O turismo do Nordeste ganhou dois capítulos importantes nesta semana. De um lado, o Ministério do Turismo deu largada, em 16 de setembro, à primeira edição da Pesquisa Nacional de Demanda Turística (PNDT), estudo inédito que vai ouvir 22,5 mil visitantes em 50 municípios brasileiros — entre eles João Pessoa, único representante da Paraíba na amostra. De outro, números recentes mostram Pernambuco vivendo um dos melhores momentos de sua história recente em captação de turistas estrangeiros, com Recife registrando recordes sucessivos de reservas internacionais. Juntos, os dois movimentos desenham um retrato de um Nordeste que tenta transformar bom desempenho em política pública mais precisa.
Uma fotografia inédita do turista brasileiro
A PNDT é fruto de um acordo de cooperação de três anos entre o Ministério do Turismo, o Itaipu Parquetec — braço de pesquisa e inovação ligado à Itaipu Binacional — e a Rede Brasileira de Observatórios de Turismo (RBOT), firmado em fevereiro de 2025. A coleta de dados, feita por pesquisadores identificados com crachá em pontos de circulação e concentração de visitantes, começou em 16 de setembro e segue até 3 de outubro de 2026, abrangendo as cinco regiões do país. Serão entrevistados turistas brasileiros e estrangeiros maiores de 18 anos, não residentes no município pesquisado e com pelo menos uma pernoite prevista ou realizada.
O questionário padronizado investiga motivações de viagem, planejamento do deslocamento, fontes de informação usadas na escolha do destino, meios de transporte, tipo de hospedagem, tempo de permanência, composição dos grupos, atividades realizadas e gastos durante a estadia. Também são avaliadas percepções sobre infraestrutura, qualidade dos serviços, acessibilidade, segurança, conectividade e preços — informações que alimentarão um Índice Geral com 70 indicadores distribuídos em dez dimensões do turismo local.
Segundo o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, o objetivo é dar mais precisão ao planejamento do setor: “Conhecer melhor quem visita nossos destinos é fundamental para que possamos planejar políticas públicas, promover experiências de maior qualidade”, afirmou o ministro. Os resultados terão representatividade estatística por município e serão divulgados nos painéis do Observatório Nacional de Turismo Sustentável, com previsão de lançamento até abril de 2027, seguidos de workshops regionais e uma conferência nacional no primeiro semestre daquele ano.
João Pessoa entre os 18 destinos do Nordeste
Na Região Nordeste, 18 municípios integram a pesquisa, e João Pessoa é o representante paraibano — reconhecimento que a gestão municipal associa a um momento que já vinha sendo descrito como sólido pela Secretaria Executiva de Turismo (Setur). De acordo com dados divulgados pela prefeitura no início do ano, o turismo injetou cerca de R$ 623,7 milhões na economia da capital paraibana somente em janeiro de 2026, com gasto médio estimado em R$ 700 por turista ao dia em hospedagem, alimentação, transporte, passeios e serviços. A ocupação hoteleira chegou a 100% no Réveillon e ficou em média de 90% ao longo do mês, enquanto cerca de 90% dos visitantes entrevistados em pesquisas locais afirmaram ter intenção de retornar à cidade.
O secretário-executivo de Turismo de João Pessoa, Daniel Rodrigues, resume o momento: “João Pessoa vive hoje um momento muito sólido no turismo”, disse, atribuindo o resultado a “investimento permanente em promoção, qualificação, segurança, infraestrutura e calendário forte de eventos”. A cidade participou de mais de 120 feiras e eventos promocionais em mercados estratégicos ao longo do último ciclo, além de oferecer cursos de inglês e espanhol para o trade turístico. O calendário de eventos, que inclui o Forró Verão — com expectativa de atrair 1,5 milhão de pessoas —, pré-carnaval, Paixão de Cristo, São João e a programação natalina iniciada em outubro, é apontado pela gestão municipal como um dos pilares da atratividade turística ao longo de todo o ano, e não apenas na alta temporada.
