O comércio eletrônico brasileiro somou 139 milhões de compradores nos 12 meses encerrados em agosto de 2026, um crescimento de 20 milhões de pessoas em relação ao ciclo anterior. Os dados são de um levantamento do SPC Brasil em parceria com a Offerwise Pesquisas, divulgado em 4 de setembro. Mais do que o número de novos consumidores, o estudo aponta uma mudança de comportamento: quem já compra online está comprando com mais frequência e criando mais fidelidade a lojas e aplicativos específicos.
O que mostram os números
Segundo o levantamento, a média mensal de pedidos por consumidor avançou de 4,6 para 5,1, e a proporção de pessoas que fizeram ao menos uma compra digital no último mês subiu de 54% para 66%. A taxa de recompra também chamou atenção: 95% dos consumidores retornaram ao mesmo site ou aplicativo em que já haviam comprado antes, um indicador de fidelização mais forte do que o de crescimento pela entrada de novos usuários. O ticket médio ficou praticamente estável, em R$ 225 (ante R$ 224 em 2025), e a penetração nas capitais é alta: 85% dos consumidores digitais nas regiões metropolitanas fizeram ao menos uma compra online no período.
Entre as categorias mais procuradas estão moda e vestuário (49%), cosméticos e produtos para cabelo (44%), artigos para casa (39%) e medicamentos e vitaminas (32%). No consumo por plataforma, o TikTok aparece como a rede com maior participação de acessos ligados a compras (24%), seguido por Instagram (17%) e YouTube (12%); o WhatsApp foi citado por 73% dos entrevistados como canal usado em alguma compra no último mês, reforçando o papel do aplicativo de mensagens como vitrine informal de pequenos vendedores.
Contexto do setor
O resultado confirma uma trajetória de expansão que vem sendo puxada não só por grandes marketplaces, mas por um comércio social cada vez mais forte — lojistas que vendem por redes sociais e aplicativos de mensagens, muitas vezes sem operar um site próprio. Esse formato reduz a barreira de entrada para pequenos negócios, que passam a competir com operações maiores usando as mesmas plataformas de descoberta e pagamento.
Consequências para empresas e consumidores
Para o pequeno e médio varejista, o dado mais relevante é o de recompra: como 95% dos consumidores voltam à mesma loja, investir em relacionamento e experiência de pós-venda passa a valer tanto quanto atrair um cliente novo. Para o consumidor, a maior frequência de compra e a diversificação de canais (marketplace, rede social, mensagens) tendem a aumentar a concorrência de preço e frete entre lojistas, o que no curto prazo favorece quem compra.
Relação com o Brasil
O avanço nacional do e-commerce segue impulsionado pela consolidação do Pix como meio de pagamento predominante nas compras digitais e pela chegada de novos formatos de venda, como o live commerce testado por plataformas de vídeo curto. O crescimento de 20 milhões de novos compradores em um único ano indica que o público que ainda não comprava online está encolhendo, o que deve deslocar a disputa entre varejistas da simples captação de novos clientes para a retenção e a frequência de compra.
Relação com Pernambuco e Paraíba
Em Pernambuco, o polo de confecções do Agreste — com destaque para Caruaru e Santa Cruz do Capibaribe — vive um momento de forte digitalização. Segundo reportagem do Diário de Pernambuco publicada em 9 de julho, o número de vendedores da região ativos na plataforma Shopee cresceu 80% em 2025, elevando a participação do Agreste no total de vendedores do estado na plataforma de 11,2% para 17% em um ano. A movimentação já reflete em toda a cadeia produtiva local, com mais contratação de costureiras, contadores e especialistas em e-commerce, além de maior formalização de negócios que antes operavam de maneira informal. Casos individuais, como o de um vendedor que relatou alta de 800% nas vendas em menos de seis meses, ilustram o potencial do canal, ainda que não representem a média do polo.
Na Paraíba, dados do Instituto de Planejamento, Estatística e Desenvolvimento (Indep), via Fecomércio-PB, em parceria com a Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (Abiacom), citados em reportagem de 4 de agosto, projetam crescimento de 10,8% nas vendas online do estado em relação ao ano anterior — dentro de uma perspectiva nacional de 18,49 milhões de pedidos. Um retrato do comportamento do consumidor local: 21,81% dos consumidores da Região Metropolitana de João Pessoa afirmaram pretender comprar pela internet o presente do Dia dos Pais daquele ano. Outro ponto de atenção regional, apontado pelo Mapa Shopee 2026, é que itens de manutenção automotiva (retrovisores, escapamentos, componentes de áudio) lideram as compras online em estados do Norte e Nordeste, incluindo Paraíba e Pernambuco — um perfil de consumo distinto do observado em praças do Sul e Sudeste.
Perspectivas
Com a base de compradores próxima da maturidade nas capitais, a expansão do e-commerce brasileiro tende a se apoiar cada vez mais no interior e em formatos de venda social, caso do que já ocorre no Agreste pernambucano. Para pequenos empreendedores de Pernambuco e Paraíba, o desafio deixa de ser apenas "entrar" no comércio eletrônico e passa a ser competir por recorrência de compra em um mercado com consumidores mais exigentes e mais fiéis a quem já os atende bem — uma leitura que é uma inferência a partir do cruzamento dos dados, não um dado fechado do levantamento.
Fontes
SPC Brasil e Offerwise Pesquisas, levantamento nacional de e-commerce divulgado em 4 de setembro de 2026 (via TrendsCE); Diário de Pernambuco, “Cresce em 80% número de vendedores do Agreste de Pernambuco em plataforma de e-commerce” (9 de julho de 2026); Paraíba Business, “Compras online ganham força entre consumidores da Paraíba” (4 de agosto de 2026), com dados do Indep/Fecomércio-PB e Abiacom; Central do Varejo, Mapa Shopee 2026.

