A Federação das Indústrias do Estado da Paraíba (FIEPB) e o Sebrae Paraíba formalizaram uma parceria para produzir o diagnóstico econômico mais detalhado já tentado no estado: o “Raio-X da Indústria Paraibana”, que pretende mapear a vocação produtiva e as oportunidades de desenvolvimento de todos os 223 municípios da Paraíba. O acordo foi assinado durante o evento “Juntos pela Indústria”, realizado em Campina Grande no início de setembro de 2026.
O que o projeto pretende levantar
Segundo as entidades, o trabalho vai reunir dados, tendências e oportunidades de cada município para montar um retrato econômico, industrial, social e territorial da Paraíba. A ideia é entender, cidade por cidade, qual é a realidade local: as vocações produtivas, os potenciais econômicos, as cadeias produtivas já instaladas e as emergentes, as vulnerabilidades e as brechas para novos investimentos.
O produto final será um “Mapa de Oportunidades para a Paraíba”, que deve mostrar o que cada município produz e comercializa, o que ele adquire de outros estados — ou seja, onde há dinheiro saindo da Paraíba para pagar produtos que poderiam ser feitos aqui — e quais atividades têm potencial de expansão e de gerar desenvolvimento local. Além do diagnóstico e do mapa, o projeto prevê a construção de uma agenda de desenvolvimento econômico para o estado.
Por que isso importa
A Paraíba tem uma economia industrial concentrada em poucos polos — calçados e couro em Campina Grande e no Sertão, têxtil e confecções, cimento e sucroalcooleiro no Litoral e na Zona da Mata, serviços e comércio em João Pessoa e Campina Grande. A maior parte dos 223 municípios não aparece nas estatísticas industriais e vive de comércio, agropecuária de subsistência, serviços públicos e transferências de renda.
Um mapeamento como esse serve para dois públicos. Para o poder público, é um instrumento de planejamento: permite direcionar crédito, qualificação profissional e políticas de atração de empresas para onde há vocação real, em vez de espalhar recursos sem critério. Para o empresário, é um guia de decisão: mostra onde há demanda não atendida, insumo importado que poderia ter fornecedor local e nichos com espaço para um negócio novo.
O pano de fundo: um ciclo de abertura de empresas
O projeto chega num momento em que a Paraíba registra ritmo acelerado de formalização de negócios. Dados da Junta Comercial do Estado da Paraíba (Jucep) mostram que, no primeiro trimestre de 2026, foram abertas 19.782 empresas no estado, contra 15.111 no mesmo período de 2025 — alta de 30,9%. João Pessoa liderou, com 8.108 novos registros (crescimento de 39,4%), seguida por Campina Grande, com 2.906 aberturas (alta de 41,6%). Santa Rita, Patos e Bayeux também tiveram avanço expressivo. Com isso, a Paraíba chegou a cerca de 437 mil empresas ativas.
Boa parte desse movimento é de micro e pequenos negócios e de microempreendedores individuais — os setores que mais abriram são serviços de promoção e vendas, varejo de vestuário e serviços de beleza. É justamente esse universo, pulverizado e de baixa estrutura, que o Sebrae quer alcançar com ferramentas de gestão, digitalização e acesso a mercado. Em paralelo, o Sebrae Paraíba lançou uma Central de Negócios voltada a fortalecer pequenas empresas e ampliar o acesso delas a compras públicas.
Projeção de crescimento acima da média
A Paraíba tem aparecido em levantamentos de bancos e institutos entre os estados com maior projeção de crescimento do PIB no Nordeste em 2026, puxada por serviços, comércio, construção e agropecuária. Esse cenário de expectativa positiva é o que dá sentido a um esforço de mapeamento: há investimento procurando destino, e o estado quer ter dados para disputá-lo.
Comparação com Pernambuco
Pernambuco tem uma base industrial mais diversificada e concentrada — o polo automotivo de Goiana, o complexo de Suape (petroquímica, plásticos, energia, movimentação portuária), o polo de confecções do Agreste (Caruaru, Toritama, Santa Cruz do Capibaribe) e a fruticultura irrigada de Petrolina. A Paraíba parte de uma estrutura menor, mas a lógica do “Raio-X” — enxergar o interior como conjunto de economias locais com potencial, e não como vazio produtivo — é a mesma que sustenta arranjos produtivos bem-sucedidos no lado pernambucano. O resultado do mapeamento pode, inclusive, revelar complementaridades entre municípios paraibanos e cidades pernambucanas de fronteira, sobretudo no Agreste e no Sertão. Essa possibilidade de integração é uma leitura de contexto, não um objetivo formal declarado do projeto.
Perspectivas
O valor do “Raio-X da Indústria Paraibana” vai depender de três coisas: da qualidade e da atualização dos dados coletados, da transformação do diagnóstico em decisões concretas de crédito e política industrial, e da continuidade do projeto além de um ciclo de governo. Diagnósticos econômicos estaduais não faltam no Brasil; o que costuma faltar é uso. Se o mapa virar base para editais, financiamento e atração de empresas, pode ser um divisor de águas para o interior paraibano. Se ficar na gaveta, será mais um relatório.
Fontes: FIEPB e Sebrae Paraíba (formalização do projeto no evento “Juntos pela Indústria”, Campina Grande).

