O varejo de alimentos do Nordeste tem um novo protagonista, e ele nasceu em Pernambuco. O Ranking ABRAS 2026, elaborado pela Associação Brasileira de Supermercados com a NielsenIQ e divulgado em agosto, aponta que o Novo Mateus — resultado da união entre o Novo Atacarejo e o Grupo Mateus nas operações de Pernambuco, Paraíba e Alagoas — foi a rede que mais cresceu no país em 2025.
Um salto de 115% em um ano
O faturamento do Novo Mateus passou de R$ 5,8 bilhões em 2024 para R$ 12,5 bilhões em 2025, uma alta de aproximadamente 115% — o maior avanço percentual entre supermercados e atacarejos do ranking. Com isso, a rede entrou para o grupo dos maiores atacadistas de alimentos do Brasil. A comparação dimensiona o feito: no mesmo levantamento, o Grupo Koch cresceu 25% e o Supermercados BH, 20,8%.
A combinação de negócios foi selada por memorando de entendimentos em maio de 2024, com o Grupo Mateus detendo 51% e os acionistas do Novo Atacarejo, 49% da empresa resultante nos três estados. Em julho de 2026, a operação incorporou também as lojas da bandeira Mateus em Alagoas, ampliando a rede regional para 67 unidades distribuídas por Pernambuco, Paraíba e Alagoas.
De Carpina para o topo do ranking
O Novo Atacarejo, base da operação, abriu sua primeira loja em Carpina (PE) em 2019 e construiu em seis anos uma rede de atacarejo com centro de distribuição em Moreno, na Região Metropolitana do Recife, e cerca de 8 mil empregos diretos. Em 2026, seguiu inaugurando: a 40ª loja foi aberta em Igarassu, na Grande Recife, em maio, gerando cerca de 200 empregos diretos. O CEO, Daniel Costa, tem repetido que o modelo “nascido em Pernambuco” cresce ancorado em logística própria e em pontos posicionados nas rodovias que ligam o interior à capital.
Publicações do setor também noticiaram, ao longo de 2026, um movimento de reestruturação no Grupo Mateus como um todo, com fechamento de lojas menos rentáveis em algumas praças — sinal de que a expansão vem acompanhada de ajuste de portfólio.
O tabuleiro nacional
No topo do Ranking ABRAS 2026 seguem os mesmos nomes: Carrefour lidera pelo décimo ano seguido, com R$ 123 bilhões de faturamento em 2025, seguido por Assaí Atacadista (R$ 84,7 bilhões) e Grupo Mateus (R$ 43,5 bilhões). Os Supermercados BH aparecem em quarto, com R$ 25,7 bilhões. No conjunto, o setor supermercadista faturou R$ 1,145 trilhão em 2025, o equivalente a 9,12% do PIB brasileiro, com 439.728 lojas (alta de 3,6% no número de unidades) e cerca de 30 milhões de clientes atendidos por dia.
Paraíba: as redes locais resistem
Do outro lado da fronteira estadual, o varejo paraibano mostra que há espaço para a rede regional que conhece o cliente. Segundo o Ranking ABRAS 2026, as dez maiores redes com operação concentrada na Paraíba somaram R$ 3,3 bilhões de faturamento em 2025, lideradas pela BeMais Supermercados, com R$ 860 milhões, seguida por Farias Supermercados (R$ 601 milhões), Rede Paraíba (R$ 539 milhões) e Rede Menor Preço (R$ 501 milhões).
A BeMais opera 12 unidades em João Pessoa e uma em Guarabira, com cerca de 2 mil empregos diretos e 32 anos de mercado. A avaliação da rede é de que o consumidor paraibano tende a um perfil “tradicional”, fiel à marca em que confia, o que abre uma janela de defesa contra os gigantes nacionais — que avançam com força no estado, caso do Carrefour (R$ 58,2 bilhões no primeiro semestre de 2026) e do Assaí (R$ 21,3 bilhões no segundo trimestre).
O que muda para quem compra e para quem vende
Para o consumidor, a consolidação do atacarejo em Pernambuco e na Paraíba tende a manter a pressão de preços baixos no curto prazo, já que redes desse porte compram em grande volume e trabalham com margem enxuta. Para o pequeno mercado de bairro, a conta é mais dura: a concorrência de um atacarejo regional bem abastecido a poucos quilômetros aperta o giro e obriga a se especializar em conveniência, crédito informal e proximidade.
Já para o fornecedor local — da indústria de alimentos ao produtor de hortifrúti da região —, uma rede regional grande é ao mesmo tempo oportunidade e risco: oportunidade porque um único contrato pode colocar o produto em dezenas de lojas e viabilizar marca própria; risco porque o poder de barganha do comprador cresce com a escala, pressionando preço e prazo de pagamento. O setor supermercadista brasileiro deve crescer cerca de 3,6% em 2026, e a disputa por esse crescimento no Nordeste passa cada vez mais por redes nascidas na própria região.
Fontes
- SuperVarejo — Carrefour, Assaí Atacadista e Grupo Mateus continuam na liderança do Ranking ABRAS 2026 (supervarejo.com.br)
- SuperHiper — Ranking ABRAS 2026 destaca supermercados como força motriz da economia brasileira (superhiper.com.br)

