A reunião do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, marcada para 15 e 16 de setembro de 2026, entrou no radar dos mercados por um motivo incomum: em vez de discutir corte, os investidores agora avaliam a chance de uma alta de juros. A ferramenta FedWatch, da CME, aponta em torno de 66% de probabilidade de um aumento de 0,25 ponto percentual, que levaria a taxa de referência americana da faixa atual de 3,50% a 3,75% para 3,75% a 4,00%. Estrategistas do J.P. Morgan Wealth Management já incorporaram essa alta ao cenário-base.
Por que o Fed voltaria a subir juros
Na reunião de julho, o comitê do Fed manteve a taxa por 9 votos a 3, mas a ata e discursos posteriores mostraram desconforto com a inflação. O índice de preços de gastos com consumo (PCE), medida preferida do banco central americano, roda em torno de 3,7% em 12 meses, acima da meta de 2%. Pesaram também os choques de oferta de energia associados ao conflito no Oriente Médio, que mantêm o petróleo e os combustíveis pressionados, e a percepção de que a credibilidade do Fed ficaria arranhada se ele tolerasse inflação alta por muito tempo. O presidente do Fed, Kevin Warsh, afirmou que as tendências subjacentes de inflação não melhoraram de forma significativa.
O Brasil vai no sentido oposto
Na mesma semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil se reúne, e o mercado, segundo o Boletim Focus, espera um corte de 0,25 ponto na Selic, hoje em patamar de dois dígitos, com sinalização de que esse pode ser o último corte de 2026. A hipótese de pausa já em setembro perdeu força depois de dados mostrando desaceleração da atividade econômica brasileira e leituras de inflação abaixo do esperado.
O resultado é um descasamento de política monetária: juro subindo nos Estados Unidos e caindo no Brasil. Esse movimento estreita o diferencial de juros entre os dois países — o prêmio que remunera quem aplica em reais e sustenta boa parte das operações de carry trade. Diferencial menor significa menos incentivo para o capital estrangeiro ficar em ativos brasileiros e, portanto, mais pressão sobre a moeda.
O dólar em setembro
A moeda americana começou setembro em torno de R$ 5,14, após recuar 0,69% num pregão. As projeções de casas de análise para o mês, reunidas pela imprensa econômica, ficam em geral entre R$ 5,10 e R$ 5,35. A Wiser Asset, pelo estrategista Fábio Murad, trabalha com essa faixa como cenário central, com piso próximo de R$ 5,00 num cenário favorável e teto de R$ 5,40 a R$ 5,50 num cenário adverso. Para Gustavo Assis, da Asset, o dólar deve seguir volátil e com dificuldade de se descolar de R$ 5,20. Analistas técnicos apontam suporte na região de R$ 5,13 a R$ 5,16 e resistências em R$ 5,25 e R$ 5,30.
Além do Fed, pesam no câmbio de setembro as discussões fiscais internas, a proximidade do primeiro turno das eleições, em outubro, e a volatilidade do petróleo ligada ao Oriente Médio.
O que muda para empresas e consumidores
Um dólar mais pressionado encarece tudo que é importado ou cotado em moeda estrangeira: combustível (via paridade de importação), trigo e fertilizante, componentes eletrônicos, máquinas e insumos industriais. Esse repasse chega ao consumidor com defasagem, na forma de inflação de alimentos, transporte e bens duráveis. Empresas endividadas em dólar ou dependentes de insumo importado veem o custo financeiro e o custo de produção subirem. Do outro lado, exportadores — agro, mineração, calçados, têxteis — ganham competitividade e receita em reais. Para quem viaja ao exterior ou consome serviços internacionais, a conta piora.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
O canal mais direto é o custo de insumos importados para a indústria regional. O polo de confecções do Agreste de Pernambuco (Caruaru, Toritama, Santa Cruz do Capibaribe) e a cadeia têxtil e de calçados da Paraíba (Campina Grande, Patos, João Pessoa) compram fios, tecidos sintéticos, componentes e máquinas cotados em dólar — câmbio mais alto aperta a margem. O Complexo de Suape, em Pernambuco, concentra refino, petroquímica e movimentação de granéis: variações do petróleo e do dólar afetam diretamente o custo da matéria-prima e o preço dos derivados que saem de lá. No Porto de Cabedelo, na Paraíba, o efeito aparece no custo dos insumos agrícolas importados e no valor recebido pelos embarques de frutas e sucos.
Há ainda o lado positivo: um real mais fraco torna os produtos regionais mais competitivos no exterior — fruta do Vale do São Francisco (Petrolina/Juazeiro), calçado, castanha — e barateia o Brasil para o turista estrangeiro, num momento em que Recife amplia voos internacionais e o litoral paraibano busca esse público. O saldo final para a economia de PB e PE depende de qual efeito pesa mais em cada cadeia, e isso varia setor a setor — é uma leitura de tendência, não uma conta fechada.
Perspectivas
A semana de 15 a 19 de setembro concentra as duas decisões — Fed e Copom — e deve definir o tom do câmbio até a eleição. Se o Fed subir juros e o Copom cortar, o diferencial se estreita e o real tende a ficar mais vulnerável; se o Fed apenas mantiver a taxa com discurso duro, o impacto é menor. Para empresas de PB e PE que dependem de insumo importado, o momento pede atenção a contrato de câmbio e a estoque estratégico; para exportadores, é janela de receita.
Fontes
- InfoMoney — “O que esperar do dólar em setembro? Veja até onde a moeda pode ir” (09/2026) — https://www.infomoney.com.br/mercados/o-que-esperar-do-dolar-em-setembro-veja-ate-onde-a-moeda-pode-ir/
- JPMorgan Chase — “Will the Fed Hike Rates in September? A 25-Basis-Point Move Is Now Expected” — https://www.chase.com/personal/investments/learning-and-insights/article/september-2026-rate-hike-now-expected-amid-energy-shocks
- Marketplace — “Why interest rate expectations are pointing north” (31/08/2026) — https://www.marketplace.org/story/2026/08/31/will-the-fed-raise-rates-at-september-fomc-meeting
- Bora Investir (B3) — “Copom terá 8 reuniões em 2026; veja calendário e projeção para a Selic” — https://borainvestir.b3.com.br/noticias/copom-tera-8-reunioes-em-2026-veja-calendario-e-projecao-para-a-selic/
- CNN Brasil — “Mercado reduz previsão para juros em 2026 às vésperas do Copom, diz Focus” — https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/mercado-reduz-previsao-para-juros-em-2026-as-vesperas-do-copom-diz-focus/
Imagem ilustrativa/conceitual gerada por IA (fachada de edifício institucional) — não é registro fotográfico de uma instituição específica.

