O setor sucroenergético da Paraíba iniciou em agosto de 2026 a moagem da safra 2026/2027 de cana-de-açúcar, em um ciclo que começa com perspectiva agrícola melhor, mas sob pressão de custos e de clima. São sete usinas associadas ao Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool no Estado da Paraíba (Sindalcool), responsáveis por cerca de 20 mil empregos diretos e com presença em 26 municípios paraibanos, principalmente na Zona da Mata e no Litoral.
De onde o setor parte
Na safra 2025/2026, encerrada no início de 2026, a Paraíba moeu 6.471.561 toneladas de cana, produziu 216.603 toneladas de açúcar e 352,226 milhões de litros de etanol — sendo 176,672 milhões de litros de anidro (misturado à gasolina) e 175,554 milhões de litros de hidratado (vendido direto na bomba). Foi um ciclo difícil: a produção de açúcar do estado caiu 24% e a moagem recuou 7%, resultado de seca no início do desenvolvimento da lavoura, chuvas em excesso na colheita e queda dos preços internacionais do açúcar em 2025. Diante disso, as usinas redirecionaram parte da cana para o etanol anidro.
A projeção para 2026/2027
Para o novo ciclo, o Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), ligado ao Banco do Nordeste, projeta que a produção de açúcar da Paraíba cresça 31,7% e alcance cerca de 295 mil toneladas — um dos maiores avanços percentuais da região. No Nordeste como um todo, a produção de açúcar deve chegar a 3,63 milhões de toneladas, alta de 10,3% sobre a safra anterior, sustentada por maior disponibilidade de cana e por ganhos de produtividade com irrigação, mecanização, uso de drones e bioinsumos.
Os números nacionais, no entanto, seguem em outra direção. No primeiro levantamento da safra 2026/2027, divulgado pela Conab em 20 de agosto de 2026, a produção brasileira de cana foi estimada em 705,2 milhões de toneladas (+4,7%), mas a de açúcar recuou 2,9%, para 42,89 milhões de toneladas, com as usinas do Centro-Sul priorizando o etanol. A produção total de etanol no país deve subir 11,7%, para 41,88 bilhões de litros. No Nordeste, a Conab projeta 55,5 milhões de toneladas de cana (+4,1%), em 923,5 mil hectares.
O fator etanol
O aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% (mandato E32) amplia a demanda pelo biocombustível e pode levar as usinas a destinar uma parcela maior da cana ao etanol. Para o consumidor de PB e PE, isso significa mais oferta de anidro e hidratado produzidos na região; para as usinas, uma alternativa de receita quando o preço do açúcar oscila.
Riscos no radar
O presidente-executivo do Sindalcool, Edmundo Barbosa, resumiu o momento ao afirmar que o setor inicia “mais uma safra com perspectiva agrícola positiva”, mas enfrenta “um ambiente econômico bastante desafiador”. As chuvas fortes registradas em maio de 2026 em Pernambuco e na Paraíba atingiram áreas produtoras e podem comprometer parte da produtividade, e uma eventual formação do El Niño traria irregularidade de chuvas ao longo do ciclo. Some-se a isso o aumento dos custos de produção e a volatilidade dos preços de açúcar e etanol.
Infraestrutura e incentivo
O setor aponta o Porto de Cabedelo como prioridade logística para a exportação de açúcar da Paraíba. No plano tributário, o Decreto estadual nº 47.764/2025 criou incentivo de ICMS voltado a estimular a atividade. As usinas têm ampliado o uso de irrigação e de colheita mecanizada para contornar a limitação territorial da região da Mata, onde ganhar produtividade é praticamente a única forma de crescer a produção.
Impacto para PB e PE
A cana é um dos principais empregadores do interior canavieiro de PB (Zona da Mata paraibana, municípios como Santa Rita, Mamanguape e Pedras de Fogo) e de PE (Mata Sul). Uma safra maior movimenta fornecedores, transporte, comércio local e arrecadação dos municípios canavieiros. O desempenho do açúcar também influencia a balança comercial dos dois estados, com embarques pelos portos de Cabedelo e de Suape. Já o etanol tem efeito direto sobre o preço do combustível para o consumidor da região.
Perspectivas
Se o clima colaborar no restante de 2026, a Paraíba deve recuperar boa parte do açúcar perdido na safra passada e reforçar sua posição entre os maiores produtores de etanol do Nordeste. O ambiente de preços internacionais de açúcar em recuperação e a demanda firme por etanol, puxada pelo E32, dão suporte à receita — desde que a produtividade no campo confirme as projeções do Etene.
Fontes: Paraíba Business / Etene – Banco do Nordeste (Açúcar da Paraíba deve crescer 31,7% na nova safra).

