A balança comercial brasileira acumula superávit de US$ 54,15 bilhões de janeiro até a 3ª semana de agosto de 2026, crescimento de 30,2% em relação aos US$ 43,16 bilhões do mesmo período de 2025, segundo dados divulgados em 24 de agosto pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). No mesmo intervalo, as exportações somaram US$ 242,69 bilhões, alta de 10,7%, e as importações, US$ 188,55 bilhões, avanço de 6,2%. A corrente de comércio — soma de vendas e compras externas — chegou a US$ 431,24 bilhões, com alta de 8,7%.
Na terceira semana de agosto isoladamente, o país registrou superávit de US$ 2,115 bilhões, com exportações de US$ 8,1 bilhões e importações de US$ 5,985 bilhões. No acumulado do mês até aquela semana, o saldo positivo era de US$ 5,11 bilhões, com exportações 14,3% maiores e importações 13,0% maiores na comparação com agosto do ano passado.
Petróleo e minério puxam as vendas
O desempenho do mês foi liderado pela indústria extrativa, cujas exportações cresceram 34,2% e alcançaram US$ 6,875 bilhões, movimento associado a petróleo bruto e minério de ferro. A indústria de transformação exportou US$ 11,869 bilhões, alta de 6,6%, e a agropecuária, US$ 5,2 bilhões, avanço de 9,8%. Do lado das importações no mês, os bens da indústria de transformação subiram 16,7%, para US$ 17,725 bilhões, enquanto as compras da indústria extrativa (sobretudo combustíveis) caíram 29,7%.
Analistas de comércio exterior projetam que 2026 termine com superávit em torno de US$ 90 bilhões, o que representaria alta superior a 30% sobre 2025, com exportações próximas de US$ 394 bilhões e importações de US$ 304 bilhões. Em 2025, as exportações totais brasileiras somaram US$ 348,7 bilhões, o maior valor da série histórica iniciada em 1997.
Negociação com os Estados Unidos volta à mesa
O resultado positivo da balança convive com a maior fonte de incerteza do comércio exterior brasileiro em 2026: a sobretaxa imposta pelos Estados Unidos a parte das exportações do país, decidida em 2025 após uma investigação comercial do governo norte-americano. Após uma conversa por telefone entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, os dois governos remarcaram para 31 de agosto a primeira negociação formal desde o anúncio das medidas. A reunião, virtual, terá o Brasil representado pelo MDIC.
A estratégia brasileira, segundo interlocutores do governo, é pedir primeiro a retirada de mais produtos da lista de tarifas adicionais e, só depois, negociar a reversão das medidas. Representantes do setor industrial avaliam a retomada do diálogo com cautela, lembrando que dezenas de contatos anteriores com Washington não resultaram em acordo. Parte relevante da pauta exportadora para os EUA — itens como aeronaves, energia, suco de laranja, celulose e fertilizantes — ficou fora das sobretaxas, o que amorteceu o impacto imediato, mas setores como calçados, máquinas, móveis e alimentos processados seguem expostos.
Histórico: por que o superávit é recorde
O Brasil acumula superávits comerciais desde 2015, mas os valores dos últimos anos são atípicos. Três fatores se combinam: a produção recorde do agronegócio (soja, milho, carnes e café), a expansão da produção de petróleo do pré-sal, que colocou o país entre os grandes exportadores mundiais de óleo bruto, e uma demanda interna por importados que cresce, mas em ritmo menor que as vendas externas. O câmbio também influencia: mesmo com o real mais valorizado em 2026, os preços internacionais de commodities sustentaram a receita de exportação.
Nordeste, Pernambuco e Paraíba no mapa das exportações
O Nordeste exportou US$ 24,8 bilhões em 2025 e teve alta de 16,3% nas vendas para a União Europeia em maio e junho de 2026, na comparação anual. O principal fator novo é o Acordo Mercosul–União Europeia, com vigência provisória desde 1º de maio de 2026, que forma um mercado de cerca de 700 milhões de consumidores e prevê redução progressiva de tarifas para frutas até 2033.
Pernambuco é o estado mais diretamente beneficiado da região: concentrou mais da metade das exportações brasileiras de manga em 2025, com 291 mil toneladas e receita acima de US$ 335 milhões, e deve ganhar espaço também com uva, limão e melão, culturas fortes no polo de Petrolina–Juazeiro. As exportações do estado passam majoritariamente pelo Complexo Portuário de Suape, que embarca ainda produtos químicos e derivados de petróleo. No primeiro semestre de 2026, Pernambuco liderou o crescimento econômico do Nordeste.
A Paraíba tem participação menor — foi a última colocada entre os estados nordestinos em valor exportado em 2025, com cerca de US$ 140 milhões FOB — mas registra uma mudança de perfil: sucos e frutas passaram a superar o setor calçadista, historicamente o carro-chefe das vendas externas do estado para a Europa. O Porto de Cabedelo é a principal porta de saída, embora parte da carga paraibana seja escoada por Suape e por Pecém (CE).
O que observar
Para as empresas exportadoras da região, os pontos de atenção no curto prazo são o resultado da negociação com os Estados Unidos, marcada para o fim de agosto, e a velocidade de implementação das cotas e reduções tarifárias do acordo com a União Europeia. Um câmbio mais valorizado, se persistir, tende a reduzir a margem em reais dos exportadores — efeito que pesa mais sobre frutas, calçados e alimentos processados do que sobre commodities cotadas em dólar. Já para os importadores que abastecem a indústria e o varejo locais via Suape e Cabedelo, o real forte barateia insumos e bens de capital.
Fontes
- Seu Dinheiro e Bloomberg — desempenho das exportações brasileiras em 2025 e efeito das tarifas dos EUA.

