O polo calçadista de Campina Grande, um dos motores da indústria paraibana, fechou o acumulado de 2026 com alta de 21,7% nas exportações, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) divulgados em agosto. O desempenho contrasta com o do polo de Juazeiro do Norte, no Ceará, que recuou 22% no mesmo período, e coloca o polo paraibano em evidência num ano difícil para o setor.
O tamanho do polo
O polo calçadista paraibano é formado por Campina Grande e por municípios do entorno, como Mogeiro, Araruna, Ingá, Alagoa Nova e Guarabira. As estimativas de porte variam conforme a fonte, mas convergem para um setor relevante: em torno de 400 a 600 empresas formais e algo entre 10 mil e 16 mil empregos diretos. Campina Grande concentra a maior parte da produção estadual de calçados e é referência nacional em sandálias sintéticas, segmento em que está entre os maiores fabricantes do país.
Pelos números da Abicalçados, o polo de Campina Grande respondeu por cerca de 13,1% da produção nacional de calçados em 2025 e por aproximadamente 5,68% do valor das exportações brasileiras do setor. Somado a Juazeiro do Norte, os dois polos nordestinos representaram 15,6% da produção do país.
Um crescimento sob pressão externa
A alta das exportações de Campina Grande em 2026 chama a atenção porque acontece em meio a um dos piores cenários comerciais recentes para o calçado brasileiro. Em julho de 2026, o governo dos Estados Unidos aplicou uma sobretaxa adicional de 25% sobre os calçados importados do Brasil, medida da representação comercial norte-americana (USTR) que entrou em vigor no dia 22 daquele mês. O setor calçadista ficou de fora da lista de exceções, e as negociações entre Brasil e Estados Unidos para ampliar os produtos isentos foram retomadas apenas no fim de agosto, sem acordo fechado até o começo de setembro.
Com a tarifa, a Abicalçados revisou para baixo a projeção de exportações do setor em 2026, passando a estimar queda média de 7,1% no ano — ante previsão anterior de recuo de 3,6%. Os Estados Unidos são um destino relevante para o calçado brasileiro, e a entidade afirma que a sobretaxa “reduz de forma significativa a competitividade” e inviabiliza parte das operações que haviam sido retomadas no início do ano.
Nesse contexto, o crescimento de Campina Grande sugere duas coisas: parte das vendas de 2026 foi antecipada antes da tarifa entrar em vigor, e o polo paraibano tem pauta de exportação menos dependente do mercado norte-americano do que a média — com presença em países da América Latina e da África, mercados para os quais a sandália sintética de preço acessível é competitiva.
O gargalo que não é tarifa
Além do cenário externo, o polo convive com um problema estrutural apontado por levantamento setorial: a cadeia de fornecedores. Prazo de entrega e preço dos materiais são justamente os pontos em que há maior distância entre o que as fábricas consideram importante e o que os fornecedores efetivamente entregam. A pouca presença de fornecedores de insumos e de centros de inovação perto das fábricas — diferente do que ocorre no Vale dos Sinos (RS) — aumenta custo e tempo de resposta, e limita a capacidade do polo de subir de patamar em design e valor agregado.
Consequências para empresas e trabalhadores
Para as fábricas paraibanas, o momento exige diversificação de mercados e ganho de eficiência para compensar a perda de competitividade nos Estados Unidos. Para os trabalhadores, o risco é de desaceleração das contratações no segundo semestre caso a tarifa se mantenha e a projeção de queda nas exportações se confirme. O emprego calçadista é importante em cidades médias do agreste e do brejo paraibano, onde a indústria é uma das poucas alternativas ao comércio e ao setor público.
Relação com o Brasil
O caso de Campina Grande é um retrato da indústria brasileira de transformação em 2026: crescimento em alguns polos, retração em outros, e um choque tarifário externo que atinge de forma desigual setores como calçados, máquinas, madeira e açúcar, todos submetidos à tarifa máxima dos Estados Unidos. A resposta que o setor pede — abertura de novos mercados, acordos comerciais e crédito para exportação — depende de decisões do governo federal.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
Na Paraíba, o calçado é um dos principais itens da pauta industrial e de exportação, ao lado de açúcar e álcool e de alimentos. Um tropeço prolongado nas exportações teria efeito direto sobre a arrecadação e o emprego em Campina Grande e no agreste. Em Pernambuco, a conexão é com o polo de confecções do agreste (Caruaru, Toritama, Santa Cruz do Capibaribe), que compartilha com o calçado paraibano a mesma lógica de produção intensiva em mão de obra e sensível a custo de insumo — e que também está exposto à concorrência de importados e às oscilações do câmbio.
Perspectivas
O segundo semestre de 2026 será decisivo. Se a negociação com os Estados Unidos avançar e o calçado entrar na lista de exceções, o polo de Campina Grande tende a sustentar o crescimento. Se a tarifa de 25% permanecer, o desafio será redirecionar volume para outros mercados sem comprimir demais a margem — e sem repassar o custo ao emprego local.
Fontes: Movimento Econômico, “Com fornecedor e inovação longe da fábrica, calçado do NE perde salto nas vendas”, 11/08/2026 (dados da Abicalçados);

