As exportações brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 24,1 bilhões entre janeiro e agosto de 2026, uma queda de 9,7% em relação ao mesmo período de 2025. O recuo, de cerca de US$ 2,6 bilhões, leva as vendas ao menor patamar para os oito primeiros meses do ano desde 2023. Os dados são do Monitor do Comércio Brasil-EUA, da Câmara Americana de Comércio (Amcham Brasil), divulgado em 9 de setembro.
O que os números mostram
O levantamento separa os produtos brasileiros em dois grupos: os que foram alvo das sobretaxas impostas pelos Estados Unidos a partir de julho de 2026 e os que ficaram de fora. A diferença de desempenho entre eles é grande. As vendas de mercadorias sujeitas a tarifas adicionais de 25% a 37,5% caíram 29,1% no acumulado do ano, passando de US$ 5,1 bilhões para US$ 3,6 bilhões. Considerando todos os itens que sofreram algum tipo de tarifa extra, a queda foi de 11,4%; entre os produtos não taxados, de 8,3%. Só em agosto, os itens sobretaxados recuaram 10,5%.
Alguns segmentos concentram as maiores perdas. Segundo a Amcham, no acumulado de 2026 as exportações de madeira de coníferas para os EUA caíram 55,3%, as de fumo não manufaturado 39,9%, as de sebo bovino 39,4% e as de granito trabalhado 37,4%. “O comércio permanece em trajetória de contração em 2026, com perdas para as duas economias. Brasil e Estados Unidos negociaram cerca de US$ 5,2 bilhões a menos neste ano”, afirmou a entidade.
Como se chegou aqui
Os Estados Unidos são historicamente o segundo maior destino das exportações brasileiras, atrás apenas da China, e o principal comprador de manufaturados do país. A partir de julho de 2026, o governo americano passou a aplicar tarifas adicionais sobre uma lista de produtos do Brasil, com alíquotas que chegaram a 37,5% em alguns casos. A medida elevou o custo do produto brasileiro na ponta americana, reduziu a margem dos exportadores e, em parte dos contratos, inviabilizou a venda.
O efeito não é uniforme porque a pauta de exportação para os EUA é diversa: inclui petróleo e derivados, aço, celulose, café, suco de laranja, calçados, madeira, pescado e frutas. Onde a tarifa incidiu com força total e existe concorrente de outro país sem sobretaxa, a perda de mercado foi rápida.
Consequências para empresas e consumidores
Para as empresas exportadoras, o quadro de 2026 é de redirecionamento. Parte das vendas que iriam para os EUA está sendo reofertada a outros mercados, muitas vezes com desconto, o que reduz a receita mesmo quando o volume é mantido. Setores intensivos em mão de obra, como calçados, móveis e alimentos processados, são os mais sensíveis, porque uma queda de pedidos se traduz rapidamente em menos horas trabalhadas e menos contratações.
Para o consumidor brasileiro, o efeito direto é pequeno, mas há um canal indireto: produtos que deixam de ser exportados podem sobrar no mercado interno e pressionar preços para baixo em alguns nichos (o oposto vale para insumos importados dos EUA que ficaram mais caros ou escassos). O impacto maior é macroeconômico: os Estados Unidos são uma fonte relevante de dólares para o país, e uma queda persistente nessa conta influencia câmbio, arrecadação e nível de emprego nas regiões exportadoras.
Relação com o Brasil
No agregado nacional, a balança comercial brasileira segue superavitária em 2026 – o acumulado do ano até a primeira semana de setembro passava de US$ 57 bilhões, com projeção do MDIC de US$ 90 bilhões no fechamento -, sustentada pela China e por outros mercados. Ou seja, o país está compensando parte da perda com os EUA, mas com uma pauta mais concentrada em commodities (soja, minério, petróleo) e menos em manufaturados de maior valor agregado, justamente o que os Estados Unidos compravam.
Relação com Pernambuco e Paraíba
Nos dois estados, o tarifaço tem peso desigual. Em Pernambuco, levantamentos divulgados pela Federação das Indústrias (Fiepe) e pelo governo estadual em julho estimaram que cerca de R$ 380 milhões em exportações estavam em risco imediato – o equivalente a boa parte de tudo o que o estado vende aos Estados Unidos. Os setores mais expostos são o de frutas do Vale do São Francisco, com destaque para uva e manga (no caso da uva, a tarifa total chegou a superar 30%), e o sucroalcooleiro da Zona da Mata. O polo industrial e portuário de Suape, que embarca derivados de petróleo e outros produtos, também está no radar de quem monitora o efeito das barreiras.
Na Paraíba, o resultado até agora foi diferente. Dados citados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam alta de cerca de 5,9% nas exportações paraibanas destinadas aos Estados Unidos no primeiro semestre de 2026, mesmo com a maioria dos estados brasileiros em queda. A pauta local para o mercado americano é concentrada em calçados e sucos e polpas de fruta, e parte desse resultado se explica por contratos fechados antes da vigência plena das tarifas – o que significa que a resistência pode não se manter nos próximos trimestres. É uma leitura de conjuntura, não uma garantia de que o estado ficará imune.
Perspectivas
O comportamento das exportações para os EUA no fim de 2026 vai depender de eventual negociação entre os dois governos sobre a lista de produtos sobretaxados e do ritmo com que os exportadores encontrarem mercados alternativos. Para o Nordeste, o teste mais concreto é a safra de frutas do segundo semestre no Vale do São Francisco, que tem os Estados Unidos entre os principais compradores. Os próximos boletins mensais da Secex/MDIC e da Amcham devem mostrar se a queda acumulada se estabiliza ou se aprofunda.
Fontes
Amcham Brasil, Monitor do Comercio Brasil-EUA, divulgado em 9 de setembro de 2026 (reportagens de Correio Braziliense, Poder360 e RIC); Agencia Brasil, “Tarifa de 37,5% dos EUA atinge US$ 6,6 bi em exportacoes do Brasil” (julho de 2026);

