O preço do petróleo voltou a um patamar que o mercado não via desde julho. O barril do tipo Brent, referência internacional, encerrou a quarta-feira, 9 de setembro, acima de US$ 100, depois de uma sequência de altas puxada pela escalada militar no Oriente Médio. Na segunda-feira (7), o contrato já havia atingido cerca de US$ 97,93, maior valor desde 23 de julho; na terça (8), fechou perto de US$ 98,60; e na quarta rompeu a marca psicológica dos três dígitos.
O que provocou a alta
O gatilho mais recente foi um ataque com drones e mísseis balísticos, atribuído aos rebeldes houthis do Iêmen, alinhados ao Irã, contra instalações de energia da estatal Saudi Aramco e outras estruturas no sul da Arábia Saudita. Segundo apuração de agências internacionais, foram atingidos alvos nas regiões de Abha, Jazan, Najran e Khamis Mushait, incluindo unidades de refino, e pelo menos 73 pessoas ficaram feridas. Um porta-voz militar houthi, o general Yahya Saree, afirmou que o grupo disparou dezenas de mísseis e drones contra instalações petrolíferas e econômicas.
O ataque se soma a um quadro que já vinha tenso. O conflito entre Estados Unidos e Irã está no sétimo mês, com trocas de ataques na costa sul iraniana e retaliações contra posições americanas na região. Desde o início do ano, o Irã vem restringindo a navegação pelo Estreito de Ormuz — passagem por onde circulava cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo. Relatos de mercado indicam que o fluxo pela região caiu de 8 a 9 milhões de barris por dia para menos de 2 milhões. Há ainda risco para o tráfego pelo Bab al-Mandeb, no Mar Vermelho, o que levou a Arábia Saudita a desviar parte da produção para terminais no Atlântico.
O que dizem os bancos
Segundo a agência Reuters, instituições como Goldman Sachs, Bank of America e HSBC elevaram recentemente suas projeções para o Brent diante da possibilidade de o conflito se prolongar. O Goldman Sachs chegou a estimar que uma extensão das hostilidades poderia levar o barril acima de US$ 120. Analistas ouvidos pela imprensa internacional apontam que a principal preocupação não é a perda pontual de produção saudita, mas uma mudança mais duradoura nas rotas físicas de escoamento do petróleo do Golfo.
Consequências para empresas e consumidores
O petróleo mais caro encarece de forma quase imediata o diesel, o querosene de aviação e os fretes, e, com alguma defasagem, a gasolina e o gás de cozinha. Para a indústria e o comércio, o efeito chega pelo custo de transporte de insumos e mercadorias; para o consumidor, pelo preço da passagem aérea, do transporte de aplicativo e, na ponta, dos alimentos, cujo custo logístico sobe. O momento é particularmente delicado porque a prévia da inflação (IPCA-15) de agosto havia registrado deflação de 0,40%, em boa parte graças à queda na conta de luz — um alívio que a alta do petróleo pode neutralizar nos próximos meses.
Relação com o Brasil
O país fica numa posição ambígua. Como exportador líquido de petróleo graças ao pré-sal, o Brasil ganha na balança comercial quando o barril sobe. Mas sofre no bolso do consumidor, porque a Petrobras usa referências internacionais para calcular os preços que pratica com as distribuidoras. A estatal reforça que não repassa automaticamente as oscilações externas e que monitora as cotações diariamente antes de qualquer reajuste. Ainda assim, se o Brent seguir perto ou acima de US$ 100 e o dólar também subir, a pressão sobre os combustíveis tende a aumentar.
Foi nesse contexto que o governo federal publicou, no mesmo 9 de setembro, a Medida Provisória 1.389/2026, abrindo R$ 6,605 bilhões em crédito extraordinário para subvenções ligadas à produção e à importação de combustíveis. Do total, R$ 5,607 bilhões vão especificamente para o óleo diesel de uso rodoviário — o combustível que mais influencia o custo do transporte de cargas e, por tabela, a inflação de alimentos.
Relação com Pernambuco e a Paraíba
O impacto regional é concreto. A fruticultura irrigada de Petrolina e Juazeiro, no polo do Vale do São Francisco, depende de diesel para bombeamento de água e para o transporte da produção até os portos — sobretudo Suape, em Pernambuco, que também é porta de entrada de derivados importados. Transportadoras que abastecem o Agreste (Caruaru, Campina Grande, Toritama) e o Sertão operam com margem apertada e repassam o custo do frete ao comércio. No turismo do Litoral, a alta do querosene de aviação encarece as passagens para Recife, João Pessoa e Maceió justo antes da alta estação. É um efeito majoritariamente indireto, mas de transmissão rápida.
Perspectivas
O comportamento do preço nas próximas semanas depende menos da produção e mais da diplomacia: qualquer sinal de trégua entre EUA e Irã, ou de reabertura segura de Ormuz, derruba o prêmio de risco embutido hoje na cotação. No sentido contrário, um novo ataque a infraestrutura saudita ou a navios levaria o barril a testar patamares mais altos. Para o Brasil, o par a acompanhar é petróleo mais dólar: é a combinação dos dois que define se haverá reajuste nas bombas.
Fontes: CNBC, “Oil prices rise to 6-week high after Iran and U.S. trade blows, Saudi Aramco facilities reportedly hit” (07/09/2026);

