O comércio eletrônico brasileiro deve fechar 2026 com faturamento recorde de R$ 259,8 bilhões, um crescimento de 10,3% sobre os R$ 235,5 bilhões movimentados em 2025. A projeção é da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (Abiacom) e foi apresentada em 30 de julho, durante o Fórum E-Commerce Brasil, com estimativa de 460,87 milhões de pedidos no ano — ante 438,9 milhões em 2025 — e uma base de 97,06 milhões de consumidores digitais, quase 3 milhões a mais do que no ano anterior. O ticket médio também deve subir, de R$ 536,60 para R$ 562,15.
Inteligência artificial muda a jornada de compra
Segundo a Abiacom, a inteligência artificial se torna cada vez mais protagonista no setor, tornando as jornadas de compra mais personalizadas. A tecnologia já é usada por varejistas para personalização de ofertas, atendimento ao cliente, previsão de demanda e gestão de estoque — funções que, segundo a entidade, ajudam a explicar por que o crescimento em valor (10,3%) supera o crescimento em número de novos compradores, com os consumidores já digitalizados comprando mais e de forma mais eficiente.
Nordeste consolida posição de segundo maior mercado digital
Ainda que o Sudeste concentre a maior fatia das transações do país — mais de 55%, com São Paulo respondendo isoladamente por 32% do volume nacional —, o Nordeste já se consolidou como o segundo maior mercado de e-commerce do Brasil em volume de transações, respondendo por cerca de 15% das vendas digitais nacionais. Esse crescimento vem atraindo investimento pesado em logística: a Amazon já aportou R$ 4,4 bilhões acumulados em 15 anos de operação na região Nordeste, dentro de um total de mais de R$ 55 bilhões investidos pela empresa no Brasil na última década, com mais de 36 mil empregos diretos e indiretos gerados.
Um dos movimentos mais recentes da empresa foi a inauguração de um centro de distribuição em Salvador, com cerca de 30 mil m², operação 24 horas e capacidade de processar até 100 mil pacotes por dia, permitindo entrega no mesmo dia na Bahia e em até dois dias para partes da Bahia e de Sergipe. Embora a Paraíba não seja a base direta dessa operação, o efeito chega ao estado por comparação: consumidores passam a cobrar prazos de entrega equivalentes aos das capitais mais bem servidas, o que empurra o varejo local a competir em velocidade, preço e qualidade de atendimento — uma pressão que tende a se intensificar à medida que operadores como Shopee (com centros de distribuição em Salvador e Recife) e a própria Amazon (com CD em Recife desde 2024) seguem ampliando a malha logística no Nordeste.
Pernambuco: Polo de Confecções usa canais digitais para vender mais longe
Em Pernambuco, o efeito prático do avanço do comércio eletrônico apareceu com força na 42ª Rodada de Negócios da Moda de Pernambuco (RNMP), realizada entre 3 e 5 de agosto no Polo de Caruaru. O evento reuniu mais de 200 expositores de nove estados e recebeu mais de mil compradores convidados de todas as regiões do país, comercializando 1,2 milhão de peças. A meta inicial era movimentar R$ 38 milhões em negócios; o resultado final superou essa marca e ultrapassou R$ 44 milhões. Reportagens do setor atribuem parte desse alcance ampliado às plataformas digitais, que abrem para lojistas de fora do estado uma vitrine permanente do que antes dependia quase exclusivamente da presença física nas rodadas de negócios semestrais.
Consequências para empresas e consumidores
Para o pequeno varejista de Pernambuco e da Paraíba, o cenário combina oportunidade e pressão: de um lado, canais como WhatsApp — presente em 99% dos smartphones e já considerado o principal canal de venda online das pequenas e médias empresas brasileiras — e marketplaces baratearam a entrada no comércio digital; de outro, a chegada de operadores logísticos de grande escala eleva o padrão de prazo de entrega que o cliente passa a exigir de qualquer vendedor, inclusive do pequeno lojista local. Para o consumidor da região, a tendência é de mais opções e prazos mais curtos, à medida que a malha logística nacional se aproxima do Nordeste.
Perspectivas
Com a base de compradores digitais já em patamar elevado nas capitais do Sudeste, a expansão do e-commerce brasileiro tende a se apoiar cada vez mais em mercados como o Nordeste — tanto pelo volume de novos consumidores quanto pela força de polos produtivos como o de confecções de Caruaru, que já demonstram como a venda física tradicional se combina com canais digitais para alcançar compradores de todo o país. É uma leitura que decorre do cruzamento dos dados apresentados, não uma projeção fechada da Abiacom ou das empresas citadas.
Fontes
Abiacom, projeção de faturamento do e-commerce brasileiro para 2026, apresentada no Fórum E-Commerce Brasil em 30 de julho de 2026 (via CNDL/Varejo SA e Central do Varejo);

