O comércio varejista brasileiro registrou em julho a quarta queda mensal seguida. O volume de vendas do varejo restrito recuou 0,3% na comparação com junho, na série livre de efeitos sazonais, de acordo com a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE, divulgada no início de setembro. O resultado veio em linha com a mediana das projeções de mercado, que também apontava recuo de 0,3%. Na comparação com julho de 2025, houve alta de 1%; no acumulado de janeiro a julho, o varejo restrito cresce 1,7%.
Uma queda lenta e persistente
Segundo o gerente da pesquisa no IBGE, Cristiano Santos, o varejo brasileiro vem numa “trajetória lenta e contínua de queda” desde março, período em que acumula perda de cerca de 1,1%. Não é um tombo abrupto, e sim uma perda de força espalhada ao longo dos meses. O varejo ampliado — que inclui veículos, material de construção e atacado de alimentos — teve comportamento diferente em julho, com alta de 1,3% na comparação mensal, mas queda de 2,5% frente a julho do ano passado.
Entre as oito atividades do varejo restrito, metade recuou de junho para julho. As maiores quedas vieram de equipamentos e material de escritório, informática e comunicação (-3,1%) e de tecidos, vestuário e calçados (-2,9%), seguidas por outros artigos de uso pessoal e doméstico (-0,6%) e por hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-0,3%). Na ponta positiva ficaram móveis e eletrodomésticos (+1,5%) e livros, jornais, revistas e papelaria (+1%).
Por que o varejo perdeu força
O principal freio é o custo do dinheiro. A taxa básica de juros (Selic) segue em patamar elevado, o que encarece o crediário, o cartão parcelado e o financiamento de bens duráveis, justamente as compras mais sensíveis a juro. Some-se a isso o endividamento ainda alto das famílias, a inflação de serviços e alimentos corroendo o poder de compra e um mercado de trabalho que, embora aquecido, já não acelera como em 2024. O resultado é um consumidor mais cauteloso, que troca marca, reduz quantidade e adia a troca de eletrodoméstico ou de celular.
O quadro regional: Nordeste na frente
O desempenho nacional fraco convive com um Nordeste que cresce acima da média, e Pernambuco é o caso mais forte. Pelos dados da PMC, o estado liderou o crescimento do varejo no país no primeiro semestre de 2026, com alta de 10,7% ante o mesmo período de 2025 — contra 1,9% do Brasil. No Nordeste, seguem Rio Grande do Norte (+4,5%), Ceará (+4%), Bahia (+3,5%), Paraíba (+2,6%) e Maranhão (+2%). Em Pernambuco, os segmentos que mais puxaram o resultado no acumulado do ano foram supermercados e hipermercados, equipamentos de informática e comunicação e o grupo de livros, jornais e papelaria.
Na foto mais recente por estado, referente a junho, a Paraíba teve o segundo melhor desempenho mensal do país, com alta de 1,7%, atrás apenas da Bahia (+2,3%); Pernambuco avançou 0,1% no mês. O dado estadual de julho, que o IBGE divulga alguns dias depois do número nacional, ainda não estava disponível no fechamento desta matéria — ou seja, ainda não dá para dizer se a desaceleração de julho no país também atingiu Paraíba e Pernambuco com a mesma intensidade.
Declarações e leitura do setor
Entidades do comércio vinham, ao longo de 2026, atribuindo o desempenho pernambucano a uma combinação de recuperação da renda no estado, expansão de redes de atacarejo e de moda popular, e um calendário de eventos e turismo aquecido na Região Metropolitana do Recife e no litoral. Na Paraíba, o comércio de João Pessoa e Campina Grande tem apontado como sustentação a chegada de novas lojas de redes nacionais e o movimento ligado ao turismo e aos serviços. São leituras do trade; o dado duro que se tem é o da PMC.
Consequências para empresas e consumidores
Para o lojista de Paraíba e Pernambuco, o cenário é de dois sinais ao mesmo tempo: a média nacional pede cautela com estoque e com aposta em parcelamento longo, mas a base regional de vendas ainda cresce mais do que o país, o que dá alguma margem para manter contratações e promoções. Para o consumidor, a queda do varejo costuma vir acompanhada de mais promoção e de disputa por preço — bom para quem tem caixa, ruim para quem depende de crédito, que continua caro.
O teste do segundo semestre
O varejo entra agora na temporada mais importante do ano. O Dia do Cliente, em 15 de setembro (uma terça-feira), abre a sequência que passa pela Semana do Cliente (13 a 19 de setembro), Black Friday em novembro e Natal em dezembro. Em 2025, a Semana do Cliente movimentou volumes recordes no comércio eletrônico de pequenas e médias empresas, e a expectativa do setor é de novo crescimento em 2026, ainda que em ritmo mais contido. Para Paraíba e Pernambuco, a pergunta é se o fôlego regional acima da média se mantém nessas datas ou se a desaceleração nacional, puxada por juro e crédito, acaba alcançando também o Nordeste no fim do ano.
Perspectivas
Analistas de mercado projetam que o varejo brasileiro deve fechar 2026 com crescimento baixo, de um dígito, bem abaixo do ritmo de 2023 e 2024. A trajetória depende, sobretudo, do início de um ciclo de corte de juros: enquanto a Selic não recuar de forma consistente, o crédito segue caro e as compras parceladas, contidas. Num ambiente assim, estados que têm crescido acima da média, como Pernambuco, tendem a sentir menos — mas não ficam imunes.
Fontes: IBGE — Pesquisa Mensal de Comércio de julho de 2026 (divulgada em setembro de 2026), com declarações do gerente da pesquisa, Cristiano Santos, via Agência de Notícias IBGE, CNN Brasil e Diário do Comércio; IBGE / PMC regional (dados de Pernambuco, Paraíba e demais estados do Nordeste no 1º semestre e em junho de 2026), via Diário de Pernambuco, Movimento Econômico e Paraíba Business; material de divulgação sobre Dia do Cliente e Semana do Cliente 2026 (InfoMoney, Rede Gazeta).

