Natural de Itambé, artista reúne poemas e ilustrações a partir das histórias de mulheres de sua família e das experiências de gerações que ajudaram a sustentar a vida na Zona da Mata de Pernambuco
Há histórias que atravessam gerações sem necessariamente aparecer nos livros. Estão nas cozinhas, nos quintais, nas plantações, nas conversas ao fim da tarde, nos ensinamentos passados de mãe para filha e nas lembranças guardadas dentro de uma família. São histórias de mulheres que trabalharam, criaram filhos, cuidaram da terra, sustentaram casas e preservaram saberes, muitas vezes sem que seus nomes ocupassem o espaço reservado aos grandes personagens da história.
É justamente para essas mulheres que a poetisa e artista visual pernambucana Geisiara Lima volta o olhar em Semeadoras, nova publicação da Editora Porta Aberta. Natural de Itambé, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, a artista transforma memória familiar, poesia e desenho em uma obra que procura aproximar aquilo que é íntimo daquilo que pertence à experiência coletiva de uma região.
O livro nasce das mulheres que Geisiara conheceu dentro da própria família, mas não permanece restrito às histórias domésticas. A partir delas, a autora amplia a perspectiva para alcançar outras mulheres da Mata Norte, especialmente aquelas cuja trajetória foi atravessada pelo trabalho, pela agricultura familiar, pela maternidade, pela religiosidade, pelas desigualdades sociais e raciais e pela necessidade cotidiana de manter a família de pé.
No centro dessa memória está Maria Iraci, bisavó da artista e mulher responsável por sua criação. Viúva ainda jovem, ela precisou assumir responsabilidades sobre uma família numerosa e lidar com questões relacionadas à agricultura familiar, à terra e à manutenção da casa. Sua história particular se torna, na obra, uma espécie de porta de entrada para tantas outras histórias que poderiam ter permanecido anônimas.
“Eu chamei de Semeadoras porque foram elas que semearam esse século, esse território.”
A frase de Geisiara resume a origem do título e também a dimensão simbólica do projeto. Para a artista, aquelas mulheres não representam apenas uma lembrança familiar. Elas são parte da construção cotidiana de um território marcado pela cana-de-açúcar, pelos engenhos, pela agricultura familiar e por relações sociais atravessadas pelo gênero, pela raça e pelo trabalho.
Quando a história de casa encontra a história de um território
A Mata Norte pernambucana possui uma identidade profundamente ligada ao trabalho e às transformações provocadas pela atividade canavieira. É nesse cenário que Semeadoras encontra sua matéria-prima.
Mas Geisiara não procura simplesmente reproduzir uma paisagem regional. Seu interesse está em observar como a história desse território chega à vida das pessoas — e, particularmente, à vida das mulheres.
A cana-de-açúcar, os engenhos, a agricultura familiar e as mudanças econômicas e sociais da região aparecem como elementos que atravessam o cotidiano. Dentro das casas, porém, essa história ganha outras dimensões: cuidar dos filhos, administrar pequenas posses, preservar conhecimentos, lidar com a ausência, enfrentar desigualdades e encontrar maneiras de permanecer.
É nessa passagem entre o grande e o pequeno, entre a história de uma região e a história de uma família, que a obra se constrói.
O que poderia ser apenas memória pessoal ganha uma dimensão coletiva. A bisavó deixa de ser somente a personagem de uma lembrança familiar para representar um conjunto muito maior de mulheres que viveram experiências semelhantes.
Em Semeadoras, memória não aparece apenas como recordação. Ela funciona como matéria de criação.
Entre a palavra e o traço
A obra também revela uma característica fundamental da trajetória artística de Geisiara: a convivência entre literatura e artes visuais.
Antes de chegar às páginas do livro, Semeadoras nasceu como uma série de desenhos iniciada em 2024. A pesquisa produziu cerca de 60 desenhos, dos quais 20 fizeram parte da primeira exposição individual da artista.
O livro amplia esse universo ao reunir também 15 textos poéticos, estabelecendo uma relação direta entre palavra e imagem.
Não se trata, portanto, de duas linguagens utilizadas de maneira independente. Para Geisiara, escrever e desenhar fazem parte de um mesmo processo criativo.
“Eu sempre escrevi e desenhei, ou desenhei e escrevi.”
Essa característica acompanha a artista desde a adolescência e encontra em Semeadoras uma forma particularmente evidente de expressão. A palavra não ocupa o lugar da imagem, nem a imagem substitui o texto. As duas linguagens convivem.
“Uma linguagem não substitui a outra. Elas se complementam”, explica a artista.
