A prévia da inflação oficial do país veio negativa em agosto. O IPCA-15, medido pelo IBGE, registrou deflação de 0,40% no mês, depois de ter subido 0,06% em julho. O resultado ficou abaixo do que o mercado esperava — a mediana das projeções compiladas pela Reuters apontava queda de 0,30%. Em agosto de 2025, o índice havia recuado 0,14%.
Os números
No acumulado de 2026, o IPCA-15 soma alta de 3,09%. Em 12 meses, a inflação desacelerou de 4,52% para 4,24%, aproximando-se do teto da meta perseguida pelo Banco Central (centro de 3%, com margem de tolerância até 4,5%). O IPCA-15 é uma prévia: os preços são coletados de meados de um mês a meados do seguinte — nesta leitura, de 16 de julho a 14 de agosto — e servem de sinal antecipado para o IPCA cheio, que o IBGE divulga poucos dias depois, conforme o calendário oficial.
O que puxou os preços para baixo
O grande responsável pela deflação foi a energia elétrica residencial, que caiu 6,25% e sozinha subtraiu 0,26 ponto percentual do índice. A queda se deve à incorporação do Bônus de Itaipu nas faturas emitidas em agosto — um abatimento pontual, ligado à devolução de recursos excedentes da hidrelétrica binacional. Também recuaram com força as passagens aéreas (-13,30%) e itens de alimentação como tomate (-27,38%) e batata-inglesa (-25,14%), beneficiados pela safra e pelo clima favorável.
O que continuou subindo
Nem tudo cedeu. Cigarros ficaram 5,56% mais caros no mês, leite longa vida subiu 3,41%, frutas avançaram 3,11% e os planos de saúde subiram 0,42%, seguindo o reajuste anual autorizado. Entre as regiões pesquisadas, Curitiba teve a maior deflação (-0,82%), enquanto São Paulo — que responde por cerca de um terço do peso do índice — recuou apenas 0,06%.
Consequências para empresas e consumidores
Para as famílias, agosto trouxe alívio real no caixa, concentrado na conta de luz e nas viagens. Para o comércio, uma inflação mais baixa tende a preservar o poder de compra e ajuda a sustentar as vendas no segundo semestre, período que inclui a Semana do Brasil e antecede o Natal. O porém é a natureza temporária do fator principal: o Bônus de Itaipu é um abatimento de uma vez, e a conta de luz pode voltar a subir nos próximos meses, sobretudo se as bandeiras tarifárias mudarem de cor por causa do nível dos reservatórios. Contratos indexados à inflação — aluguéis, mensalidades, planos — tendem a ter reajustes mais comportados com o índice de 12 meses em desaceleração.
Relação com o Brasil
A leitura reforça o cenário de inflação em trajetória de queda, ainda que ligeiramente acima do centro da meta, e alimenta o debate sobre o ritmo de corte dos juros pelo Copom. A Selic segue em patamar elevado, o que mantém o crédito caro para empresas e consumidores mesmo com a inflação recuando. O risco no radar vem de fora: a alta recente do petróleo, que voltou a passar de US$ 100 o barril nesta semana, pode pressionar combustíveis e fretes já em setembro, na direção oposta ao que se viu em agosto.
Relação com Pernambuco e a Paraíba
A conta de luz pesa proporcionalmente mais no orçamento das famílias nordestinas de renda mais baixa, então uma queda de 6,25% na energia tem efeito social relevante em estados como a Paraíba, onde a distribuição é feita pela Energisa, e em Pernambuco, atendido pela Neoenergia. O comércio de rua de João Pessoa, Campina Grande, Recife e Caruaru se beneficia de qualquer fôlego no consumo. E a queda nas passagens aéreas favorece diretamente o turismo receptivo do Litoral paraibano e pernambucano, que depende de voos para os aeroportos de João Pessoa, Recife e Campina Grande. Boa parte desse alívio, no entanto, é sazonal e pode não se repetir na leitura de setembro.
Perspectivas
O mercado deve recalibrar as projeções para o IPCA de 2026 após o dado, com viés de leve baixa no curto prazo. A atenção se volta agora para o IPCA cheio de agosto e para a próxima decisão do Copom. O ponto de virada a monitorar é a energia: sem o bônus e com risco de bandeira tarifária mais cara, o item que derrubou a inflação em agosto pode ser o que a empurra para cima no fim do ano.
Fontes: IBGE — Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), agosto de 2026; InfoMoney, “IPCA-15: prévia da inflação cai 0,40% em agosto, mais do que o esperado pelo mercado” (26/08/2026); Reuters, mediana de projeções de mercado; calendário de divulgações do IBGE.

