A construção civil brasileira perdeu fôlego no segundo trimestre de 2026. Segundo os dados das Contas Nacionais Trimestrais divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 1º de setembro de 2026, o valor adicionado da construção recuou 0,4% na comparação com o primeiro trimestre, na série com ajuste sazonal. O resultado veio na contramão do conjunto da economia: o Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu 0,5% no mesmo intervalo.
O tropeço interrompe uma sequência de trimestres positivos. Na comparação com o segundo trimestre de 2025, a construção ainda cresceu 1,0%, e no acumulado do primeiro semestre de 2026 o setor mantém alta de 1,1% ante igual período do ano passado. Ou seja, o ano começou forte para o segmento e a leitura de abril a junho representa uma desaceleração, não uma reversão de rota — mas é uma desaceleração que preocupa quem depende do calendário de novas obras.
Juro alto é o principal freio
A avaliação predominante no setor é que o resultado reflete um ambiente econômico mais adverso, com a taxa básica de juros em patamar elevado por mais tempo do que se esperava no início do ano. Juro alto encarece o financiamento imobiliário para as famílias, eleva o custo de capital das incorporadoras e torna mais caro rolar as dívidas das obras em andamento.
A economista-chefe da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Ieda Vasconcelos, resumiu a inquietação do setor ao comentar os números: “O resultado do segundo trimestre preocupa, sobretudo pelos possíveis reflexos nas decisões de novos investimentos”. A frase aponta para o risco de que projetos ainda no papel sejam adiados enquanto o custo do dinheiro não cede.
Emprego formal ainda resiste
Apesar da freada no PIB setorial, o mercado de trabalho da construção seguiu criando vagas no primeiro semestre. Pelos dados compilados pela CBIC a partir do Novo Caged, o saldo de empregos formais no setor cresceu 6,52% na comparação com o primeiro semestre de 2025, e o total de trabalhadores com carteira assinada na construção chegou a cerca de 3,12 milhões em junho, alta de 3,16% em doze meses. As obras de infraestrutura puxaram esse desempenho, com cerca de 65 mil novos postos formais no semestre — um crescimento de aproximadamente 30% ante 2025 —, enquanto o segmento de edificações ficou praticamente estável.
Esse contraste — PIB trimestral em queda, emprego ainda em expansão — costuma acontecer nos pontos de inflexão do ciclo: a atividade nos canteiros que já estão rodando sustenta a mão de obra por alguns meses, mas a contratação de novas equipes depende de decisões de investimento que estão justamente sendo revistas.
Contexto: o que vinha antes
A construção foi um dos motores da economia brasileira em 2024 e no início de 2026, favorecida pelo programa Minha Casa, Minha Vida, por obras de infraestrutura e por concessões e projetos de saneamento. A CBIC manteve, mesmo depois do dado ruim do trimestre, a projeção de crescimento de 1,2% para o setor em 2026, justamente por avaliar que esses vetores — infraestrutura, concessões, saneamento e habitação popular — continuam de pé e devem compensar a retração dos empreendimentos privados de médio e alto padrão, mais sensíveis ao juro.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
Os dois estados entram no segundo semestre com uma agenda de obras cheia, o que ajuda a amortecer localmente um cenário nacional mais frio. Na Paraíba, a Superintendência de Obras do Plano de Desenvolvimento do Estado (Suplan) coordena neste ano cerca de 150 obras, com investimento da ordem de R$ 1,7 bilhão, concentradas em educação (novos complexos e escolas padrão), segurança pública (batalhões e unidades prisionais), pavimentação e drenagem — um volume que mantém construtoras e fornecedores locais ocupados independentemente do humor do mercado imobiliário privado.
Em Pernambuco, o Complexo Industrial e Portuário de Suape segue como principal polo de grandes obras do estado, atraindo mão de obra especializada de toda a região, e a construção vem sendo um dos setores que mais abrem vagas com carteira assinada. Nas regiões metropolitanas do Recife e de João Pessoa, e em Campina Grande, o segmento de incorporação residencial — esse sim exposto ao crédito — é o que tende a sentir mais rápido o efeito de um juro que não recua: menos lançamentos novos, ritmo de vendas na planta mais lento e maior seletividade dos bancos no financiamento ao comprador.
Para o consumidor da Paraíba e de Pernambuco que pensa em comprar imóvel, o quadro tem dois lados. De um lado, a desaceleração da atividade pode conter a escalada de preços em alguns nichos e abrir espaço para negociação em estoques prontos. De outro, o custo do financiamento segue alto, o que reduz o poder de compra de quem depende de crédito — e esse é, hoje, o fator que mais pesa na conta. É uma inferência econômica, não uma previsão: o efeito final vai depender da trajetória da Selic nos próximos meses.
Perspectivas
O segundo semestre da construção depende essencialmente de dois fatores: a sinalização do Banco Central sobre quando o juro começa a cair e o ritmo de execução das obras públicas e de infraestrutura já contratadas. Se a política monetária começar a afrouxar antes do fim do ano, o setor pode fechar 2026 dentro da projeção de 1,2%; se o juro seguir travado, o risco é de que o adiamento de investimentos privados apontado pela CBIC se concretize e puxe o número para baixo. Para Paraíba e Pernambuco, a carteira de obras estaduais e o polo de Suape funcionam como um colchão — mas não substituem, no médio prazo, a retomada do mercado imobiliário privado.
Fontes
- IBGE — Contas Nacionais Trimestrais, PIB do 2º trimestre de 2026, divulgado em 01/09/2026.
Imagem ilustrativa/conceitual gerada por inteligência artificial (obra de edifício residencial) — não é registro fotográfico de fato, empresa ou local específico.

