O comércio eletrônico brasileiro deve faturar R$ 258,9 bilhões em 2026, crescimento de 9,9% em relação a 2025, segundo projeção da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (Abiacom). O levantamento estima 460,9 milhões de pedidos ao longo do ano e ticket médio de R$ 562,15 — números que confirmam a consolidação do canal digital como parte estrutural do varejo brasileiro, não mais um nicho em expansão.
O gargalo da entrega: roubo de carga ainda tira R$ 900 milhões do setor
Se o faturamento sobe, a logística de última milha segue sendo o ponto mais sensível da cadeia. Levantamento da NTC&Logística (Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística) contabilizou 8.570 ocorrências de roubo de carga em 2025 no país, queda de 16,7% em relação ao ano anterior — mas o prejuízo direto permaneceu próximo de R$ 900 milhões, e ultrapassa R$ 1 bilhão quando somados custos de seguro, escolta e atrasos na entrega. Para conter o problema, transportadoras como a J&T Express, que opera com 16 mil veículos nos 5.570 municípios brasileiros, vêm adotando telemetria e câmeras veiculares para identificar riscos como fadiga do motorista e desvios de rota em tempo real.
Pernambuco entre os líderes do Nordeste, Paraíba aparece pela primeira vez
Um estudo da ICTS Security sobre o mapa de risco logístico no país mostra que o problema não está concentrado só no Sudeste. Pernambuco aparece na 3ª posição do ranking nacional de ocorrências, com 296 casos registrados, atrás apenas de estados do Sudeste — e a Bahia, também no Nordeste, figura na 4ª posição, com 205 casos. A região Nordeste como um todo responde por 14,3% dos prejuízos nacionais com roubo de carga. O dado mais novo, porém, é o da Paraíba: sem nenhum registro nas operações monitoradas pelas gerenciadoras de risco em 2024, o estado passou a responder por 1,1% dos prejuízos nacionais em 2025 — evidência de que rotas de criminalidade logística, historicamente concentradas em eixos como a BR-101 na altura de Pernambuco e Bahia, começam a se espalhar para além dos corredores tradicionais.
Perfil da carga roubada e o recorte do e-commerce
Por tipo de mercadoria, cargas fracionadas — volumes menores, mais compatíveis com entregas de e-commerce — lideram os prejuízos regionais, com 38,8% do total, seguidas por produtos de higiene e limpeza (15%), alimentos (14,2%) e eletrônicos (13,3%). No recorte específico de cargas ligadas ao comércio eletrônico, o Sudeste ainda concentra 96% das ocorrências no país, mas o Nordeste já desponta como a segunda região mais afetada — o que reforça a leitura de que o crescimento do e-commerce na região atrai também a atenção do crime organizado especializado em cargas.
Consequências para empresas e consumidores de Paraíba e Pernambuco
Para lojistas e marketplaces que vendem para a região, o cenário significa custo operacional crescente: mais seguro, mais escolta em rotas sensíveis e, em alguns casos, sobretaxa de frete para cobrir o risco elevado — despesa que tende a ser repassada, ainda que parcialmente, ao preço final pago pelo consumidor. Para pequenos comerciantes de Pernambuco e da Paraíba que dependem de transportadoras terceirizadas para receber estoque comprado em outros estados, o aumento da incidência de roubos pode significar atrasos e ruptura pontual de estoque, especialmente em datas de pico de vendas como Black Friday e Natal.
Relação com o Brasil
O quadro nacional mostra um paradoxo: o volume de ocorrências caiu 16,7% em 2025, mas o prejuízo financeiro segue elevado porque o crime se profissionalizou, mirando cargas de maior valor agregado e rotas específicas. A tendência de queda em ocorrências, mas manutenção do prejuízo, sugere que a resposta das transportadoras (tecnologia de rastreamento, mudança de rotas, escolta) tem reduzido o número de casos sem necessariamente reduzir o impacto financeiro quando o roubo de fato acontece.
Perspectivas
Com o e-commerce projetando novo recorde de faturamento em 2026 e o crime logístico avançando para estados antes fora do radar, como a Paraíba, é razoável esperar que transportadoras ampliem investimento em segurança também no Nordeste nos próximos ciclos — uma inferência a partir da tendência já registrada em outras regiões que passaram por movimento semelhante, não uma garantia, já que a resposta depende de decisões de investimento de cada empresa e de política de segurança pública em cada estado.
Fontes
Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (Abiacom), projeção de faturamento do e-commerce brasileiro para 2026 (via Brasil em Folhas, setembro de 2026); NTC&Logística (Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística), levantamento de ocorrências de roubo de carga em 2025; ICTS Security, estudo sobre mapa de risco logístico no Nordeste, divulgado pelo SEGS Portal Nacional de Seguros e pelo Movimento Econômico (março de 2026).

