O Brasil respondeu com força policial, no mesmo dia, às críticas feitas pelo governo dos Estados Unidos sobre o combate ao crime organizado. Nesta quinta-feira (17), a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo deflagraram a Operação Vectura Corrupta contra a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público da capital paulista, enquanto a Polícia Civil do Ceará executava a megaoperação Impacto X contra o Comando Vermelho (CV), cumprindo 94 mandados de prisão em 14 municípios. As ações acontecem menos de 48 horas depois de o presidente americano Donald Trump enviar ao Congresso dos Estados Unidos um documento no qual afirma que o governo brasileiro ‘falhou’ em enfrentar as duas facções.
A operação em São Paulo: ônibus, corrupção e um ex-vereador foragido
Batizada de Vectura Corrupta, a operação em São Paulo é a terceira fase de uma investigação que apura o domínio do PCC sobre empresas de transporte coletivo na capital. Segundo a decisão judicial que autorizou a ação, assinada pelo desembargador Sérgio Ribas, 12 das 22 empresas que operam linhas municipais de ônibus estariam sob controle direto ou indireto da facção, que teria se infiltrado no setor após vencer licitações públicas com uso de laranjas e esquemas de lavagem de dinheiro. Foram expedidos 16 mandados de prisão temporária e 18 mandados de busca e apreensão em sete cidades da Grande São Paulo e da Baixada Santista: São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão. Até o fim da manhã, dez das dezesseis prisões haviam sido efetivadas. Entre os alvos está Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da estatal municipal SPTrans, preso pela Polícia Civil. A defesa do ex-dirigente classificou-o como ‘primário e sem antecedentes’, com ‘uma trajetória de relevantes serviços públicos’ ao longo de décadas. Outro nome de peso na lista é o do ex-vereador Milton Leite (União Brasil), que presidiu a Câmara Municipal de São Paulo por seis anos e é apontado pelas investigações como um dos elos entre o poder público e a facção. Leite não foi localizado em sua residência e passou a ser tratado como foragido pela polícia, embora tenha afirmado, em nota, que está viajando, que não é foragido e que se apresentará às autoridades em 24 horas para provar sua inocência. A Prefeitura de São Paulo, por meio de nota oficial, destacou que já havia intervindo nas empresas Transwolff e UPBus — citadas na investigação — desde abril de 2024, rescindindo contratos para ‘proteger o sistema municipal de transporte’ e afirmou estar colaborando integralmente com o Ministério Público e a Polícia Civil.
Ceará: 94 mandados, R$ 73 milhões bloqueados e dois anos de investigação
Em paralelo, a Polícia Civil do Ceará deflagrou a Operação Impacto X, considerada uma das maiores já realizadas contra o Comando Vermelho no estado. Até as 7h de quinta-feira, 94 dos mandados de prisão haviam sido cumpridos — 62 contra pessoas que já estavam presas em unidades do sistema penitenciário e 32 contra suspeitos que estavam em liberdade — dentro de um universo de 147 investigados. A ação mobilizou equipes em 14 municípios: Fortaleza, Pacatuba, Maracanaú, Caucaia, Aquiraz, Paracuru, Cascavel, Umirim, Itarema, Baturité, Tauá, Quixadá, Morada Nova e Juazeiro do Norte. Segundo o delegado-geral da Polícia Civil do Ceará, Márcio Gutierrez, a investigação começou em 2024 e reuniu provas da participação dos alvos em homicídios, extorsões, roubos e tráfico de drogas. A Justiça também determinou o bloqueio de R$ 73 milhões em bens e contas bancárias vinculados aos investigados, além da apreensão de armas e drogas durante as buscas.
O pano de fundo: a acusação de Trump e a resposta do governo Lula
As duas operações ocorrem em um momento de tensão diplomática entre Brasília e Washington sobre segurança pública. Em documento enviado ao Congresso americano em 15 de setembro — parte do relatório anual conhecido como ‘Majors List’, que avalia países relevantes na produção ou no trânsito de drogas ilícitas —, o governo Trump afirmou que ‘o governo brasileiro falhou em enfrentar as organizações terroristas estrangeiras designadas Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho’, que, segundo o texto, transformaram o Brasil em um polo relevante do fluxo global de cocaína e representam ‘uma ameaça crescente à paz e à segurança mundial’. Os Estados Unidos classificaram oficialmente o PCC e o CV como organizações terroristas estrangeiras em maio de 2026, com a designação entrando em vigor em 5 de junho. Apesar da dureza do texto, o Brasil não foi incluído na lista oficial de países classificados como grandes produtores ou rotas relevantes de drogas — categoria que inclui nações como Afeganistão, Bolívia, Mianmar, Colômbia e Venezuela — nem entre os governos considerados ‘comprovadamente falhos’ em seus compromissos antidrogas. Ainda assim, a crítica direta ao país gerou reação imediata do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), que classificou as alegações americanas como uma leitura que ignora medidas recentes adotadas pelo governo federal. Em nota, a pasta afirmou que ‘o combate ao crime organizado é prioridade do Governo Federal e vem sendo conduzido de forma permanente por meio de ações de inteligência, investigação, integração entre as forças de segurança e cooperação internacional e jurídica’. O governo citou a Lei Antifacção, sancionada em março de 2026, que aumentou penas para integrantes de organizações criminosas e criou mecanismos de bloqueio patrimonial das facções, além do Programa Brasil Contra o Crime Organizado, lançado em maio, e de milhares de operações policiais realizadas ao longo do ano. A gestão Lula também lembrou que uma proposta de cooperação bilateral — incluindo compartilhamento de inteligência e medidas conjuntas contra lavagem de dinheiro e tráfico de armas — foi entregue pessoalmente pelo presidente em Washington em 7 de maio de 2026, e que o Brasil ainda aguarda retorno formal dos americanos sobre o tema.
Por que isso importa
O choque de agendas — a crítica internacional de um lado, a resposta operacional doméstica de outro — expõe um dilema real da segurança pública brasileira: o avanço de facções como o PCC e o Comando Vermelho para dentro de estruturas formais da economia e do poder público, do transporte coletivo de uma das maiores cidades do mundo à política municipal. A prisão de um ex-presidente de estatal e a caçada a um ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo mostram que a infiltração não se limita ao varejo do tráfico, mas alcança contratos públicos bilionários. No Ceará, o volume de mandados e o valor bloqueado sinalizam a dimensão financeira que essas organizações já atingiram fora do eixo Rio–São Paulo, tradicionalmente mais associado ao Comando Vermelho e ao PCC, respectivamente. Para o governo federal, as operações simultâneas funcionam também como resposta política à narrativa americana, reforçando o argumento de que o combate às facções está em curso e é constante — ainda que a pressão diplomática dos EUA, incluindo a classificação de PCC e CV como organizações terroristas, deva continuar influenciando a relação bilateral, sobretudo em temas como cooperação policial, extradições e rastreamento financeiro internacional. Nos próximos dias, é esperado que a Justiça de São Paulo decida sobre a situação de Milton Leite após sua apresentação anunciada, enquanto em Fortaleza a Polícia Civil deve dar sequência às fases de bloqueio patrimonial da Operação Impacto X. O episódio deve seguir repercutindo tanto no noticiário de segurança pública quanto nas relações entre Brasília e Washington nas próximas semanas.
Fontes: O Tempo (17/9/2026 e 16/9/2026); Diário do Nordeste (17/9/2026); Agência Brasil (setembro de 2026); CNN Brasil (17/9/2026); Revista Oeste (17/9/2026); O Povo (16/9/2026).

