Um dos maiores nomes do varejo alimentar brasileiro passou por um forte ajuste. O Grupo Mateus, rede com origem no Maranhão e a maior do Norte e Nordeste, encerrou as operações de 28 lojas e desligou cerca de 6,6 mil funcionários entre o fim de 2025 e o início de 2026, segundo levantamentos da imprensa especializada em varejo a partir dos balanços da companhia.
As 28 unidades fechadas são todas da bandeira EletroMateus, o braço de eletroeletrônicos e eletrodomésticos do grupo — e não das lojas de alimentos (supermercados e atacarejos), que seguem em operação e expansão seletiva. Os fechamentos se concentraram nos estados de maior presença histórica da rede: Maranhão, Pará, Piauí, Ceará, Sergipe e Bahia.
O que a empresa diz
O Grupo Mateus classifica o movimento como “otimização de portfólio” e reestruturação operacional, com o objetivo de priorizar a eficiência e a rentabilidade das unidades que já funcionam. Entre os fatores citados pela companhia estão a desaceleração do consumo, uma estrutura de despesas considerada grande demais depois de um ciclo de expansão acelerada, a mudança de estratégia nos canais de atacado e venda digital e o encerramento de pontos com desempenho cronicamente abaixo do esperado.
Os números de resultado ajudam a entender a lógica: o lucro bruto do 2º trimestre de 2026 do grupo foi de R$ 2,31 bilhões, alta de 10,4% sobre o mesmo período do ano anterior. Ou seja, o corte de lojas deficitárias e de pessoal veio acompanhado de melhora na margem — que é exatamente o efeito buscado. Reportagens do setor indicam que o quadro de funcionários da companhia recuou de um patamar próximo de 47,9 mil para cerca de 41,2 mil pessoas ao longo de um ano; a magnitude percentual desse corte varia conforme a base de comparação usada em cada balanço.
Um setor inteiro apertando o cinto
O ajuste do Grupo Mateus não é um caso isolado. O varejo de supermercados e atacarejos brasileiro convive com consumo mais retraído, custos logísticos elevados, juros altos e concorrência acirrada entre as grandes redes de atacado de autosserviço.
O concorrente Assaí seguiu caminho parecido no capítulo dos custos: apesar de quase dobrar o lucro recorrente no 2º trimestre de 2026 (R$ 344 milhões, alta de 93,6% na comparação anual) e de reduzir seu endividamento ao menor nível desde o fim de 2021, a rede cortou pela metade o plano de aberturas de lojas para 2026 — de cerca de 20 para perto de 10 — e reforçou a disciplina de capital. É o mesmo roteiro: menos expansão, mais foco em rentabilizar o que já existe.
Como estão as vendas
O quadro de demanda, porém, não é de colapso. Segundo o índice de Consumo nos Lares Brasileiros da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), as vendas do setor cresceram 3,28% em julho de 2026 ante julho de 2025, e 3,01% sobre junho. No acumulado de janeiro a julho, o avanço é de 2,67%. O vice-presidente da Abras, Marcio Milan, atribuiu o resultado de julho à queda dos preços dos alimentos no domicílio — recuo de 1,14% no mês pelo IPCA —, que aliviou o orçamento das famílias, e ao mercado de trabalho ainda aquecido.
A leitura combinada é esta: a demanda por comida resiste, puxada por preços de alimentos mais comportados, mas a rentabilidade das redes está sob pressão — e a resposta das empresas tem sido enxugar estrutura em vez de crescer a qualquer custo.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
Os fechamentos do Grupo Mateus não atingiram diretamente a Paraíba nem Pernambuco — as baixas de EletroMateus ocorreram em outros seis estados. Ainda assim, o grupo mantém presença relevante nos dois estados com suas lojas de alimentos, e é a única rede nordestina entre as dez maiores do varejo alimentar do país (receita bruta de R$ 43,5 bilhões em 2025, 3ª colocada no ranking da Abras).
Na contramão do movimento de retração, a rede pernambucana Novo Atacarejo segue abrindo lojas na Paraíba e em Pernambuco: passou de 40 unidades em operação e está presente em mais de 30 cidades dos dois estados, com centro de distribuição em Moreno, na Região Metropolitana do Recife. Cada nova unidade gera de 200 a 300 empregos diretos — um contraponto local relevante ao enxugamento das grandes redes de capital aberto.
Para o consumidor paraibano e pernambucano, o efeito mais concreto de curto prazo veio pelos preços: a deflação dos alimentos no domicílio em julho deu algum fôlego ao carrinho de compras. Para o trabalhador do setor, o recado é mais duro — num ambiente de margens apertadas, as redes tendem a priorizar produtividade por loja, o que significa contratação mais seletiva mesmo onde as vendas crescem.
Perspectivas
O segundo semestre do varejo alimentar depende da trajetória dos juros e da inflação de alimentos. Se os preços da cesta seguirem comportados e o emprego resistir, as vendas devem manter crescimento real modesto. Do lado das empresas, o ciclo é claramente de consolidação: menos lojas novas, mais fechamento de pontos deficitários e foco em margem. Para a Paraíba e Pernambuco, a expansão de redes regionais como o Novo Atacarejo é o que deve sustentar a geração de empregos no setor enquanto os grandes grupos nacionais seguram o passo.
Imagem ilustrativa/conceitual gerada por inteligência artificial (interior de supermercado) — não é registro fotográfico de rede, loja ou pessoa específica.

