A Argentina começou a semana sob turbulência política e cambial. No domingo (7 de setembro), a coalizão do presidente Javier Milei, a La Libertad Avanza, foi derrotada na eleição legislativa da Província de Buenos Aires — o maior colégio eleitoral do país — por uma margem de quase 14 pontos percentuais para o peronismo. O tamanho da diferença surpreendeu o governo, que esperava um resultado apertado, e foi lido pelos mercados como sinal de enfraquecimento do projeto econômico da gestão.
A reação dos mercados
A resposta veio na abertura de segunda-feira. O dólar oficial subiu quase 50 pesos, as ações de empresas argentinas negociadas em Wall Street (os ADRs) caíram e o índice de risco-país ultrapassou os 1.000 pontos, patamar que praticamente fecha o acesso do país aos mercados internacionais de crédito. O temor é que a derrota reduza a capacidade do governo de sustentar o plano de estabilização — que conseguiu derrubar a inflação mensal de dois dígitos nos primeiros anos de Milei — e reabra o risco de desvalorização abrupta do peso.
O que está em jogo em 26 de outubro
A eleição bonaerense é um ensaio para a eleição legislativa nacional de 26 de outubro, quando se renova parte da Câmara e do Senado. O governo precisa de pelo menos 86 deputados para manter o poder de sustentar vetos presidenciais e blindar as reformas fiscais já aprovadas. Sem essa bancada, o Executivo fica exposto a derrotas no Congresso nos dois anos restantes de mandato. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aliado de Milei, já declarou publicamente que, “se ele perder a eleição”, Washington não será “generoso com a Argentina” — uma referência ao apoio financeiro e às tratativas com o FMI.
Por que isso importa para o Brasil
A Argentina é o terceiro maior destino das exportações brasileiras e o principal mercado para produtos manufaturados, o segmento que mais gera emprego industrial. No acumulado de janeiro a julho de 2026, a corrente de comércio bilateral rendeu ao Brasil um superávit de US$ 1,22 bilhão, com exportações de US$ 8,76 bilhões e importações de US$ 7,55 bilhões. A pauta é dominada pelo setor automotivo nos dois sentidos: o Brasil vende automóveis de passageiros (US$ 1,65 bilhão no período) e autopeças, e compra veículos de carga (US$ 1,99 bilhão). As vendas brasileiras para o vizinho, porém, já vinham em queda — recuo de 18,1% em 12 meses — por causa da recessão e do câmbio argentino.
Consequências para empresas e consumidores
Uma desvalorização adicional do peso encarece o produto brasileiro na Argentina e tende a aprofundar a retração das exportações da indústria de transformação — montadoras do ABC paulista, do Paraná e de Minas, fabricantes de autopeças, de eletrodomésticos, de plásticos e de alimentos processados. No sentido inverso, produto argentino mais barato (trigo, vinho, lácteos, veículos) pressiona concorrentes locais. Para o consumidor brasileiro, o efeito direto é pequeno; o canal mais sensível é o do turismo, com a Argentina se tornando destino mais barato e o Brasil, mais caro para o turista argentino que costuma lotar o litoral do Sul e do Nordeste no verão.
Relação com Pernambuco e Paraíba
O impacto sobre PB e PE é indireto e menor do que sobre o Sudeste, mas existe. Pernambuco tem polo automotivo e metalmecânico ligado a Suape e exporta frutas, derivados de petróleo e produtos químicos; a Paraíba vende calçados, têxteis, açúcar e sisal. A Argentina não está entre os principais compradores desses estados, mas a piora do mercado argentino afeta a matriz das montadoras e das indústrias que têm operação no Nordeste, e qualquer estresse cambial regional costuma respingar no real — encarecendo insumos importados usados pela indústria local. É uma inferência econômica, não um efeito já medido.
Perspectivas
O mercado vai monitorar se o Banco Central argentino consegue conter o dólar sem queimar reservas e se Milei recompõe a base política até outubro. Um cenário de derrota nacional do governo em 26 de outubro elevaria o risco de nova crise cambial no vizinho — o tipo de evento que, no passado (2018, 2023), contaminou o câmbio e a bolsa brasileiros por semanas.
Fontes: CNN Brasil, “Milei passa por seu momento mais difícil na véspera das eleições argentinas” (09/2026); Bloomberg Línea; dados de comércio exterior compilados por FazComex/Comex Stat (exportações Brasil–Argentina, jan–jul 2026).

