O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central está reunido nesta terça-feira (15) e conclui os trabalhos na quarta (16), quando divulga, no fim da tarde, a nova taxa Selic. Segundo o Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com instituições financeiras, a aposta predominante do mercado é por um corte de 0,25 ponto percentual, dos atuais 14% ao ano para 13,75% — o que confirmaria a trajetória de flexibilização monetária iniciada depois de a Selic ter passado quase um ano no patamar de 15% ao ano, o mais alto em cerca de duas décadas, entre junho de 2025 e março de 2026.
O que mostra o Boletim Focus
Além da projeção para os juros, o Boletim Focus mais recente trouxe atualizações nas principais variáveis econômicas para 2026. A expectativa de inflação (IPCA) recuou de 5,02% havia quatro semanas para 5% na semana anterior e agora está em 4,90% — uma trajetória de queda gradual, mas ainda acima do centro da meta perseguida pelo Banco Central. Para 2027, a mediana das projeções do mercado é de 4,30% para a inflação. Já a estimativa de crescimento do PIB em 2026 também vem sendo revisada para baixo: caiu de 1,98% havia um mês para 1,93% na semana anterior e está agora em 1,89%; para 2027, a projeção é de 1,45%. No câmbio, o mercado mantém a mesma aposta há 13 semanas seguidas: dólar a R$ 5,20 no fechamento de 2026, um sinal de estabilidade nas expectativas cambiais mesmo em meio à turbulência internacional.
Por que o corte não é garantido
Apesar da aposta majoritária em novo corte, analistas citados pelo noticiário econômico chamam atenção para um fator de risco que pode travar a flexibilização monetária: a escalada de tensões no Oriente Médio, com rebeldes houthis avançando sobre rotas marítimas estratégicas no Mar Vermelho e o petróleo Brent operando acima de US$ 107 o barril nesta semana (ver matéria específica sobre o tema nesta edição). Petróleo mais caro pressiona os preços de combustíveis e de insumos importados, o que pode se transformar em inflação vindo de fora — um cenário que tende a deixar o Banco Central mais cauteloso na hora de reduzir os juros, mesmo com a atividade econômica desacelerando.
O paradoxo do crédito mais caro
Enquanto a Selic recua, o crédito ao consumidor final segue em direção oposta. Levantamento do Procon-SP mostrou que a taxa média de juros cobrada em operações de crédito pessoal subiu de 8,23% para 8,66% ao mês somente em setembro — uma alta de 0,43 ponto percentual em um único mês. Em termos anuais, essa diferença representa um encarecimento expressivo do parcelamento para quem recorre a esse tipo de crédito, geralmente famílias e pequenos empreendedores sem acesso a linhas mais baratas. Esse descolamento entre a taxa básica de juros e o custo final do crédito ao consumidor costuma ser explicado por fatores como inadimplência, spread bancário e composição de risco de cada instituição financeira — mas, na prática, significa que o alívio da Selic demora a chegar (ou não chega) ao bolso de quem financia uma compra, renegocia uma dívida ou busca capital de giro.
O que muda para empresas e consumidores
Para o empresário, a Selic mais baixa tende a reduzir, com alguma defasagem, o custo de linhas de crédito empresarial atreladas a indicadores de mercado, além de tornar investimentos em renda fixa relativamente menos atrativos frente a alternativas produtivas — um incentivo, ainda que modesto, para retomada de investimentos. Já para o consumidor final, o efeito prático de curto prazo tende a ser mais sentido no financiamento imobiliário e em linhas consignadas, que costumam acompanhar mais de perto a trajetória da Selic, do que no crédito pessoal e no rotativo do cartão, que respondem mais a políticas internas de cada instituição.
Reflexos para Paraíba e Pernambuco
Em Paraíba e Pernambuco, onde o crédito consignado e o financiamento a pequenos negócios têm peso relevante na atividade do comércio local — de Cabedelo e João Pessoa a Recife e o Agreste pernambucano —, o ritmo de queda da Selic é acompanhado de perto por lojistas e associações comerciais como termômetro do poder de compra da população nos próximos meses. Ainda assim, o dado do Procon-SP sobre o crédito pessoal é um alerta regional também para pequenos empresários da região que dependem dessa modalidade para capital de giro: mesmo com juros básicos em queda, o custo final do dinheiro no varejo pode continuar pressionado enquanto os bancos não repassarem a flexibilização monetária às suas tabelas de juros ao consumidor.
O que vem a seguir
A decisão do Copom sai na noite de quarta-feira (16), acompanhada de um comunicado com a avaliação do comitê sobre inflação e atividade econômica. A ata da reunião, com detalhamento maior das razões da decisão e pistas sobre os próximos passos da política monetária, está prevista para ser divulgada em 22 de setembro. Até lá, o mercado deve seguir monitorando o desdobramento da crise no Mar Vermelho como principal risco externo capaz de alterar a rota de cortes de juros no Brasil nos próximos meses.
Fontes: Boletim Focus (Banco Central do Brasil), divulgado em 14/09/2026, via Agência Brasil; pesquisa do Procon-SP sobre juros do crédito pessoal, divulgada em setembro de 2026.

