A Paraíba realizou, no dia 11 de setembro, sua primeira ação de promoção turística no Paraguai, um passo inédito na estratégia de internacionalização do destino. O evento aconteceu em Ciudad del Este, na região da Tríplice Fronteira, e reuniu mais de 60 agentes de viagens ligados à operadora paraguaia MMCTour, que passaram a conhecer de perto as regiões turísticas, os atrativos, a gastronomia, a cultura e a infraestrutura hoteleira do estado.
A ação foi conduzida pela Empresa Paraibana de Turismo (PBTur) em parceria com a Secretaria de Estado do Turismo e Desenvolvimento Econômico (Setde), e contou com a participação da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis da Paraíba (ABIH-PB) e do receptivo Whelmar, de João Pessoa. Entre os temas apresentados aos operadores paraguaios estiveram as diferentes regiões turísticas do estado e o Polo Turístico Cabo Branco, um dos cartões-postais da capital paraibana.
Uma aposta na Tríplice Fronteira
O objetivo declarado da iniciativa é capacitar os agentes de Ciudad del Este para que passem a incluir a Paraíba entre as opções de venda oferecidas a viajantes paraguaios, ampliando assim a comercialização de pacotes turísticos para o estado. A escolha do mercado paraguaio não é aleatória: um levantamento da Embratur com base na plataforma internacional ForwardKeys, divulgado em junho de 2025, já apontava o Paraguai como um dos principais mercados emissores de turistas estrangeiros para a Paraíba, ao lado de Argentina, Chile, Estados Unidos, Portugal e Alemanha — resultado de um crescimento de 22,3% no fluxo de estrangeiros ao estado entre janeiro e maio daquele ano, na comparação com o mesmo período de 2024.
Números que explicam a escolha
Os dados mais recentes ajudam a entender por que o governo paraibano decidiu reforçar sua presença comercial no país vizinho. Segundo levantamento da Embratur com base em registros da Polícia Federal, divulgado em maio de 2026, a Paraíba registrou um salto de 770,8% no número de turistas internacionais entre janeiro e abril, saindo de 96 para 836 visitantes estrangeiros na comparação com o mesmo período de 2025 — o maior percentual de crescimento entre os estados nordestinos nesse recorte, ainda que a partir de uma base numérica pequena. Pernambuco, para efeito de comparação, cresceu 105,8% no mesmo período, passando de 31.590 para 65.005 turistas estrangeiros, e depois consolidou a alta: entre janeiro e julho de 2026, o estado somou cerca de 93 mil visitantes estrangeiros, avanço de aproximadamente 77% sobre igual intervalo de 2025, impulsionado sobretudo por conexões aéreas diretas com a Argentina.
O fenômeno não é isolado. O Nordeste como um todo recebeu 212 mil turistas estrangeiros entre janeiro e março de 2026, um crescimento de 66% em relação ao mesmo trimestre de 2025 — mais que o triplo da média nacional, de 19% no período. Um dos fatores citados pelo Ministério de Portos e Aeroportos para essa expansão é o crescimento da malha aérea internacional voltada à região: o número de rotas que ligam aeroportos nordestinos a destinos internacionais saltou de 18 em 2023 para 42 em 2026, alta de 133%, com o total de operações de voo passando de 2.430 para 5.390 no mesmo intervalo.
Turismo rural também ganha plano de longo prazo
A ofensiva internacional não é o único movimento recente do setor turístico paraibano. Nos dias 8 e 9 de setembro, cerca de 50 empresários e representantes de 24 municípios se reuniram na sede do Sebrae em Campina Grande para o Planejamento Estratégico do Turismo Rural da Paraíba, com foco no período de 2027 a 2030. O encontro, organizado pela Associação Paraibana de Turismo Rural (Paraiturr) em parceria com o Sebrae/PB, teve como meta definir 20 projetos prioritários para fortalecer o segmento e alinhar a agenda estadual à Associação Brasileira de Turismo Rural (Abraturr).
Participaram municípios como Areia, Mamanguape, Araruna, Boqueirão, Patos e o distrito de Galante, em Campina Grande — regiões que concentram experiências ligadas à agricultura familiar, à gastronomia regional e ao turismo de base comunitária. “O turismo rural conecta território, cultura, gastronomia, natureza e modos de vida das comunidades”, afirmou Regina Amorim, gestora de Turismo e Economia Criativa do Sebrae/PB. Já Leonaldo Andrade, presidente da Paraiturr, destacou o papel do setor produtivo local: “A participação dos empresários é fundamental para que essas ações resultem em desenvolvimento sustentável.” O evento também contou com a presença de Rodrigo Soares, presidente do Sebrae Nacional, e de Luiz Alberto Amorim, superintendente do Sebrae/PB.
O que isso significa para hotéis, pousadas e gastronomia
Para o trade turístico paraibano, a combinação dos dois movimentos — internacionalização e estruturação do turismo do interior — tem efeito prático direto. O envolvimento da ABIH-PB na ação em Ciudad del Este indica que a rede hoteleira já se posiciona para atender um público estrangeiro em expansão, especialmente vindo de países vizinhos com voos e deslocamentos terrestres mais curtos, como Argentina e Paraguai. Um público internacional maior tende a pressionar positivamente a ocupação em períodos de baixa temporada doméstica, além de estimular investimentos em qualificação de mão de obra, sinalização multilíngue e ampliação de roteiros que vão além da orla de João Pessoa, incluindo praias como Coqueirinho, Tambaba e Baía da Traição.
Já o plano para o turismo rural mira um público diferente, mas complementar: viajantes interessados em vivências de menor impacto, gastronomia típica e produção artesanal em municípios do brejo e do sertão paraibano. Se bem executado, esse eixo pode distribuir a renda do turismo para além da faixa litorânea, historicamente concentrada em João Pessoa e municípios vizinhos, gerando trabalho e renda em cidades menores que hoje dependem quase exclusivamente da agropecuária.
Desafios e próximos passos
Apesar dos percentuais expressivos, é preciso relativizar a base de comparação: o salto de 770,8% em turistas internacionais reflete, em números absolutos, um universo ainda pequeno — 836 visitantes em quatro meses, ante os 65 mil recebidos por Pernambuco no mesmo período. O desafio da Paraíba, portanto, é converter ações pontuais de promoção, como a realizada em Ciudad del Este, em fluxo consistente e recorrente de visitantes, o que depende de fatores fora do controle direto do setor turístico, como a expansão da malha aérea internacional e a manutenção do câmbio favorável ao turista estrangeiro.
Do lado do turismo rural, o sucesso do planejamento estratégico dependerá da capacidade dos 24 municípios envolvidos de transformar os 20 projetos prioritários definidos no encontro em ações concretas de infraestrutura, capacitação e divulgação — um processo que, historicamente, esbarra em limitações orçamentárias de prefeituras menores e na necessidade de investimento privado complementar.
De todo modo, o duplo movimento desta semana — a estreia comercial no Paraguai e o planejamento de longo prazo para o interior — mostra um setor turístico paraibano tentando amadurecer em duas frentes simultâneas: ampliar a captação de turistas de fora do país e diversificar a oferta para além do litoral. Para o leitor e viajante da região, o efeito prático deve aparecer aos poucos, em mais voos, mais pacotes internacionais ofertados e, com sorte, em roteiros rurais mais estruturados nos próximos anos.
Fontes: Paraíba Business (2026).