Essa combinação ajuda a construir uma obra que não pretende apenas contar histórias, mas também criar atmosferas, recuperar lembranças e produzir novas formas de olhar para personagens que, durante muito tempo, permaneceram fora dos registros mais tradicionais.
Mulheres que semearam sem aparecer nos registros
Há uma dimensão política e social no gesto de colocar essas mulheres no centro da narrativa, ainda que o livro seja construído a partir da poesia e das artes visuais.
As personagens de Semeadoras carregam experiências relacionadas ao cuidado, ao trabalho e à sobrevivência. Muitas delas aparecem associadas a tarefas que historicamente foram naturalizadas como obrigações femininas: cuidar da casa, criar os filhos, administrar a família e manter vivos determinados conhecimentos.
A obra também toca em temas como racismo, desigualdade, religiosidade, resistência e cuidado.
Ao transformar essas experiências em literatura e imagem, Geisiara desloca o olhar. Em vez de procurar personagens distantes ou figuras consagradas para falar sobre a região, ela começa dentro de casa.
Essa descoberta aparece também na trajetória de outros trabalhos da artista.
Em Caderno de Botânica da Mata, lançado em 2022, por exemplo, o olhar se voltou para plantas, ervas, benzedeiras, parteiras e saberes transmitidos entre mulheres. A obra nasceu durante a pandemia e também foi atravessada pela experiência da maternidade.
Foi durante esse processo que Geisiara percebeu que algumas das referências que procurava fora estavam mais próximas do que imaginava.
“Eu ia procurar referências em escritoras e personalidades que estavam distantes, quando tinha meus próprios exemplos no meu quintal, dentro da minha casa.”
A constatação ajudou a mudar o caminho da pesquisa artística.
Uma trajetória construída na própria Mata Norte
Semeadoras não surge isoladamente na produção de Geisiara Lima.
A artista começou sua trajetória ainda adolescente, participando de jornalzinhos, fanzines, recitais, coletivos e publicações independentes. Ao longo dos anos, sua produção passou a transitar entre literatura e artes visuais, mantendo como temas recorrentes a memória, a ancestralidade, o território, o feminismo, a maternidade, a raça e a resistência.
Em 2019, publicou Corpo em Chamas, reunindo poemas e ilustrações relacionados à experiência feminina, à natureza, à religiosidade e às violências que atravessam a Zona da Mata.
Três anos depois, veio Caderno de Botânica da Mata. Em 2025, publicou Riacho Marias Pretas, também pela Editora Porta Aberta.
Semeadoras aprofunda uma investigação que já vinha sendo construída ao longo dessa trajetória: olhar para o território a partir das pessoas que o habitam, especialmente para as mulheres e para os conhecimentos que circulam entre gerações.
A nova publicação reúne, assim, diferentes fios dessa produção: memória, ancestralidade, território, experiência feminina e a tentativa de fazer palavra e imagem coexistirem dentro da mesma obra.
Da exposição para as páginas de um livro
A transformação da série visual em livro também responde a uma questão que ultrapassa a própria obra.
A Mata Norte possui uma produção cultural significativa, mas o acesso aos espaços de arte não é igual para todos. As dificuldades de deslocamento entre municípios e a presença reduzida de espaços dedicados às artes visuais podem limitar a circulação de determinados trabalhos.
Nesse sentido, o livro cria outra possibilidade.
Uma exposição possui um lugar e um período específicos. Uma publicação pode viajar. Pode chegar a uma biblioteca, a uma escola, à casa de alguém, a outro município.
É o que começa a acontecer com Semeadoras.
O projeto terá um circuito de lançamentos que atravessa municípios de Pernambuco e chega à Paraíba. A primeira parada será Goiana, cidade diretamente relacionada à trajetória da obra. Foi no Ateliê Valcira Santiago que Geisiara apresentou sua primeira exposição individual Semeadoras, antes de o projeto ganhar o formato de livro.
Depois, a publicação seguirá para Nazaré da Mata, retornará a Goiana e passará por Timbaúba. O circuito termina, nesta primeira agenda divulgada, em Campina Grande, na Paraíba.
A escolha dos espaços também chama atenção.
Semeadoras não ficará restrito aos ambientes tradicionalmente associados à literatura e às artes visuais. A programação inclui um centro de referência voltado para crianças e adolescentes surdos, uma unidade do Sesc, um espaço cultural ligado à música e, por fim, uma feira literária.
A diversidade dos locais reforça o desejo de fazer o livro circular por públicos diferentes.
