A Paraíba se prepara para entrar no mapa mundial da computação quântica. O Centro Internacional de Computação e Tecnologias Quânticas da Paraíba (CIQUANTA-PB), que está sendo montado em João Pessoa, deve receber entre agosto e outubro de 2026 dois computadores quânticos — um de 20 qubits e outro de 100 qubits. Segundo o governo estadual, serão os primeiros equipamentos do tipo em operação efetiva no Brasil e na América Latina.
O que é o projeto
O centro será instalado na Estação das Artes Luciano Agra, no centro de João Pessoa, num espaço de mais de 5,1 mil metros quadrados com controle de temperatura e estabilidade — requisito técnico dos processadores quânticos, que operam a temperaturas próximas do zero absoluto. Além da sala dos computadores, o CIQUANTA terá um centro de formação com cursos que vão do nível técnico ao pós-doutorado, presenciais e a distância, e auditórios para treinamento.
O investimento anunciado é superior a R$ 75 milhões, podendo ultrapassar R$ 80 milhões. A esse valor soma-se um Projeto de Residência em Tecnologias Quânticas, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com R$ 20 milhões ao longo de 36 meses, 156 bolsas e a meta de capacitar cerca de 500 profissionais em seis cidades do país.
A parceria com a China
O CIQUANTA-PB é resultado de um acordo que reúne o Governo da Paraíba, o Governo Federal, por meio do MCTI, e a China Electronics Technology Group Corporation (CETC), estatal chinesa responsável pelo fornecimento dos equipamentos e pela transferência de tecnologia. A previsão é que as peças dos dois computadores cheguem juntas e sejam montadas em sequência — primeiro o de 100 qubits, depois o de 20 —, dentro do cronograma entre agosto e outubro.
Por que a Paraíba
A escolha do estado está ligada à base acadêmica local. A Paraíba concentra grupos de pesquisa em física e informação quântica na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), além de cerca de 150 mil estudantes universitários. O secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Cláudio Furtado, tem destacado a “formação acadêmica sólida” e a localização geográfica no Nordeste como atributos que pesaram na decisão.
O projeto também prevê a criação de uma rede de comunicação quântica entre João Pessoa e Campina Grande e o uso da infraestrutura para processar dados do radiotelescópio BINGO, instalado no interior paraibano para estudo da energia escura.
O que muda para empresas e para a economia
Computação quântica ainda é uma tecnologia em estágio inicial no mundo todo: os processadores atuais servem sobretudo para pesquisa, desenvolvimento de algoritmos, simulação de materiais, criptografia e otimização — não substituem os computadores convencionais no dia a dia das empresas. O valor imediato do CIQUANTA, portanto, é menos o poder de cálculo e mais o efeito sobre o ecossistema: formação de pessoal altamente qualificado, atração de pesquisadores e a possibilidade de que surjam startups de base tecnológica em torno do centro.
A Paraíba tem hoje cerca de 96 startups em operação, 58% delas sediadas em João Pessoa e 27% em Campina Grande, e vem tentando ancorar uma economia digital apoiada também na expansão da geração de energia renovável no estado e em investimentos em data centers — a HostDime, por exemplo, anunciou a construção de um novo data center em João Pessoa voltado a inteligência artificial e nuvem. A aposta do governo é que a infraestrutura quântica funcione como um chamariz para esse conjunto.
Relação com Pernambuco
O CIQUANTA nasce a poucas centenas de quilômetros do Porto Digital, no Recife, um dos maiores parques tecnológicos do país, que reúne empresas de software, inteligência artificial, fintechs e serviços digitais. A proximidade abre a possibilidade — ainda uma inferência, não um resultado — de colaboração entre os dois polos: pesquisadores e empresas pernambucanas poderiam usar a infraestrutura quântica paraibana para projetos de criptografia, logística e otimização, enquanto o ecossistema do Recife oferece capital, aceleração e mercado para eventuais spin-offs. A integração dependeria de acordos institucionais que ainda não foram anunciados.
Perspectivas
O primeiro teste do projeto é logístico: a chegada e a montagem dos equipamentos dentro do cronograma previsto para o segundo semestre de 2026. Depois vem o desafio de colocar o centro em operação plena, formar as primeiras turmas da residência e comprovar, na prática, a capacidade de gerar pesquisa aplicada e negócios. É um investimento de retorno longo, mais próximo de uma política de ciência e tecnologia do que de um projeto com impacto econômico imediato — mas que coloca a Paraíba, ao menos no discurso, à frente de estados maiores nessa fronteira.
Fontes
- Governo da Paraíba / Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior — “Do Nordeste para o mundo: Paraíba terá o primeiro computador quântico da América Latina” — https://paraiba.pb.gov.br/diretas/secretaria-da-ciencia-tecnologia-inovacao-e-ensino-superior/noticias/do-nordeste-para-o-mundo-paraiba-tera-o-primeiro-computador-quantico-da-america-latina
Imagem ilustrativa/conceitual gerada por IA (laboratório de computação quântica) — não é registro fotográfico do centro, de equipamento ou de local específico.

