O comércio eletrônico brasileiro enfrenta, desde a noite de 11 de setembro, uma paralisação nacional dos Correios por tempo indeterminado — e, uma semana depois, ainda não há sinal de acordo. A greve foi aprovada em assembleias realizadas em 10 de setembro pelas 36 bases sindicais filiadas à Federação Nacional dos Trabalhadores em Correios e Telégrafos (Findect), incluindo o Sindicato dos Trabalhadores em Correios e Telégrafos da Paraíba (SINTECT-PB) e o de Pernambuco (SINTECT-PE), depois que a categoria rejeitou a proposta da estatal para o Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) 2026/2027.
Plano de saúde é o centro do impasse
O principal ponto de discordância é o plano de saúde dos funcionários: os Correios pretendem alterar sua condição de mantenedora do benefício, o que a categoria classifica como risco a um “direito essencial dos trabalhadores, aposentados e suas famílias”, somado a divergências sobre o índice de reajuste salarial e medidas de corte de gastos, como o fechamento de agências. Diante do impasse, a estatal ajuizou dissídio coletivo de greve no Tribunal Superior do Trabalho (TST), com julgamento previsto para 21 de setembro — até lá, ainda é possível que as partes cheguem a um acordo antes de uma decisão judicial.
Encomendas presas, rastreio parado
Na ponta do consumidor e do pequeno vendedor, o efeito já é concreto. Reportagens levantaram relatos de pacotes que ultrapassaram o prazo informado e ficaram sem qualquer atualização de rastreamento, além de pedidos de reembolso de frete travados — em um dos casos, os próprios Correios indicaram um prazo de 5 dias úteis só para abrir a análise do problema. A estatal informou que está “realocando cargas conforme necessário” e mobilizando pessoal administrativo em forças-tarefa de entrega para tentar preservar o fluxo logístico, mas sem detalhar prazo de normalização.
Pequenos vendedores que dependem do serviço tradicional (PAC e Sedex) para entregas fora das capitais são apontados como o elo mais vulnerável da cadeia: a paralisação já provoca cancelamento de pedidos e força a migração para transportadoras privadas, com frete mais caro. Um exemplo citado por reportagens é o de uma vendedora de bonecas de coleção que relatou duas caixas com itens do exterior paradas desde o início do mês, somando cerca de oito pedidos de clientes represados — para produtos já dentro do país ela consegue orientar o comprador a usar outra transportadora, mas para itens que chegam de fora, os Correios continuam sendo a única opção disponível.
Logística reversa e outros serviços também travam
Além das vendas novas, a greve afeta a logística reversa — trocas e devoluções de mercadoria ficam represadas — e atinge ainda o envio de cartões bancários, faturas e notificações oficiais, um problema mais sério em municípios menores da Paraíba e de Pernambuco que não contam com alternativas privadas de entrega consolidadas. Na Paraíba, o presidente do SINTECT-PB, Tony Sérgio, confirma que, durante a paralisação, “apenas os serviços administrativos internos estão funcionando” nas unidades do estado.
Rombo financeiro da estatal agrava o cenário
A greve chega em um momento delicado para os Correios: a empresa recentemente solicitou aval do Tesouro Nacional para a contratação de R$ 7 bilhões em novos empréstimos com bancos privados, como parte de uma reestruturação financeira, somando-se aos R$ 12 bilhões já tomados em dezembro de 2025. Reportagens do setor já apontam que a paralisação amplia o rombo financeiro da estatal, na medida em que o volume de encomendas de e-commerce — um dos poucos segmentos de receita crescente da empresa nos últimos anos — migra para concorrentes privados durante a paralisação, um deslocamento que pode não ser totalmente revertido quando a greve terminar.
O que muda para o lojista da Paraíba e de Pernambuco
Para o pequeno comerciante que vende por marketplace ou loja própria na região, a recomendação prática que já circula entre consultorias de logística é dupla: sinalizar prazos de entrega mais longos nas páginas de produto durante a paralisação e diversificar a operação entre pelo menos uma transportadora privada, mesmo que o custo de frete suba no curto prazo — plataformas de frete chegaram a ampliar em até 3 dias úteis o prazo estimado dos Correios em suas calculadoras e a oferecer descontos de até 80% em transportadoras alternativas para tentar absorver parte da demanda represada. Vendedores que dependem de importação de insumos ou de produtos de fora do país, como no exemplo da loja de colecionáveis, seguem sem alternativa equivalente enquanto a paralisação durar.
Perspectivas
Com o julgamento do dissídio no TST marcado para 21 de setembro, os próximos dias devem definir se a categoria retoma o trabalho por decisão judicial ou se as partes avançam para um acordo direto antes disso. Até lá, o cenário mais provável para o comércio eletrônico na Paraíba e em Pernambuco é de custos operacionais mais altos, prazos de entrega alongados e, para quem depende de encomendas internacionais, insumos represados sem previsão — um risco real para o fim de mês de lojistas menores, justamente no período em que o setor já se prepara para o pico de vendas de fim de ano.
Fontes: Findect (comunicado sobre aprovação da greve); Melhor Envio (impacto logístico e alternativas de frete); O Tempo e Estado de Minas (relatos de consumidores e lojistas); Transporte Moderno (dissídio no TST); Band/TVBV (rombo financeiro dos Correios).

