O mercado imobiliário do Nordeste manteve o ritmo de expansão no primeiro semestre de 2026. Foram 46,9 mil unidades residenciais lançadas na região, um crescimento de 15% em relação ao mesmo período de 2025 — desempenho acima da média nacional —, segundo levantamento da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras). Os lançamentos movimentaram R$ 19,7 bilhões, alta de 4%, e as vendas alcançaram 49,2 mil imóveis, somando R$ 22,3 bilhões.
Um mercado de duas velocidades
O crescimento não foi homogêneo. Ele se concentrou quase inteiramente na faixa de menor preço: os lançamentos de imóveis econômicos subiram 30% e os de unidades compactas, 21%. No sentido oposto, o segmento de médio e alto padrão encolheu — 17% menos lançamentos e 19% menos vendas na região.
A explicação está no funil de financiamento. A faixa econômica é sustentada pelo Minha Casa Minha Vida, com juros subsidiados e recursos do FGTS; o médio e alto padrão depende do crédito com recursos da poupança (SBPE), que vem perdendo depósitos e encarecendo à medida que a taxa Selic se mantém elevada — em 14% ao ano. Não à toa, 95% das incorporadoras ouvidas pela Abrainc pretendem lançar empreendimentos do Minha Casa Minha Vida nos próximos 12 meses, e 92% planejam comprar terrenos voltados ao programa.
O presidente da Abrainc, Luiz França, associou o resultado à confiança das incorporadoras na região, mas ponderou que o mercado precisa de novas fontes de financiamento para crescer de forma equilibrada, sem depender quase só do segmento econômico.
Pernambuco e Recife
Pernambuco foi o segundo estado da região em volume, com 9,4 mil unidades. Só Recife respondeu por cerca de 3 mil lançamentos e aproximadamente R$ 2 bilhões em vendas no semestre. Nas capitais nordestinas como um todo, o Valor Geral de Vendas (VGV) cresceu 10%, para R$ 15,7 bilhões.
João Pessoa entrega mais e mantém as vendas
Na Paraíba, o levantamento da Abrainc não abre número específico, mas outros indicadores confirmam um mercado aquecido. João Pessoa entregou mais de 7,5 mil imóveis no primeiro semestre de 2026, alta de 13,8% sobre o mesmo período do ano anterior, segundo dados do setor divulgados pela imprensa local. E, pelo Índice Creci 360º, do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da Paraíba (Creci-PB), João Pessoa e Cabedelo comercializaram 2.164 unidades entre janeiro e maio, movimentando R$ 1,61 bilhão em VGV. Só em abril foram 554 imóveis vendidos nas duas cidades, 16% mais que em março; em maio, João Pessoa registrou 215 vendas e R$ 136,49 milhões movimentados.
O ritmo equivale a cerca de 14 imóveis vendidos por dia na Grande João Pessoa — absorção que, segundo o Creci-PB, tem acompanhado o forte volume de novos lançamentos, sem sinal de estoque encalhado.
Contexto
A valorização imobiliária de João Pessoa vem se destacando no cenário nacional há dois anos, puxada pela orla (Cabo Branco, Altiplano, Bessa) e pela expansão em direção a Cabedelo e ao Litoral Sul. O movimento é alimentado por migração de aposentados e investidores de outros estados, pelo turismo imobiliário e pela oferta de crédito habitacional. O IGMI-R, índice que acompanha a variação de preços de imóveis residenciais, apontou alta de 17,49% na Paraíba em base anual, segundo dados divulgados pela imprensa especializada — bem acima da inflação do período.
Consequências para empresas e consumidores
Para a cadeia da construção — incorporadoras, construtoras, fornecedores de cimento, aço, esquadrias, e o próprio emprego formal no canteiro —, o ciclo econômico do Minha Casa Minha Vida garante demanda previsível e escala. Para o consumidor de renda média, porém, o quadro é mais duro: com o crédito SBPE caro e escasso, financiar um imóvel de padrão médio ficou mais difícil, o que empurra parte da demanda para unidades menores ou para o aluguel — que também subiu de preço nas capitais nordestinas.
Relação com o Brasil
O desempenho nordestino acima da média nacional confirma um rearranjo geográfico do mercado: capitais do Nordeste e do interior vêm ganhando participação nos lançamentos, enquanto praças tradicionais do Sudeste crescem menos. A trava comum a todo o país é a mesma — o custo do dinheiro. Enquanto a Selic não recuar de forma consistente, o motor do mercado seguirá sendo o subsídio público da faixa econômica.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
Nos dois estados, o efeito prático é a concentração da atividade em empreendimentos populares e compactos, com bancos de terreno sendo formados para o Minha Casa Minha Vida em bairros de expansão de João Pessoa (zona norte, Valentina, Mangabeira), na Região Metropolitana do Recife e em cidades médias como Campina Grande e Caruaru. O segmento de alto padrão da orla de João Pessoa segue vendendo, mas em ritmo mais lento e para um público específico, menos dependente de financiamento.
Perspectivas
O segundo semestre deve manter o padrão: forte pipeline de lançamentos econômicos, disputa por terrenos aptos ao Minha Casa Minha Vida e cautela no médio e alto padrão até que haja clareza sobre a trajetória dos juros e sobre eventuais mudanças nas regras de funding imobiliário em discussão no governo federal.
Fontes: Abrainc – Associação Brasileira de Incorporadoras (dados do 1º semestre de 2026).

