O setor sucroenergético do Nordeste iniciou em agosto a moagem da safra 2026/27 com expectativa de recuperação depois de um ciclo anterior fraco. Em Pernambuco, o Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool (Sindaçúcar-PE) projeta o processamento de 13 milhões de toneladas de cana, com produção de 910 mil toneladas de açúcar e 390 milhões de litros de etanol. Na Paraíba, um estudo do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), ligado ao Banco do Nordeste, estima produção de 295 mil toneladas de açúcar — crescimento de 31,7% sobre a safra 2025/26, um dos maiores avanços percentuais da região.
Pernambuco: mais cana e mais etanol
Segundo o presidente do Sindaçúcar-PE, Renato Cunha — que também preside a Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (NovaBio) —, a quantidade de cana colhida em Pernambuco deve crescer entre 3% e 4% nesta safra. A moagem prevista de 13 milhões de toneladas supera as 12,462 milhões de toneladas da safra 2025/26. A produção de açúcar passaria de 877 mil para 910 mil toneladas, e a de etanol, de 357 milhões para 390 milhões de litros. No início do mês, quatro das 13 usinas em operação no estado já haviam iniciado a moagem, que costuma se estender até fevereiro ou março. Cerca de 65 mil pessoas trabalham na safra da cana em Pernambuco.
O aumento relativo da produção de etanol tem duas explicações, de acordo com Cunha. A primeira é a instabilidade do preço internacional do açúcar, que depende de variáveis externas e leva as usinas — que podem alternar o mix ao longo da moagem — a priorizar o biocombustível. A segunda é o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, que passou de 30% para 32%. Pela projeção da NovaBio, essa mudança tem potencial de adicionar entre 900 milhões e 1,05 bilhão de litros à demanda nacional pelo produto. Cunha cita ainda como fator de atenção a possibilidade de a Índia comprar cerca de 1 milhão de toneladas de açúcar do Brasil até 31 de outubro, o que poderia melhorar os preços e mexer no mix.
Paraíba: recuperação puxada por produtividade
A projeção de 295 mil toneladas de açúcar para a Paraíba integra estudo do Etene assinado pela pesquisadora Maria de Fátima Vidal. No conjunto do Nordeste, a produção de açúcar deve chegar a 3,63 milhões de toneladas na safra 2026/27, alta de 10,3% ante o ciclo anterior, enquanto a produção de cana da região cresceria 3,7% — resultado de uma expansão de 1,3% na área plantada somada a um ganho de 2,3% em produtividade.
Como Paraíba e Pernambuco têm pouco espaço para abrir novas lavouras na Zona da Mata, o caminho para produzir mais passa por tecnologia: irrigação, colheita mecanizada, drones, bioinsumos e manejo mais eficiente. O estudo estima que a Paraíba deve alcançar 36,2% de mecanização da colheita, embora o relevo de parte das áreas produtoras ainda dificulte o uso de máquinas. Na distribuição regional projetada pelo Etene, Alagoas segue na liderança (1,64 milhão de toneladas de açúcar), seguida por Pernambuco (990,2 mil toneladas na conta do Etene, acima das 910 mil trabalhadas pelo Sindaçúcar com dados de início de safra), Bahia e Rio Grande do Norte (214 mil toneladas cada) e Piauí (118 mil toneladas).
De onde vem a recuperação
A safra 2025/26 foi ruim para a Paraíba: a produção de açúcar do estado caiu 24% e a moagem recuou pouco mais de 7%, segundo o Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool no Estado da Paraíba (Sindalcool-PB). “Se o problema fosse apenas agrícola, a produção de açúcar teria caído proporcionalmente à moagem”, observou na época o presidente-executivo da entidade, Edmundo Barbosa, apontando questões também industriais e de mix. No conjunto do Nordeste, estimou-se perda de 500 mil a 600 mil toneladas de açúcar naquele ciclo.
Para 2026/27, os riscos não desapareceram. As fortes chuvas de maio de 2026 em Pernambuco e na Paraíba atingiram áreas produtoras e podem comprometer parte da produtividade. Uma eventual formação do El Niño também pode trazer irregularidade de chuvas ao longo do ciclo. E a disputa da cana entre açúcar e etanol, acirrada pela mistura de 32%, faz com que o volume final de açúcar dependa das decisões de mix de cada usina.
Relação com o Brasil
O Nordeste responde por uma fatia pequena da produção nacional de cana, concentrada no Centro-Sul, e ainda convive com rendimento médio de lavoura abaixo do observado nas principais regiões produtoras. Por isso, o ganho de produção regional depende menos de abrir área e mais de produzir melhor no mesmo espaço. A elevação da mistura de anidro para 32%, medida federal, aumenta a demanda por etanol em todo o país e beneficia diretamente as usinas nordestinas que optarem por reforçar o biocombustível.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
A cadeia da cana é um dos principais empregadores rurais da Zona da Mata em ambos os estados — Mata Norte e Mata Sul em Pernambuco, e a faixa canavieira do litoral e do Brejo na Paraíba. Uma safra maior tende a movimentar usinas, fornecedores de cana, transportadores, oficinas de máquinas, revendas de insumos e o comércio das cidades canavieiras, além de pressionar por serviços de irrigação, análise de solo e monitoramento de lavoura. O escoamento de açúcar e etanol também envolve a logística dos portos de Suape (PE) e Cabedelo (PB). O tamanho desse efeito, porém, depende da confirmação da produtividade esperada e da parcela de cana efetivamente destinada ao açúcar — uma parte da projeção ainda é cenário, não resultado garantido.
Perspectivas
Se as projeções se confirmarem, 2026/27 será uma safra de virada para a Paraíba e de crescimento moderado para Pernambuco, com mais etanol na conta por causa da nova mistura na gasolina. O recado do setor é que o futuro da cana no Nordeste passa por tecnologia e gestão: sem espaço para crescer em área, quem ganhar produtividade ganha competitividade.
Fontes
Movimento Econômico.

