sanitários que já afetaram exportações brasileiras de carne no passado. Para o consumidor final, a expectativa do setor é de maior garantia de origem e rastreio em caso de problemas sanitários, ainda que o efeito sobre o preço da carne no varejo dependa de como os custos de adequação forem absorvidos ao longo da cadeia — um efeito que, neste estágio inicial do programa, ainda é uma inferência econômica, não um dado confirmado.
Relação com o Brasil e com a Paraíba
O Brasil detém um dos maiores rebanhos bovinos do mundo, e a ausência histórica de um sistema nacional obrigatório de identificação individual era apontada por entidades do setor como uma lacuna frente a concorrentes como Austrália e países da União Europeia, que já operam com rastreabilidade individual consolidada. O PNIB é apresentado pelo Mapa como resposta a essa lacuna, com prazo de adaptação estendido até 2032 justamente para não onerar de forma abrupta pequenos e médios pecuaristas.
Na Paraíba, a pecuária de corte e de leite tem papel relevante na economia do interior, com polos de produção espalhados por regiões como Curimataú, Cariri e Sertão, além da própria Zona da Mata, área que teve encontro preparatório da Sedap-PB antes da exposição. A realização do 1º Encontro Paraibano de Rastreabilidade Bovina dentro da maior feira agropecuária do estado é, segundo a organização, uma forma de antecipar aos produtores locais as exigências que passam a valer em pouco mais de três meses, em janeiro de 2027, e evitar que a transição pegue o setor despreparado.
A programação da Exposição Paraíba Agronegócio 2026 também incluiu, na quarta-feira (16), o Encontro de Mulheres do Agro, com palestras sobre o papel da mulher na produção rural, além de rodadas de negócios, leilões de animais, concursos leiteiros e desfiles de raças ao longo da semana. O evento é organizado pela Sedap-PB e tem entrada gratuita, funcionando das 10h às 22h no Parque de Exposições Henrique Vieira de Melo até domingo, dia 20 de setembro.
Perspectivas
Com a etapa de integração dos sistemas estaduais em curso durante 2026, o próximo ano marca o início efetivo da obrigatoriedade da identificação individual no Brasil, ainda que restrita, a princípio, a animais já vacinados contra brucelose e inseridos em protocolos homologados. Para produtores paraibanos, o encontro técnico realizado nesta quinta-feira funciona como uma primeira aproximação prática com um processo que se estenderá até 2032, quando a exigência deve alcançar a totalidade do rebanho nacional — e que, a partir de 2033, condicionará a própria movimentação legal de bovinos e búfalos no país à identificação individual.
Fontes: Governo da Paraíba/Sedap-PB, portal oficial (paraiba.pb.gov.br), setembro de 2026; Paraíba Total, “Paraíba Agronegócio registra cerca de 20 mil visitantes na abertura da exposição”, 14 de setembro de 2026; Paraíba Online, “Exposição Paraíba Agronegócios começa neste domingo; preparativos entram na reta final”, 10 de setembro de 2026; Portal DBO, “Mapa lança plano de rastreabilidade bovina para todo o País”, 17 de dezembro de 2024; Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB).