Itambé como ponto de partida e identidade
Natural de Itambé, Geisiara carrega na própria biografia a ligação com a Mata Norte.
A cidade pernambucana, localizada na divisa com a Paraíba, aparece como parte desse território de memórias que alimenta sua produção. A experiência regional não surge apenas como cenário, mas como elemento constitutivo da identidade artística.
É desse lugar que vêm parte das referências familiares, das paisagens afetivas e das histórias que ajudam a construir a obra.
Em Semeadoras, essa relação ganha uma dimensão que ultrapassa a geografia. O território passa a ser também aquilo que é transmitido: um modo de preparar a terra, uma receita, uma planta reconhecida por uma mulher mais velha, uma oração, uma lembrança, uma maneira de cuidar ou uma história que sobrevive porque alguém decidiu contá-la.
Nesse sentido, semear não é apenas plantar.
É também transmitir.
É fazer com que alguma coisa permaneça depois de quem a iniciou.
Uma publicação financiada pela política cultural
O projeto de Semeadoras foi contemplado pelos editais da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) em Pernambuco e conta com apoio financeiro do Governo do Estado de Pernambuco, por meio da Secretaria de Cultura, dentro da política direcionada pelo Ministério da Cultura e pelo Governo Federal.
A publicação tem autoria, textos e ilustrações de Geisiara Lima. A coordenação editorial é de Philippe Wollney, a coordenação geral de Hevelyne Figueirêdo e o projeto gráfico e a diagramação são da Editora Porta Aberta.
A fotografia é de Emanuelly Leite e a produção executiva, da Azulyne Correntes Culturais.
O livro possui ISBN 978-65-02-10643-3.
Quando as mulheres deixam de ser apenas memória
Talvez uma das imagens mais fortes de Semeadoras esteja justamente no próprio título.
Uma semente carrega a possibilidade de continuidade. É pequena, mas contém uma história que pode atravessar o tempo.
As mulheres retratadas por Geisiara aparecem dentro dessa perspectiva. Elas semearam famílias, conhecimentos, afetos e modos de vida. Muitas vezes fizeram isso sem ocupar espaços de visibilidade ou reconhecimento.
Ao transformar essas experiências em poemas e ilustrações, a artista cria um registro de outra natureza.
Não é uma tentativa de escrever uma história definitiva da Mata Norte. É um gesto de memória.
Um olhar particular sobre mulheres particulares que, justamente por suas experiências particulares, podem representar tantas outras.
A bisavó Maria Iraci é uma dessas figuras. Sua história começa dentro da família de Geisiara, mas não termina nela.
É nesse movimento — do quintal para o território, da lembrança individual para a memória coletiva — que Semeadoras encontra sua força narrativa.
E talvez seja essa a principal pergunta que o livro deixa no ar: quantas mulheres ajudaram a construir a história dos lugares onde vivemos sem que seus nomes fossem registrados?
Geisiara procura algumas dessas respostas dentro de casa.
E transforma as respostas em arte.
O circuito de lançamento
O primeiro lançamento de Semeadoras acontece em 10 de outubro, às 19h30, no Ateliê Valcira Santiago, em Goiana.
Depois, o circuito segue para outros espaços da Mata Norte e chega à Paraíba:
10 de outubro — Goiana/PE
Ateliê Valcira Santiago
Rua da Conceição, 55, Centro
19h30
14 de outubro — Nazaré da Mata/PE
CREFAS – Centro de Referência e Formação da Criança e Adolescente Surdos
Rua Barão de Tamandaré, 73
15h
20 de outubro — Goiana/PE
Sesc Ler Goiana
Rua Josias de Albuquerque, s/n, Centro
19h
31 de outubro — Timbaúba/PE
The Underground Rock Bar
Rua Maciel Pinheiro, bairro Mocosinho, Box 6
19h
14 de novembro — Campina Grande/PB
IX Feira Literária Internacional de Campina Grande – FLIC
Horário e programação ainda a confirmar.
Uma história que começa em casa
Entre desenhos, poemas, lembranças e território, Semeadoras parte de uma constatação simples: antes de serem personagens de livros, muitas mulheres foram personagens fundamentais das próprias famílias.
Foram elas que ficaram.
Que cuidaram.
Que ensinaram.
Que plantaram.
Que criaram.
Que preservaram.
Que continuaram.
A obra de Geisiara Lima transforma essas experiências em linguagem artística e coloca a memória feminina da Mata Norte no centro da narrativa.
Uma memória que não pretende ficar parada no passado.
Porque, como as sementes, algumas histórias existem justamente para continuar germinando.

