O mercado imobiliário de João Pessoa deve terminar 2026 com um segundo semestre mais forte do que o primeiro. A avaliação é de Ivan Rocha, do Núcleo Imobiliário, em entrevista ao portal Política por Elas, e é sustentada pelos números de preço e de vendas na capital paraibana.
O que travou os lançamentos no primeiro semestre
Segundo Rocha, o número de lançamentos entre janeiro e junho ficou abaixo do esperado. O principal motivo foi a revisão do Plano Diretor conduzida pela Prefeitura de João Pessoa, especialmente nas áreas até 500 metros da orla, o que represou novos projetos na região mais valorizada da cidade enquanto as regras de gabarito e ocupação não eram definidas. Com incorporadores segurando o lançamento à espera de segurança jurídica, a oferta nova entrou mais devagar do que a demanda.
Preços em alta
Os dados do Índice FipeZAP confirmam o aquecimento. Em junho de 2026, o preço médio do metro quadrado para venda em João Pessoa chegou a R$ 8.286, após alta de 1,06% no mês. A valorização acumulada no ano estava em 3,76% e, em 12 meses, em 9,42% — acima da inflação do período.
Vendas: volume alto, mas abaixo de 2025
Pelo Índice Creci 360º, do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da Paraíba (Creci-PB), a Grande João Pessoa (capital mais Cabedelo) comercializou 1.308 imóveis no primeiro trimestre de 2026 — 474 em janeiro, 357 em fevereiro e 477 em março. O resultado representa retração de cerca de 13,8% ante o primeiro trimestre de 2025, quando foram 1.517 unidades.
No acumulado de janeiro a maio de 2026, os dois municípios somaram 2.164 imóveis vendidos, movimentando R$ 1,61 bilhão em Valor Global de Vendas (VGV), média de 432,8 negócios por mês. Considerando os 12 meses encerrados em maio, foram 5.417 imóveis comercializados — cerca de 14 por dia. “Os números do primeiro trimestre demonstram que o mercado imobiliário permanece ativo e com grande potencial de crescimento”, afirmou o presidente do Creci-PB, Rômulo Soares.
Onde o dinheiro está indo
O bairro do Altiplano Cabo Branco lidera com folga: em maio de 2026, concentrou 46 unidades vendidas, ou 21,4% de todas as negociações da capital. É a região que combina proximidade da orla, verticalização recente e ticket médio alto — e onde a trava do Plano Diretor pesou mais.
Consequências para empresas e consumidores
Para as incorporadoras e construtoras, o cenário é de margem pressionada pelo custo de obra e pelo crédito caro, mas com demanda firme o suficiente para sustentar preço. A expectativa de um segundo semestre com mais lançamentos — depois de definidas as regras do Plano Diretor — deve reaquecer a contratação no setor. A construção civil está entre os segmentos que mais geram emprego formal na Paraíba, e incorporadoras de porte, como o Setai Grupo GP, já sinalizam abertura de vagas em João Pessoa e Cabedelo.
Para o consumidor, o recado é duplo: quem compra para morar enfrenta preço em alta e menos opções novas na orla no curto prazo; quem compra para investir, sobretudo em locação por temporada, encontra um mercado com ocupação turística crescente no Litoral, mas com entrada mais cara. Os juros do financiamento seguem como o principal fator de decisão.
Relação com o Brasil
O quadro pessoense reproduz, em escala local, o que acontece no país: queda nos lançamentos e resiliência nas vendas. No Brasil, foram 107,2 mil unidades lançadas no segundo trimestre de 2026 (-1,3% ante o mesmo trimestre de 2025) e 211,6 mil no primeiro semestre (-0,3%). O mercado nacional é sustentado pelo Minha Casa, Minha Vida na baixa renda e pela demanda de alto padrão nas capitais, enquanto o miolo — classe média com financiamento a juro de mercado — é o mais sensível ao aperto monetário.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
Na Paraíba, além de João Pessoa e Cabedelo, o eixo de crescimento imobiliário inclui o Litoral Sul (Conde, Jacumã) e Campina Grande. Em Pernambuco, o mercado do Recife e da Região Metropolitana vive dinâmica parecida — verticalização na orla de Boa Viagem e do Pina, revisão de legislação urbanística e forte procura por segunda moradia no Litoral Sul (Porto de Galinhas, Muro Alto). Nos dois estados, o debate de fundo é o mesmo: como conciliar adensamento na orla, preço de moradia e preservação da paisagem.
Perspectivas
A definição das regras do novo Plano Diretor de João Pessoa é o gatilho mais importante para o setor no curto prazo. Se destravar os projetos da orla ainda em 2026, a capital deve ver uma safra concentrada de lançamentos de alto padrão no fim do ano e início de 2027. O ritmo de vendas, porém, seguirá amarrado ao custo do crédito imobiliário.
Fontes: Índice FipeZAP, junho de 2026; Creci-PB, Índice Creci 360º (1º trimestre de 2026 e acumulado de 12 meses);

