Começa nesta sexta-feira (4) e vai até domingo (6) a 4ª edição do Festival Garapirá, na Aldeia Laranjeira, em Baía da Traição, no Litoral Norte da Paraíba. São três dias dedicados à preservação, ao fortalecimento e à difusão dos saberes do povo Potiguara por meio da música, da espiritualidade, das artes integradas e das práticas tradicionais.
De onde vem o festival
O Garapirá foi idealizado por Zé Silva, do Coletivo Estrela Dalva, e Marilene Lourenço, do grupo Coco de Roda Potiguara Flor de Laranjeira. Nascido como iniciativa comunitária, o festival se consolidou como um dos principais encontros da cultura indígena na Paraíba. A proposta é promover o encontro entre gerações, fortalecer a identidade cultural e ampliar o protagonismo de grupos historicamente à margem — mulheres, juventudes, mestres e mestras tradicionais, pessoas LGBT e pessoas com deficiência.
Uma das marcas do evento é a valorização do coco de roda, dança e canto de tradição afro-indígena que é patrimônio vivo do Litoral Norte paraibano. Nas edições anteriores, o festival reuniu mais de 25 grupos culturais de todas as aldeias do território Potiguara de Baía da Traição, com apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
O território Potiguara
A Paraíba abriga a maior concentração do povo Potiguara do país. São cerca de 30 aldeias distribuídas pelos municípios de Baía da Traição, Marcação e Rio Tinto, em terras indígenas demarcadas no Litoral Norte. É uma população que mantém língua, rituais, agricultura tradicional e organização própria, e que tem no turismo de base comunitária, no artesanato e nos eventos culturais fontes de renda e de afirmação identitária.
Por que isso importa
Festivais como o Garapirá cumprem uma função que vai além do calendário cultural. Para a comunidade, são um instrumento de transmissão de conhecimento entre mestres e jovens, num contexto em que muitas tradições orais correm risco de se perder. Economicamente, movimentam hospedagem, alimentação, transporte e venda de artesanato durante os dias de evento, levando visitantes a um território que, fora dessas datas, recebe fluxo turístico modesto. E, politicamente, dão visibilidade à pauta indígena — demarcação, saúde, educação diferenciada — num ano de eleições estaduais.
Relação com Pernambuco
A cultura Potiguara não se encerra nas fronteiras da Paraíba. Em edições anteriores, o Garapirá recebeu a participação da etnia Kapinawá, de Pernambuco, num intercâmbio que conecta os povos indígenas dos dois estados. Pernambuco tem uma das maiores diversidades étnicas do Nordeste — Xukuru do Ororubá, Fulni-ô, Pankararu, Kapinawá, entre outros — e mantém festivais e rituais próprios, como o Toré. Esses encontros reforçam redes de solidariedade e de troca cultural que atravessam a divisa e ajudam a projetar a cultura indígena nordestina para fora da região.
Perspectivas
O desafio do Garapirá, como o de tantos festivais comunitários, é a sustentação: depende de editais públicos, de apoio institucional e do trabalho voluntário da própria comunidade. A continuidade por quatro edições seguidas e o reconhecimento crescente — com cobertura de imprensa e apoio de órgãos federais — indicam que o evento se firmou no calendário. O próximo passo é transformar essa visibilidade em política permanente de apoio à cultura Potiguara, e não em ação pontual de um ano para o outro.
Fontes: Edna Soares (“Festival Garapirá chega à 4ª edição celebrando a cultura Potiguara e fortalecendo saberes ancestrais na Paraíba”, 30/07/2026).

