O setor sucroalcooleiro da Paraíba encerrou a safra 2025/2026 com um resultado que resume o dilema atual da cana no Nordeste: a moagem caiu pouco mais de 7%, mas a produção de açúcar recuou cerca de 24%. Os dados são do Sindalcool (Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool no Estado da Paraíba). A desproporção entre os dois números não é acidental — é resultado de uma escolha das usinas sobre o que fazer com a cana disponível.
Por que o açúcar caiu muito mais que a cana
O presidente-executivo do Sindalcool, Edmundo Barbosa, foi direto ao explicar a diferença: “Se o problema fosse apenas agrícola, a produção de açúcar teria caído proporcionalmente à moagem. O que observamos é uma redução muito maior, superior a 24%, resultado de decisões estratégicas das usinas frente à queda de preços e incertezas do mercado”.
Dois fatores se somaram. O primeiro é climático: um ciclo irregular combinou seca nas fases iniciais da cana com chuvas excessivas no período de colheita, o que reduziu tanto o volume quanto o teor de açúcar (ATR) da matéria-prima. O segundo é econômico: com o preço do açúcar em patamar pouco atrativo e a rentabilidade apertada, as usinas redirecionaram o caldo para a produção de etanol, sobretudo o anidro — aquele que é misturado à gasolina.
A aposta no etanol anidro
O etanol anidro tem uma vantagem que o açúcar não oferece no momento: demanda garantida por lei. A gasolina vendida no Brasil é obrigada a conter um percentual de etanol anidro — situado na faixa dos 27% a 30% após as elevações aprovadas pelo governo federal em 2025 —, o que assegura escoamento previsível para o produto. Para uma usina do Nordeste — região que consome mais combustível do que produz etanol —, direcionar a produção para o anidro reduz o risco de mercado num ano de preços instáveis.
Do lado estadual, o governo da Paraíba editou o Decreto nº 47.764/2025, que concede incentivo de ICMS ao Álcool Etílico Anidro Combustível (AEAC). Segundo Barbosa, a medida “deve garantir saídas interestaduais e efetividade no incentivo” — ou seja, tornar o etanol anidro paraibano mais competitivo para venda a outros estados.
Um problema regional, não só paraibano
A retração não é exclusividade da Paraíba. Em todo o Nordeste, o Sindalcool estima uma redução entre 500 mil e 600 mil toneladas de açúcar na safra 2025/2026. O canavial nordestino, concentrado na Zona da Mata de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte, vem perdendo espaço há décadas para o Centro-Sul e enfrenta produtividade menor, relevo mais difícil para mecanização e margens mais estreitas. Barbosa afirmou que o efeito “foi sentido especialmente pelas usinas da Paraíba, que passaram a reavaliar projetos de expansão”.
Relação com o Brasil
No cenário nacional, o Brasil segue como maior produtor mundial de açúcar e segundo maior de etanol, com o Centro-Sul respondendo pela maior parte da moagem. A safra nordestina tem peso pequeno no total do país, mas é relevante para o abastecimento regional de etanol e para o emprego no campo e na indústria em municípios onde a usina é a principal empregadora. A política de mistura de anidro na gasolina e os preços internacionais do açúcar são as duas variáveis que mais mexem com a decisão de produção das usinas — e ambas são definidas fora do Nordeste.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
Na Paraíba, a cana se concentra na Zona da Mata, em municípios como Santa Rita, Sapé, Mamanguape e a região do Vale do Paraíba. A migração para o etanol muda a equação de caixa das usinas e dos fornecedores de cana — parte relevante da matéria-prima moída vem de produtores independentes, que recebem conforme o ATR e o mix de produção. Menos açúcar e mais etanol, num ano de preço fraco, tende a apertar a renda desses fornecedores e a adiar investimentos em renovação de canavial.
Em Pernambuco, onde o parque sucroalcooleiro da Zona da Mata é maior que o paraibano, o quadro é semelhante: clima adverso, preço do açúcar pouco animador e aposta crescente no etanol e na cogeração de energia a partir do bagaço. A recuperação do setor nos dois estados passa menos por uma safra boa isolada e mais por ganho de produtividade agrícola, diversificação (etanol, bioeletricidade, biogás) e previsibilidade regulatória. É uma leitura estrutural, não um prognóstico para a próxima safra.
Impacto para empresas e consumidores
Para as usinas e fornecedores, o recado da safra 2025/2026 é de margem pressionada e cautela com expansão. Para o consumidor, o efeito direto é pequeno: o preço do açúcar na gôndola depende muito mais do mercado nacional e internacional do que da safra da Paraíba, e o etanol anidro misturado à gasolina tem preço diluído no valor final do combustível. O impacto mais sensível é local — na renda agrícola, na arrecadação dos municípios canavieiros e no emprego da Zona da Mata.
Perspectivas
A safra 2026/2027, que começa a ser preparada, deve manter o foco no etanol enquanto o preço do açúcar não reagir. O que vale acompanhar no médio prazo: o comportamento do clima no início do novo ciclo, a efetivação do incentivo de ICMS ao anidro na Paraíba, e a consolidação do teor mais alto de etanol anidro na gasolina, que amplia a demanda garantida pelo etanol nordestino.
Fontes
- Sindalcool-PB — balanço da safra 2025/2026 do setor sucroalcooleiro paraibano.

