Os dados estruturais mais recentes sobre a construção civil no Nordeste desenham um setor que cresce de tamanho e emprega cada vez mais, mesmo em um ambiente de crédito caro. Na Paraíba, o marco veio da Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC) 2024, divulgada pelo IBGE em 17 de junho de 2026: pela primeira vez, o valor de incorporações, obras e serviços realizados no estado ultrapassou R$ 5 bilhões.
Paraíba: R$ 5 bilhões e um setor que dobrou de mão de obra formal
O número representa um crescimento de 16% sobre 2023, quando o setor havia movimentado R$ 4,31 bilhões. A maior fatia veio da construção de edifícios, com R$ 2,9 bilhões (58,2% do total), seguida pelas obras de infraestrutura, com R$ 1,5 bilhão (30,1%), e pelos serviços especializados, com R$ 590 milhões (11,7%).
O efeito sobre o emprego foi ainda mais expressivo. Segundo a PAIC, o número de empresas formais com cinco ou mais pessoas ocupadas subiu de 831 para 1.080 no estado — alta de 30% —, e o total de trabalhadores ocupados no setor passou de 27,6 mil para 35,4 mil, um avanço de 28,3% em um único ano. As remunerações pagas somaram R$ 902,8 milhões.
É importante manter a proporção: mesmo com o salto, a Paraíba responde por cerca de 6,1% do valor da construção no Nordeste e continua entre os oito menores volumes do país nesse recorte. O que os dados mostram não é que o estado virou um polo nacional do setor, e sim que a base local de construtoras e de emprego formal cresceu rápido a partir de um patamar pequeno — movimento puxado, sobretudo, por habitação e obra pública.
Pernambuco: 2º maior gerador de empregos na construção do país
Em Pernambuco, o retrato é de força no mercado de trabalho. Levantamento noticiado a partir dos dados do Novo Caged aponta que o estado gerou 19.418 empregos formais na construção civil nos 12 meses encerrados em março de 2026, o segundo maior saldo do Brasil, atrás somente de São Paulo. No início de 2026, o conjunto da economia pernambucana abriu 3.804 postos formais, dos quais a construção respondeu por 3.069 — praticamente todo o saldo do período.
Esse desempenho está ancorado em obras estruturadoras espalhadas pelo estado, como o Arco Metropolitano do Recife e o programa habitacional Morar Bem Pernambuco, além dos investimentos ligados ao complexo de Suape. O padrão é o mesmo observado no país inteiro: quem está contratando hoje não é o segmento de lançamentos imobiliários privados de alto padrão — freado pelo juro —, e sim a infraestrutura pública e a habitação popular.
O pano de fundo nacional
No plano macro, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) projeta para 2026 um ano melhor que 2025 para o setor, com expectativa de crescimento em torno de 2%, impulsionado por redução gradual de juros, crédito e investimentos em habitação e infraestrutura — o que representaria o terceiro ano seguido de expansão. As principais queixas dos empresários seguem sendo o custo do financiamento, os custos de obra acima da inflação e a falta de mão de obra qualificada.
A habitação popular continua sendo o motor. Em 1º de setembro de 2026, a Portaria MCID nº 1.147 tornou aptas à contratação 2.777 unidades do Minha Casa, Minha Vida em seis estados (Bahia, Maranhão, Goiás, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul) — Paraíba e Pernambuco não entraram nessa leva específica, mas ambos mantêm carteiras robustas no programa. Dados do Ministério das Cidades divulgados pela imprensa paraibana indicam cerca de 69,2 mil unidades habitacionais contratadas na Paraíba entre 2023 e o início de 2026, com investimento da ordem de R$ 8,7 bilhões.
O que isso significa para os negócios da região
Para quem vende material de construção, aluga equipamento ou fornece mão de obra em Pernambuco e na Paraíba, o cenário de curto prazo é de demanda relativamente garantida, porém concentrada. Garantida porque a carteira de obras públicas e de habitação já está contratada e as construtoras precisam entregar. Concentrada porque essa demanda se dirige a itens específicos — agregados, blocos, cimento, aço, formas — e a regiões definidas, como o entorno de Suape e o Sertão do São Francisco em Pernambuco, e os canteiros de rodovia, saneamento e habitação no interior e no Litoral paraibano.
O principal risco a acompanhar é a dependência de repasse orçamentário: obra pública travada por falta de liberação de recursos já derrubou emprego no setor em ciclos anteriores, e boa parte da atividade atual em PB e PE depende de dinheiro do tesouro estadual, do FGTS e de convênios federais. Do lado positivo, se a Selic continuar caindo ao longo de 2026 e 2027, tende a destravar também o segmento imobiliário privado — o que ampliaria a base de clientes de fornecedores hoje muito expostos a um único tipo de contratante, o poder público. Essa é uma leitura de tendência, não um fato consolidado.

