Mirtes Renata Santana de Souza vestiu a toga em uma tarde de sábado. Debaixo do braço, uma fotografia. No retrato, um menino de olhos vivos que já não cresce há seis anos: Miguel Otávio, cinco aninhos, o filho que ela perdeu em 2 de junho de 2020, quando caiu do nono andar de um prédio de luxo no Recife.
Não há registro do que ela sentiu ao subir ao palco. Só se sabe que Miguel subiu com ela — na fotografia, na lembrança, talvez no silêncio entre um aplauso e outro.
Seis anos é tempo suficiente para cursar uma faculdade inteira. Também é tempo insuficiente, aparentemente, para que a Justiça brasileira encerre um processo. Enquanto Mirtes somava créditos, escrevia trabalhos, enfrentava provas, o processo criminal pela morte de seu filho seguia aberto — como se andasse em outro compasso, mais lento que qualquer vida.
Ela não escolheu qualquer tema para o trabalho de conclusão de curso. Escreveu sobre trabalho escravo contemporâneo e direitos fundamentais das trabalhadoras domésticas, e recebeu nota máxima. Não é difícil entender por quê: antes de estudar o tema, ela o viveu. Foi empregada doméstica. Estava justamente cumprindo uma tarefa doméstica — passeando com o cachorro da patroa — no instante em que Miguel, sob os cuidados de outra pessoa, caiu.
Há uma engrenagem nessa história que o Brasil conhece de cor, mesmo sem saber nomeá-la: a mulher negra que trabalha, a mulher que cuida, a criança que acompanha a mãe porque não havia escola nem creche durante a pandemia. Um apartamento de luxo. Uma queda. As circunstâncias, por si, não condenam ninguém — isso cabe à Justiça decidir. Mas elas desenham, com nitidez incômoda, o retrato de um país.
Sarí Côrte Real, a então patroa sob cujos cuidados Miguel estava, foi condenada em 2022 por abandono de incapaz com resultado morte. Em maio deste ano, um tribunal manteve a pena de sete anos em regime fechado — por seis votos a cinco, num placar que soa quase como uma metáfora do quanto essa história ainda divide. Ela segue em liberdade, recorrendo, como é seu direito.
E Mirtes segue esperando. Já disse, em outras ocasiões, que toda reportagem, toda notícia, toda audiência é uma forma de impedir que o nome do filho se apague. Há algo perturbador nessa frase: significa que o esquecimento, no Brasil, também tem endereço, cor e classe social. Algumas mortes ficam gravadas por décadas na memória coletiva. Outras só sobrevivem porque uma mãe insiste, repete, comparece, carrega uma fotografia para dentro da própria formatura.
Seria fácil — e injusto — reduzir Mirtes à tragédia. O diploma que ela recebeu não pertence só à mãe de Miguel. Pertence também à mulher que decidiu se tornar outra coisa depois que sua vida foi partida ao meio: uma advogada, uma pesquisadora, alguém que agora entende por dentro o sistema que um dia falhou com o próprio filho.
Miguel não estava na plateia daquela formatura. Mas, de algum jeito, esteve em cada página lida, em cada prova enfrentada, na escolha do tema que sua mãe decidiu defender diante de uma banca.
O curso de direito, Mirtes terminou. A história do filho ainda espera o último capítulo.

