O varejo de supermercados vive um paradoxo em 2026: as vendas continuam crescendo em valor, mas o volume que entra no carrinho encolhe. O balanço do Grupo Mateus referente ao segundo trimestre, divulgado em agosto, traduz bem essa tensão — e ela pesa de forma particular sobre a Paraíba e Pernambuco.
Os números do trimestre
A companhia, maior varejista de alimentos de capital nordestino (sede em São Luís, no Maranhão), registrou receita líquida de R$ 9,85 bilhões entre abril e junho, alta de 12,2% sobre o mesmo período de 2025. O crescimento veio da consolidação da bandeira Novo Atacarejo, da abertura de lojas nos últimos 12 meses e do avanço do atacado B2B e da linha de eletroeletrônicos.
O problema aparece no indicador que mede o desempenho das unidades já existentes. As vendas nas mesmas lojas (SSS, na sigla em inglês), sem ajuste de calendário, ficaram negativas em 8% no trimestre — ante um crescimento de 6,1% no segundo trimestre de 2025. A companhia atribuiu o resultado ao “consumo ainda pressionado, ao elevado nível de endividamento das famílias e a mudanças no perfil da cesta de compras”.
O lucro líquido somou R$ 236,8 milhões, alta de 11,2% sobre o primeiro trimestre de 2026, mas queda de 39,3% na comparação com um ano antes. O lucro bruto avançou 10,4%, para R$ 2,31 bilhões, com margem bruta de 23,5%, e o Ebitda pós-IFRS 16 cresceu 25,5% ante o trimestre anterior, para R$ 681,6 milhões. Ou seja: a empresa ganhou eficiência sequencial, mas ainda opera bem abaixo do patamar de rentabilidade de 2025. O Grupo Mateus encerrou junho com 313 unidades, sendo 234 lojas de varejo alimentar, depois de inaugurar seis no trimestre.
Por que o Nordeste pesa mais
As lojas do Grupo Mateus nas regiões Norte e Nordeste — seus principais mercados — vêm operando com desempenho abaixo da média nacional da própria companhia. A explicação está no perfil econômico dessas praças: uma fatia maior do orçamento das famílias depende de programas de transferência de renda e de trabalho informal, o que torna o consumo mais sensível à inflação de alimentos e ao custo do crédito. Quando o preço da comida sobe, o consumidor da região responde rápido — reduz a quantidade de itens, troca marcas líderes por marcas próprias ou mais baratas e migra do supermercado de vizinhança para o atacarejo.
O contraste com o Assaí
O trimestre não foi ruim para todo o setor. O Assaí, líder no formato de atacarejo, teve lucro líquido recorrente de R$ 344 milhões no segundo trimestre, alta de 93,6% em um ano, com receita líquida de R$ 19,17 bilhões. Suas vendas nas mesmas lojas cresceram 0,9% (excluído o efeito calendário) e o fluxo mensal de clientes superou 40 milhões, alta de 3,4%. A leitura de mercado é que, num cenário de inflação de alimentos que pode chegar a cerca de 7% até o fim de 2026, o modelo de atacarejo — preço baixo, compra em volume — tende a capturar melhor a migração do consumidor. O Grupo Mateus, que também opera atacarejo mas tem forte peso de supermercados de vizinhança, sente os dois lados.
O que dizem os índices do setor
Os indicadores agregados mostram um setor que ainda cresce, mas devagar. O índice de consumo nos lares da ABRAS (Associação Brasileira de Supermercados) apontou, em julho, alta real de 3,28% sobre julho de 2025 e de 3,01% sobre junho, com acumulado real de 2,67% no ano. Já o índice antecedente de vendas do IDV (Instituto para Desenvolvimento do Varejo) projetou para julho um crescimento nominal de 3,1%, mas queda real de 1,7% no volume, descontada a inflação — as metodologias divergem, mas apontam para a mesma direção: o faturamento sobe mais pelo repasse de preços do que pelo aumento da quantidade vendida. Em 2025, o varejo alimentar brasileiro faturou R$ 1,145 trilhão, o equivalente a 9,02% do PIB.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
O Grupo Mateus é um dos maiores empregadores privados do Nordeste e tem presença consolidada nos dois estados. A bandeira Novo Atacarejo soma cerca de 37 unidades entre Pernambuco e Paraíba, e a rede tinha, no início de 2026, ao menos 11 lojas de varejo alimentar em território paraibano. Na Região Metropolitana do Recife, a companhia inaugurou neste ano unidades em Jaboatão dos Guararapes e Igarassu — esta última, a nona sob a bandeira de atacarejo na região metropolitana.
Para o consumidor paraibano e pernambucano, o momento é de mais concorrência por preço: com as grandes redes disputando o mesmo cliente que encolheu a cesta, tendem a se multiplicar promoções, marcas próprias e lojas de atacarejo perto de casa. Para o pequeno e médio supermercadista da região — que não tem a escala de compra das gigantes —, o cenário é mais duro: a pressão de preço da rede grande aperta a margem de quem depende de poucos pontos de venda. Para fornecedores locais, de hortifrúti a pequenas indústrias de alimentos, a mudança no perfil da cesta (menos itens, mais foco em básico) redefine o que tem espaço na gôndola.
Perspectivas
O segundo semestre concentra as datas mais importantes do calendário do varejo — e será o teste real do setor. A pergunta é se a inflação de alimentos cede o suficiente para aliviar o orçamento das famílias do Nordeste antes do Natal, ou se o consumo segue defensivo, puxando as vendas nas mesmas lojas para o vermelho mesmo com a receita total em alta pela expansão de unidades. Para o Grupo Mateus, a recuperação da rentabilidade depende menos de abrir loja e mais de fazer o cliente que já tem voltar com o carrinho mais cheio.
Fontes
- SuperHiper (ABRAS) — “Grupo Mateus registra lucro líquido de R$ 237 milhões no 2T26 e reforça foco em rentabilidade” — https://www.superhiper.com.br/grupo-mateus-registra-lucro-liquido-de-r-237-milhoes-no-2t26-e-reforca-foco-em-rentabilidade/
Imagem ilustrativa/conceitual gerada por IA (loja de atacarejo) — não é registro fotográfico de fato, empresa ou local específico.

