A Paraíba entra na reta final da campanha eleitoral de 2026 sob um esquema especial de segurança em três municípios considerados de maior risco pela Justiça Eleitoral. A Polícia Militar do estado vai deslocar tropas especializadas — Batalhão de Choque, Rondas Ostensivas Tático-Militares (Rotam) e Cavalaria — para Bayeux, Itabaiana e Piancó a partir de 1º de outubro, quatro dias antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. A desmobilização está prevista para a segunda-feira seguinte ao pleito.
O reforço estadual é resposta a pedidos que três juízes eleitorais fizeram ao Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) para que o governo federal enviasse tropas das Forças Armadas às três cidades. O pedido de Bayeux partiu do juiz da 61ª Zona Eleitoral, Francisco Antunes Batista, que citou risco de interferência de facções criminosas no resultado da votação e lembrou que o município já havia recebido reforço militar nas eleições municipais de 2024. Em Itabaiana, a solicitação também apontou atuação de grupos armados na região. Já em Piancó, o juiz da 32ª Zona Eleitoral, Pedro Vasconcelos, fundamentou o pedido no acirramento da polarização política local.
TRE-PB nega tropas federais e opta por reforço estadual
Reunido em plenário, o TRE-PB rejeitou por unanimidade os pedidos de tropas federais, decisão tomada em 13 de julho de 2026 sob a presidência do desembargador Márcio Murilo, com apoio de outros seis juízes eleitorais. O entendimento do tribunal, seguindo o mesmo critério já aplicado ao caso de Itabaiana em 2 de julho, foi o de que o envio de Forças Armadas é medida reservada a situações de “absoluta excepcionalidade”, não configuradas nos três municípios após avaliação técnica da Ouvidoria Eleitoral Regional e do Ministério Público Eleitoral.
Em vez das tropas federais, o TRE-PB determinou o reforço do esquema de segurança com atuação ampliada da Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal. O governador Lucas Ribeiro e o desembargador João Benedito da Silva, corregedor do TRE-PB, se manifestaram favoráveis ao uso das forças estaduais em vez do envio de militares das Forças Armadas.
Em setembro, a corporação estadual detalhou como será a operação. Segundo o comandante-geral da PM-PB, coronel José Ronildo Souza, a partir de 1º de outubro “nós estaremos reforçando todo o policiamento do estado da Paraíba”, com tropas especializadas enviadas às três cidades cerca de quinze dias antes da votação e um tenente-coronel designado para comandar as operações locais.
Por que os três municípios preocupam a Justiça Eleitoral
Os três casos têm motivações distintas, mas convergem para o mesmo temor: que a disputa eleitoral seja contaminada por violência ou intimidação de eleitores. Em Bayeux, cidade da Região Metropolitana de João Pessoa, o receio é de que organizações criminosas tentem influenciar o resultado das urnas, um cenário que já levou ao reforço militar no pleito municipal de 2024. Em Itabaiana, no Agreste paraibano, a preocupação também é a presença de grupos armados atuando na região. Piancó, no Sertão do estado, é um caso à parte: ali o problema não é criminalidade organizada, mas o histórico de disputas políticas locais mais acirradas, incluindo episódios recentes de atrito entre rivais.
Para a população desses municípios, a medida significa uma eleição sob vigilância reforçada — viaturas, policiamento ostensivo e tropas de elite circulando nas ruas nos dias que antecedem e sucedem a votação. Embora o objetivo declarado seja inibir qualquer tentativa de violência ou fraude, o episódio também expõe um retrato preocupante: passados mais de quarenta anos da redemocratização, ainda existem partes do estado onde a Justiça Eleitoral avalia como real o risco de que facções criminosas ou disputas políticas radicalizadas interfiram no processo democrático.
Um pleito decisivo para o comando do estado
A eleição de outubro tem peso adicional na Paraíba porque decide quem comanda o Palácio da Redenção pelos próximos quatro anos, num cenário de sucessão movimentada. João Azevêdo (PSB), reeleito governador em 2022, deixou o cargo em abril de 2026 para disputar uma vaga no Senado Federal, sendo substituído pelo então vice-governador Lucas Ribeiro (Progressistas), que agora tenta a reeleição. Concorrem também ao governo do estado Cícero Lucena (MDB), ex-prefeito de João Pessoa por três mandatos, o deputado federal licenciado Efraim Filho (PL), o produtor rural Pedro Coutinho (DC) e o advogado Yuri Ezequiel (UP), este último em sua primeira candidatura relevante. O primeiro turno ocorre em 4 de outubro, com eventual segundo turno a definir.
É justamente esse ambiente de disputa acirrada pelo comando estadual — somado às tensões locais em Bayeux, Itabaiana e Piancó — que torna o esquema de segurança um ponto de atenção para eleitores, candidatos e para a própria credibilidade do pleito. Um processo eleitoral percebido como seguro tende a favorecer maior comparecimento às urnas e a reduzir a judicialização de resultados após a apuração; o inverso, num estado onde a violência política já motivou pedidos formais de tropas federais, pode alimentar desconfiança em relação ao resultado nas localidades mais sensíveis.
O que vem a seguir
Nos próximos dias, cabe à Polícia Militar detalhar o efetivo exato que será deslocado para as três cidades e como se dará a integração com as demais forças de segurança — Polícia Civil, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal — determinadas pelo TRE-PB. O tribunal também deve monitorar o clima político em Piancó e a atuação de grupos armados em Bayeux e Itabaiana até a votação, podendo rever o nível de reforço se houver novos incidentes antes de 1º de outubro. Após o primeiro turno, a manutenção ou não do esquema especial dependerá do resultado nas urnas e da eventual necessidade de um segundo turno, quando o policiamento reforçado normalmente é reavaliado.
O episódio também deve reacender, nos bastidores da política paraibana, o debate sobre segurança pública e presença do Estado no interior — tema que tende a aparecer nos discursos de campanha dos candidatos ao governo nas últimas semanas antes da votação.
Fontes: CNN Brasil e Exame.

