O Brasil vai precisar comprar mais trigo no exterior. A Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) revisou para cerca de 9 milhões de toneladas a projeção de importação do cereal, acima dos 7,5 milhões estimados inicialmente. O dado foi apresentado nesta quinta-feira (24), durante o 11º Encontro da Cadeia Produtiva do Trigo de São Paulo, na Fiesp, segundo a Agência Safras.
Safra menor e trigo fora do padrão
A produção brasileira está estimada em cerca de 5,7 milhões de toneladas, mas o volume efetivamente disponível para a indústria tende a ser menor por causa das perdas climáticas. “Para moagem, o volume total produzido não conta toda a história”, disse Daniel Kümmel, presidente-executivo da Abitrigo, ao lembrar que pesa também onde o grão está e se ele atende às especificações de qualidade dos moinhos.
Argentina com safra acima do normal
Do outro lado da fronteira, o cenário é de fartura. Gabriel Gavarrino, da Câmara Arbitral da Bolsa de Cereais da Argentina, projetou produção de cerca de 22 milhões de toneladas em 2026/27, em 6,5 milhões de hectares, com 97% das lavouras em condição boa ou muito boa. Com estoques iniciais de 4,5 milhões de toneladas e consumo interno de 8 milhões, sobrariam mais de 16 milhões para exportação. “O El Niño na Argentina não é prejudicial. É benéfico, diferentemente do que acontece no Brasil”, afirmou.
Rússia ainda mais barata
No preço, o trigo russo leva vantagem por enquanto. Pelos cálculos da Safras & Mercado, o custo de importação CIF São Paulo era de R$ 1.513 por tonelada para o produto russo e de R$ 1.637 para o argentino, com dólar a R$ 5,17. O analista Elcio Bento avalia que a Rússia enfrenta dificuldades logísticas e que o quadro pode se inverter, com trigo argentino em abundância e qualidade para competir. Pedro Renault, superintendente de pesquisa econômica do Itaú, ponderou que uma alta sustentada nos preços exigiria quebra de safra não compensada por outras regiões.
O que isso significa para a Paraíba e Pernambuco
O Nordeste produz pouco trigo e depende do grão que chega pelos portos para abastecer moinhos, padarias e a indústria de massas e biscoitos. O trigo está entre as principais cargas do Porto de Cabedelo, que em 2026 ampliou o calado para 11 metros. Uma importação maior tende a movimentar os terminais da região; para padarias e indústrias, o que vai definir o custo da farinha nos próximos meses é a disputa de preço entre o trigo argentino e o russo — e o câmbio.
Fontes
Safras & Mercado / Agência Safras, 24 de setembro de 2026 — Brasil deve importar 9 mi de t de trigo e Argentina pode ampliar oferta com safra acima do normal (Ritiele Rodrigues e Luciana Abdur).
Porto de Cabedelo / Companhia Docas da Paraíba — informações institucionais sobre cargas do porto.