Pernambuco também soma recordes
Enquanto a Paraíba se prepara para ser radiografada pela pesquisa federal, Pernambuco já colhe números expressivos de crescimento na demanda internacional. Segundo dados da Embratur, o estado recebeu cerca de 93 mil visitantes estrangeiros entre janeiro e julho de 2026, alta de 77% em relação ao mesmo período de 2025 — em linha com o crescimento nacional de 78,7% nos desembarques aéreos de estrangeiros no Brasil. Em um recorte anterior, de janeiro a maio, o estado já somava cerca de 72 mil turistas internacionais, um salto de 103,6% ante 2025.
O Aeroporto Internacional do Recife também bateu recorde, ultrapassando pela primeira vez a marca de 1 milhão de passageiros em um único mês em janeiro de 2026 (1.015.692 viajantes), alta de 7,11% sobre janeiro de 2025. Já as reservas internacionais feitas por meio da plataforma Civitatis para Recife cresceram 126% entre janeiro e junho de 2026 na comparação anual, puxadas sobretudo por argentinos — que representam mais da metade das reservas estrangeiras e tiveram alta de 442% em um ano — e por europeus de Espanha, Portugal, Itália e França, cujo conjunto cresceu 279%.
Parte desse fluxo é explicada pela ampliação da malha aérea internacional: a JetSmart passou a operar a rota Recife–Buenos Aires, a Flybondi reforçou ligações com cidades argentinas e a Iberia inaugurou, no fim de 2025, voo direto entre Recife e Madri. Entre as atrações mais procuradas pelos visitantes estrangeiros estão os city tours por Recife e Olinda, passeios a Porto de Galinhas, Praia dos Carneiros e Maragogi, visitas ao Instituto Ricardo Brennand e roteiros de catamarã e barco pelo litoral pernambucano.
Por que os dados importam para o setor
Para operadores de turismo, hotéis, agências e poder público, a combinação de um crescimento já mensurado no fluxo de visitantes com uma pesquisa nacional que vai detalhar perfil, gasto e satisfação do turista tende a ser especialmente útil. Hoje, boa parte das decisões de investimento em capacidade hoteleira, rotas aéreas e promoção turística no Nordeste se apoia em levantamentos pontuais, muitas vezes municipais ou estaduais, com metodologias distintas entre si. A padronização proposta pela PNDT — com os mesmos 70 indicadores aplicados nos 50 municípios — deve permitir comparações diretas entre destinos concorrentes, algo que hoje é praticamente inexistente no Brasil.
Para o trade turístico da Paraíba, participar da amostra nacional também significa ganhar visibilidade institucional em um estudo conduzido diretamente pelo Ministério do Turismo, o que pode facilitar o acesso a linhas de financiamento federal e a inclusão em campanhas promocionais nacionais e internacionais coordenadas pela Embratur — o mesmo órgão que hoje mede o salto de visitantes estrangeiros em Pernambuco.
Perspectivas
Com a coleta de dados da PNDT prevista para se encerrar em 3 de outubro, o próximo marco relevante para o setor é a divulgação dos primeiros resultados, esperada até abril de 2027, seguida de workshops regionais e de uma conferência nacional no primeiro semestre daquele ano. Até lá, o desafio para João Pessoa e para o restante do Nordeste será sustentar o ritmo de crescimento já registrado por Pernambuco, ampliando conectividade aérea, qualificação profissional e infraestrutura turística — os mesmos pontos que, segundo o próprio Ministério do Turismo, a nova pesquisa se propõe a medir com rigor inédito.
Se os números preliminares de 2026 já indicam um Nordeste turístico em expansão, a expectativa do setor é que a PNDT transforme essa percepção em dado estatisticamente representativo, capaz de orientar com mais precisão onde investir nos próximos anos — tanto em João Pessoa quanto nos demais destinos da região.
Fontes: Prefeitura de João Pessoa (03/01/2026); WSCOM Conteúdo (17/09/2026); Paraíba Total (17/09/2026); PANROTAS (setembro/2026); Portal de Prefeitura – dados Embratur sobre Pernambuco (18/08/2026); Portal de Prefeitura – dados Embratur/Civitatis sobre Recife (2026).

