A corrida global pelo lítio — o metal no centro das baterias de celulares, notebooks e carros elétricos — chegou ao Seridó paraibano. A empresa americana Rivaz, especializada em minerais estratégicos e com sede em Pasadena, na Califórnia, instalou um laboratório no município de Picuí, no Seridó da Paraíba, para identificar onde estão os maiores depósitos do minério no estado e definir os locais das futuras plantas de processamento.
O movimento foi formalizado em uma reunião no dia 17 de agosto de 2026, na Granja Santana, em João Pessoa, entre o governador Lucas Ribeiro (PP), o CEO da Rivaz, Michael Ji, e o presidente da Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (Cinep), Rômulo Polari. Segundo o governo estadual, o encontro serviu para alinhar as condições de instalação da empresa e destravar as etapas seguintes do projeto.
O que a empresa pretende fazer
Pelo desenho apresentado, a Rivaz está começando pela etapa de prospecção: o laboratório em Picuí vai analisar amostras de rocha para mapear a extensão e a concentração das reservas de lítio antes de qualquer decisão sobre mineração em escala. “Pretendemos fazer um investimento considerável na Paraíba”, afirmou Michael Ji, que falou em compromisso de longo prazo e geração de empregos. Nenhum valor de investimento foi divulgado até o momento.
O governador Lucas Ribeiro disse que “a equipe de Governo está empenhada e tomando todas as providências necessárias para a chegada dessa grande empresa, gerando renda e emprego de forma responsável”. Já Rômulo Polari, da Cinep, classificou a iniciativa como inovadora e destacou o esforço do estado para atrair o investimento.
Uma comitiva paraibana também esteve na sede da Rivaz, em Pasadena, para dar sequência às tratativas — pauta que envolveu perspectivas de investimento, transferência de tecnologia e desenvolvimento de minerais usados na fabricação de baterias de lítio para veículos elétricos. O próximo passo, segundo o governo, é a apresentação formal do projeto ao governador e a assinatura de um protocolo de intenções, documento que ainda não tem compromisso financeiro vinculante, mas sinaliza o interesse das duas partes em fechar o negócio.
Por que o Seridó entrou no mapa do lítio
O Seridó — região que a Paraíba divide com o Rio Grande do Norte — é uma província pegmatítica histórica: por décadas, garimpos e pequenas mineradoras exploraram ali minerais como tantalita, berilo, turmalina e mica. Os mesmos corpos geológicos de pegmatito que guardam essas pedras podem conter lítio, normalmente na forma do mineral espodumênio. É esse potencial que a Rivaz quer dimensionar antes de investir em estrutura pesada.
O contexto nacional ajuda a explicar o interesse. O Brasil vem sendo tratado como nova fronteira do lítio, com o chamado “Vale do Lítio”, no Vale do Jequitinhonha (MG), já em operação e exportando. A demanda mundial pelo metal segue puxada pela eletrificação da frota de veículos e pelo armazenamento de energia — e empresas estrangeiras buscam reservas alternativas para não depender apenas dos grandes produtores da Austrália, do Chile e da China.
O que está em jogo para a Paraíba
Para o estado, o projeto representa a possibilidade de entrar numa cadeia de valor de tecnologia — e não apenas extrair e embarcar minério bruto. O discurso oficial fala em processamento local, o que, se confirmado, agregaria valor e empregos qualificados na região do Seridó, uma das mais pobres e mais castigadas pela seca no estado. Municípios como Picuí, Nova Palmeira, Pedra Lavrada e Frei Martinho têm tradição mineira e mão de obra com alguma experiência no setor.
Ainda assim, é preciso cautela na leitura. Até aqui, o que existe é uma manifestação de interesse e uma etapa de pesquisa mineral — não uma mina em construção nem um cronograma de investimento fechado. Projetos de mineração no Brasil dependem de licenciamento ambiental, outorga da Agência Nacional de Mineração, estudos de viabilidade e, muitas vezes, de negociação com comunidades e proprietários de terra. Todo esse caminho costuma levar anos. A relação entre o anúncio de agora e um eventual impacto econômico concreto no Seridó é, por enquanto, uma expectativa — não um fato consolidado.
Há também o componente eleitoral: 2026 é ano de eleição estadual, e Lucas Ribeiro é candidato à reeleição. Anúncios de atração de investimento tendem a ganhar destaque nesse calendário, o que reforça a necessidade de acompanhar se as etapas seguintes — protocolo de intenções, licenças, aporte efetivo — de fato se concretizam depois do pleito.
O que acompanhar
Os próximos sinais concretos a observar são: a assinatura (ou não) do protocolo de intenções entre a Rivaz e o governo da Paraíba; a divulgação de um valor de investimento e de um cronograma; os resultados da pesquisa mineral feita a partir do laboratório de Picuí; e a definição sobre o que exatamente seria feito no estado — só extração ou também beneficiamento do lítio. Enquanto esses pontos não estiverem claros, o projeto segue no campo da intenção.

