A Administração Geral das Alfândegas da China divulgou nesta segunda-feira, 8 de setembro de 2026, os dados de comércio exterior do país em agosto. As exportações cresceram 25% em relação a agosto de 2025 (em dólares), acelerando ante o avanço de 23,9% de julho e ficando em linha com a projeção dos analistas. As importações subiram 28,2%, também mais que em julho (27,5%), mas abaixo da expectativa de mercado, que era de alta em torno de 30%.
Com exportações crescendo perto do ritmo das importações, mas partindo de uma base muito maior, o superávit comercial da China em agosto subiu para US$ 119,1 bilhões, ante US$ 112,5 bilhões em julho — um novo recorde mensal. Economistas ouvidos pela imprensa internacional projetam que o país deve fechar 2026 com o maior superávit comercial anual de sua história.
O que puxou as exportações
O destaque veio de bens de maior valor agregado: as exportações chinesas de automóveis cresceram cerca de 43% na comparação anual e as de semicondutores dispararam quase 130%, refletindo o avanço do país na cadeia de tecnologia, automação industrial e infraestrutura de inteligência artificial. Por destino, as vendas para o Sudeste Asiático subiram 30,2%, para a América Latina 17,5% e para a União Europeia 6,6%.
Chamou atenção o dado dos Estados Unidos: apesar do tarifaço aplicado por Washington, as exportações chinesas para o mercado americano somaram US$ 42,5 bilhões em agosto, alta de 34,4% na comparação anual. O salto é explicado em boa parte pela base de comparação muito baixa — em agosto de 2025, os embarques haviam despencado no auge da guerra tarifária entre os dois países. O superávit bilateral da China com os EUA no mês ficou em torno de US$ 29 bilhões.
O ponto fraco: demanda interna
Os números de importação, abaixo do esperado, reforçam o diagnóstico de que o consumo e o investimento internos da China continuam fracos, num contexto de crise prolongada do setor imobiliário. Os dados de inflação de agosto do país — índice de preços ao consumidor (CPI) e ao produtor (PPI) — são aguardados ainda nesta semana, com o mercado atento ao risco de deflação: em julho, o CPI havia desacelerado para 0,5% no ano, e o PPI segue no campo negativo há meses. Pequim tem sido pressionada, inclusive por parceiros comerciais, a estimular mais o mercado interno e a depender menos das exportações para crescer.
Por que isso importa para o Brasil
A China é a maior parceira comercial do Brasil e a principal compradora dos produtos que sustentam o superávit comercial brasileiro recorde de 2026: petróleo, soja, minério de ferro, carnes e celulose. Há dois canais de transmissão para a economia brasileira:
Preço das commodities. Se a demanda interna chinesa continuar fraca e o governo não reagir com mais estímulo, cresce o risco de arrefecimento no preço de commodities metálicas e agrícolas ao longo de 2027 — o que reduziria a receita de exportação do Brasil e a arrecadação ligada a ela. Por ora, os preços seguem sustentados.
Concorrência de manufaturados. Uma China com capacidade industrial ociosa e demanda interna fraca tende a exportar mais bens manufaturados baratos — de eletrônicos a têxteis e calçados. Isso pressiona diretamente a indústria brasileira que compete com o produto importado.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
Os dois canais aparecem na economia regional. Pelo lado positivo, a produção agrícola e mineral que escoa pelos portos de Cabedelo e Suape depende de uma China compradora e de preços internacionais firmes. Pelo lado negativo, os polos industriais da região — as fábricas de calçados da Paraíba (Campina Grande, Patos, Sousa) e o polo de confecções do Agreste pernambucano (Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe, Toritama) — convivem há anos com a concorrência de importados asiáticos, e um aumento na oferta chinesa de manufaturados baratos torna essa disputa mais dura, sobretudo agora que a isenção para compras internacionais de até US$ 50 foi restabelecida.
Perspectivas
O modelo chinês de crescer puxado por exportações e superávits recordes já vem gerando reação de parceiros comerciais e novas barreiras — da União Europeia aos Estados Unidos e a países emergentes. Para o Brasil, o cenário ideal seria uma China que consome mais internamente (bom para o preço das commodities) sem inundar o mundo de manufaturados. Vale acompanhar os dados de inflação chineses desta semana, eventuais anuncios de estímulo por Pequim e a reunião do Federal Reserve, nos dias 15 e 16 de setembro, que também mexe com o dólar e com o preço das commodities.
Fontes
Administração Geral das Alfândegas da China, dados de comércio exterior de agosto de 2026 (divulgados em 8 de setembro de 2026);

