O mercado imobiliário da Região Metropolitana do Recife (RMR) fechou o segundo trimestre de 2026 no melhor patamar de sua história. Foram 4.018 apartamentos vendidos entre abril e junho, alta de 34% sobre o mesmo período de 2025 e 35% acima do primeiro trimestre deste ano, segundo levantamento da Brain Inteligência Estratégica para a Ademi-PE (Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco). O motor do recorde é o segmento econômico, sustentado por programas habitacionais públicos — um crescimento potente, mas concentrado e dependente de subsídio.
Os números do Grande Recife
No trimestre, foram lançados 24 empreendimentos (12 em Recife e 12 na região metropolitana), somando 4.038 unidades — salto de 142,2% frente ao primeiro trimestre — e Valor Geral de Vendas (VGV) lançado de R$ 1,88 bilhão, aumento de 111,8% na mesma comparação. Os imóveis de dois dormitórios responderam por 81% das vendas. Já os apartamentos de quatro quartos, que representavam 10% dos lançamentos no início do ano, caíram para 0,1% no segundo trimestre.
Outros indicadores acompanharam o aquecimento: o índice de Velocidade de Vendas sobre Oferta (VSO) chegou a 28,9%, o melhor já registrado na série; o preço médio ficou em R$ 11.255 por metro quadrado (alta de 0,3% no trimestre); e o estoque somava 9.873 unidades, equivalente a 8,8 meses de vendas. Em 12 meses até junho de 2026, a RMR lançou 14.051 unidades, vendeu 13.398 e movimentou R$ 6,0 bilhões em VGV de vendas.
Geograficamente, a cidade do Recife concentrou 58% das vendas da região metropolitana, seguida por Paulista, com 22,9%. Dentro da capital, o bairro da Imbiribeira liderou, com 35,3% das vendas.
O papel dos programas habitacionais
O presidente da Ademi-PE, Leonardo Pessoa de Queiroz, atribuiu o desempenho ao Minha Casa Minha Vida (federal) e ao Morar Bem Pernambuco (estadual), voltados às faixas de renda mais baixa e ao segmento popular. Juntos, os dois programas concentraram 71,9% dos lançamentos verticais do semestre. O subsídio, os juros reduzidos com recursos do FGTS e as sucessivas ampliações de teto de valor e de faixas de renda do programa federal reposicionaram a oferta: as incorporadoras migraram em massa para o produto de entrada — apartamentos compactos, de dois quartos, em bairros de classe média e média-baixa.
O outro lado: escassez no alto padrão
O avanço do segmento econômico veio acompanhado de uma retração expressiva do médio e do alto padrão. O levantamento aponta “ultraescassez” no luxo: havia apenas uma unidade acima de R$ 5 milhões em estoque na RMR ao fim do trimestre. Para o setor, isso acende um alerta — a oferta ficou pouco diversificada, e uma eventual retomada da demanda por imóveis maiores encontraria prateleira vazia, o que pode voltar a pressionar preços no topo do mercado.
João Pessoa: ritmo mais lento
Na Paraíba, o quadro é mais morno e as fontes divergem conforme a metodologia. Pelo CRECI-PB, a Grande João Pessoa vendeu 1.308 imóveis no primeiro trimestre de 2026 (474 em janeiro, 357 em fevereiro e 477 em março), queda de 13,8% ante as 1.517 unidades do mesmo período de 2025. O presidente do CRECI-PB, Rômulo Soares, avaliou que o mercado “permanece ativo”. Levantamentos da Ademi-PE/Brain que incluem João Pessoa e Cabedelo mostram, por outro lado, estoque em alta de 9,2% na capital paraibana — sinal de oferta se acumulando mais rápido que a absorção, ao contrário do Recife, onde o estoque subiu apenas 1,7%.
Consequências para empresas e consumidores
Para o comprador de baixa renda da RMR, o momento é favorável: muita oferta de dois quartos, financiamento subsidiado e concorrência entre incorporadoras. Para quem procura imóvel maior ou de alto padrão, a escolha é escassa e tende a sair caro. Para a construção civil pernambucana, o recorde significa mais obras, mais empregos e maior demanda por cimento, aço e mão de obra — com o risco de aperto de custos se o ritmo se mantiver. Para as incorporadoras, há dependência crescente das regras do programa federal: qualquer mudança de teto, faixa de renda ou orçamento do FGTS afeta diretamente o carro-chefe das vendas.
Relação com o Brasil
O desempenho da RMR espelha o do país: o Minha Casa Minha Vida vem batendo recordes nacionais de contratação em 2026, e o segmento econômico sustenta a maior parte dos lançamentos das grandes incorporadoras. O déficit habitacional brasileiro segue elevado, e o financiamento fora do FGTS continua caro por causa da Selic ainda alta — o que reforça a concentração no produto subsidiado.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
Pernambuco vive um ciclo imobiliário forte e concentrado no Recife e em municípios como Paulista, com a construção civil ajudando a puxar emprego formal na RMR. A Paraíba acompanha o mesmo vetor de política pública (MCMV e Morar Bem, no caso pernambucano; MCMV e programas locais, no caso paraibano), mas com absorção mais lenta em João Pessoa e Cabedelo neste início de 2026. O Litoral paraibano, aquecido pelo turismo e por investimentos hoteleiros, é a frente com maior potencial de puxar o médio e o alto padrão no estado.
Perspectivas
Enquanto o subsídio federal seguir robusto e o FGTS bancar juros baixos, o segmento econômico deve sustentar o setor em Pernambuco. Os pontos de atenção são a baixa diversificação da oferta, a pressão de custos na construção e a dependência de decisões de Brasília. Na Paraíba, o desafio é escoar o estoque que se acumula em João Pessoa sem depender só do produto popular.
Fontes: Folha PE (“Mercado imobiliário do Recife e da RMR registra crescimento e bate recorde histórico de vendas”, agosto de 2026); CRECI-PB (“Mercado imobiliário da Grande João Pessoa supera 1,3 mil imóveis vendidos no primeiro trimestre de 2026”).

