O custo de construir no Brasil voltou a acelerar em agosto de 2026. O Índice Nacional de Custo da Construção – Mercado (INCC-M), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e divulgado em 26 de agosto de 2026, registrou alta de 0,85% no mês, ante 0,62% em julho. No acumulado de 12 meses, o índice chega a 6,56% — uma desaceleração na comparação com os 7,49% acumulados até agosto de 2025, mas ainda acima da inflação medida pelo IPCA no mesmo intervalo.
A conta subiu por causa da mão de obra
A aceleração de agosto tem uma origem clara. O grupo Mão de Obra subiu 1,56% no mês, quase o dobro do 0,93% de julho. Já o grupo Materiais, Equipamentos e Serviços avançou apenas 0,33%, abaixo dos 0,40% do mês anterior. Ou seja: o que encareceu a obra em agosto foi o custo do trabalhador — salários, encargos e reajustes de convenções coletivas —, não o preço do cimento, do aço ou do tijolo, que seguem relativamente comportados.
Esse padrão não é novo. Em 2025, o INCC fechou o ano em 5,92%, também puxado principalmente pela mão de obra, que subiu perto de 9% no período. A construção brasileira convive há mais de um ano com escassez de profissionais qualificados — pedreiros, armadores, eletricistas, encanadores — e essa disputa por gente aparece direto no índice.
Recife desacelerou; a maioria das capitais acelerou
Das sete capitais que compõem o INCC-M, cinco aceleraram em agosto: Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo. Apenas Salvador e Recife tiveram desaceleração na taxa de variação. Para o Nordeste, e para Pernambuco em particular, é um dado de alívio na margem: significa que a pressão de custo na praça do Recife perdeu força em agosto, ainda que o índice nacional tenha subido.
Onde isso pesa: financiamento na planta
O INCC é o indexador padrão dos contratos de compra de imóvel ainda em construção. Enquanto a obra não fica pronta, é esse índice — e não o IPCA nem a TR — que corrige o saldo devedor e as parcelas pagas pelo comprador diretamente à construtora. Uma alta de 0,85% em um mês, ou de 6,56% em um ano, se transfere para o boleto de quem comprou apartamento na planta.
Nas regiões metropolitanas de João Pessoa e do Recife, e em Campina Grande, onde o mercado de lançamentos residenciais está aquecido, isso atinge milhares de famílias que assinaram contrato nos últimos dois anos e ainda esperam a entrega das chaves. Para essas famílias, o custo mensal do imóvel sobe antes mesmo de a dívida bancária começar. É um efeito silencioso, que só aparece quando o comprador compara o valor da parcela deste mês com a de um ano atrás.
Onde isso pesa: obra pública e privada em andamento
O outro lado afetado são as construtoras e as prefeituras. Contratos de obra normalmente preveem reajuste por índices setoriais — INCC, SINAPI ou similares. Quando a mão de obra encarece acima do previsto, o valor final da obra sobe, e a diferença é absorvida ora pela empresa (que perde margem), ora pelo poder público (que gasta mais do que orçou), ora pelo cronograma (obra que trava esperando aditivo).
Na Paraíba, o governo estadual mantém uma carteira cheia de obras — escolas, unidades de segurança, pavimentação e drenagem — e a prefeitura de João Pessoa iniciou 2026 com a construção de seis residenciais populares, somando cerca de 1.280 moradias e investimento em torno de R$ 214 milhões. Em Pernambuco, o Complexo de Suape concentra grandes obras e puxa a demanda por mão de obra especializada em toda a região. Todo esse volume de obra pública ajuda a sustentar o emprego formal na construção — que seguiu crescendo em 2026 —, mas também fica mais caro quando o INCC acelera.
Contexto: atividade perdeu fôlego no 2º trimestre
A alta de custo chega num momento em que a atividade do setor já dava sinais de desaceleração. O PIB da construção civil recuou 0,4% no segundo trimestre de 2026 ante os três meses anteriores, segundo o IBGE, embora ainda acumule alta no semestre. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) atribui a freada ao juro alto por mais tempo do que o previsto e mantém a projeção de crescimento de 1,2% para o setor em 2026, apoiada em infraestrutura, saneamento e no programa Minha Casa, Minha Vida. A combinação de atividade mais fraca com custo em alta é o pior dos mundos para a margem das empresas: menos obra para diluir custo fixo e cada obra saindo mais cara.
Perspectivas
O comportamento do INCC no restante de 2026 depende sobretudo da mão de obra, já que os materiais seguem sem grande pressão. Se a atividade continuar desacelerando, a disputa por profissionais tende a arrefecer e o índice pode perder força nos próximos meses. Se as obras públicas contratadas entrarem em ritmo forte no segundo semestre, a pressão salarial se mantém. Para o consumidor de Paraíba e Pernambuco que pensa em comprar imóvel, a leitura prática é: o custo de um imóvel na planta continua subindo mês a mês pelo INCC, e vale simular a parcela corrigida antes de fechar negócio, além de comparar com o preço de unidades prontas, onde a correção pelo INCC já não incide.
Fontes
- FGV IBRE — “INCC-M: índice da construção sobe 0,85% em agosto”, divulgado em 26/08/2026 (variação do mês, 12 meses, grupos Mão de Obra e Materiais, Equipamentos e Serviços, comportamento por capital). Disponível em portal.fgv.br e portalibre.fgv.br.
- FGV IBRE — INCC-M de julho de 2026 (base de comparação: 0,62% no mês; Mão de Obra 0,93%).
- IBGE — Contas Nacionais Trimestrais, PIB do 2º trimestre de 2026 (construção -0,4%), divulgado em 01/09/2026.
- CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) — projeção de crescimento de 1,2% para a construção em 2026 e dados de custo de 2025 (INCC 5,92%).
- Prefeitura de João Pessoa — “Prefeitura inicia 2026 com a construção de seis residenciais, totalizando mais de 1,2 mil moradias” (cerca de 1.280 unidades; investimento em torno de R$ 214 milhões).
Imagem ilustrativa/conceitual gerada por inteligência artificial (obra de edifício residencial) — não é registro fotográfico de fato, empresa ou local específico.

