O comércio eletrônico brasileiro entra em setembro na contagem regressiva para a Black Friday, que este ano cai em 27 de novembro, uma sexta-feira. Especialistas em varejo situam o início de setembro como o marco dos 90 dias — o momento em que as operações precisam fechar metas, negociar estoque com fornecedores e revisar a infraestrutura logística e tecnológica antes do pico de vendas do ano.
Um setor que ainda cresce, mas desacelera
A Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (Abiacom, antiga ABComm) projeta faturamento de R$ 259,8 bilhões para o e-commerce brasileiro em 2026, alta de 9,9% sobre os R$ 235,5 bilhões de 2025. O número de pedidos deve chegar a 460,9 milhões (+5%), o ticket médio a R$ 562,15 (+4,7%) e o total de compradores a cerca de 97 milhões de pessoas. É crescimento real, mas num ritmo bem mais lento: em 2025, o setor havia crescido 15,3% em relação ao ano anterior.
A desaceleração tem várias explicações apontadas pelo mercado: base de comparação já alta, juros elevados que encarecem o crédito e o parcelamento, e um consumidor mais seletivo. Nesse cenário, a diferença entre uma loja e outra deixa de estar só no preço e passa cada vez mais pela experiência de compra — sobretudo pela entrega.
A última milha como campo de batalha
A última milha é o trecho final da logística, do centro de distribuição até a porta do cliente. É a etapa mais cara e mais sujeita a falhas de toda a cadeia, e é também a que o consumidor efetivamente enxerga. Levantamentos do setor citados pela imprensa especializada indicam que a maioria dos consumidores não volta a comprar em uma loja depois de uma experiência ruim de entrega.
A Black Friday amplifica esse desafio: o volume de pedidos dispara em poucos dias, a pressão por prazo curto aumenta e qualquer gargalo — falta de mão de obra, congestionamento, transportadora sobrecarregada — se espalha por toda a operação. Por isso, os grandes marketplaces vêm disputando o consumidor com uma combinação de frete grátis, entrega rápida, crédito, publicidade e subsídio no preço final, e investindo pesado em galpões e centros logísticos mais perto de quem compra.
O peso do Nordeste, da Paraíba e de Pernambuco
O eixo dessa expansão logística está justamente fora do Sudeste. O Nordeste se consolidou como o segundo maior mercado de e-commerce do Brasil em volume de pedidos, respondendo por cerca de 15% das transações digitais do país, e vem ganhando participação a cada ano. A região deixou de ser apenas destino de encomendas despachadas de São Paulo e passou a receber centros de distribuição próprios das grandes plataformas.
Os indicadores locais ajudam a explicar o movimento. Pernambuco fechou o primeiro semestre de 2026 na liderança do crescimento do comércio varejista no país, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE: alta de 10,7% no varejo restrito e de 9,6% no varejo ampliado no acumulado de janeiro a junho, contra médias nacionais de 2,9% e 1,9%, respectivamente. Na Paraíba, o comércio eletrônico movimenta cerca de R$ 2,4 bilhões por ano, o equivalente a pouco mais de 1% de todo o faturamento do e-commerce brasileiro, e categorias como autopeças, áudio automotivo e itens de casa aparecem entre as mais compradas.
O que muda para empresas e consumidores
Para o pequeno e médio lojista da Paraíba e de Pernambuco que vende online, a mensagem de setembro é de planejamento: definir até onde a operação consegue crescer sem quebrar, combinar volume e prazo com transportadoras antes que elas fiquem lotadas, e ser realista na promessa de entrega feita ao cliente — melhor prometer cinco dias e cumprir do que prometer dois e falhar. Para quem usa os grandes marketplaces como canal, vale entender as regras de logística de cada plataforma (estoque no centro de distribuição do marketplace, coleta, prazos) antes da alta temporada.
Para o consumidor, a proximidade dos centros de distribuição tende a significar prazos menores e mais opções de frete no Nordeste do que há alguns anos. Mas os órgãos de defesa do consumidor lembram que, na Black Friday, é comum haver falso desconto e atraso na entrega — a recomendação é acompanhar o preço do produto nas semanas anteriores, guardar o comprovante e o prazo prometido, e desconfiar de oferta muito fora da curva.
Perspectivas
O desempenho da Black Friday de 2026 vai ser lido como termômetro do fôlego do consumo brasileiro no fim do ano, num ambiente de juros ainda altos. Para o Nordeste, o teste é se a nova malha logística instalada na região aguenta o pico de novembro sem os gargalos de entrega que marcaram anos anteriores. Os primeiros dados consolidados de vendas e de prazo médio de entrega da data devem sair na primeira quinzena de dezembro.
Fontes
Abiacom (ex-ABComm), projeção de faturamento do e-commerce brasileiro para 2026 (estudo divulgado em fevereiro de 2026, com números reforçados por publicações do setor em setembro de 2026);

