Entre a noite de quarta-feira (16) e a sexta-feira (18) de setembro, a Sala Vladimir Carvalho, dentro da Usina Cultural Energisa, no bairro de Tambiá, em João Pessoa, recebeu a terceira edição do Festival KantoKa – Cantos Diversos, Vozes Feministas. Ao longo de três noites, 13 pocket shows levaram ao palco estudantes da escola de canto KantoKa, em apresentações que reuniram alunos de diferentes idades, profissões e histórias de vida, todos acompanhados pela banda ao vivo do coletivo.
Uma escola criada para “tirar a voz do armário”
A KantoKa foi fundada pela cantora e professora Maria Kamila em parceria com a fonoaudióloga Isis Queiroga, com a proposta de descomplicar o aprendizado vocal e torná-lo mais acessível, acolhedor e livre de intimidações — uma resposta direta a métodos tradicionais de ensino de canto, muitas vezes vistos como excludentes por quem nunca teve contato formal com música. A escola oferece aulas, cursos, saraus, festivais e workshops voltados a pessoas que duvidam da própria voz ou se sentem desconfortáveis diante de abordagens convencionais de ensino vocal.
O tema escolhido para 2026, “Cantos Diversos, Vozes Feministas”, resume a filosofia do coletivo: segundo os organizadores, a proposta é trabalhar, por meio da música, questões relacionadas a diversidade, igualdade, liberdade de expressão e protagonismo feminino. A ideia, descrita pelas fundadoras como “tirar a voz do armário”, coloca em cena estudantes que decidiram ocupar um palco para realizar um sonho de infância, encontrar um novo hobby ou simplesmente se reconhecer cantando diante de público.
Três noites, treze histórias
A programação foi dividida por noite. Na quarta-feira (16), se apresentaram Arthur Marques, Jailton Filho, Camila Formiga e Talita Batista. Na quinta (17), o palco recebeu Flaviana Dantas, Andrezza Quirino, Laerte e Victor Hugo. O festival se encerrou na sexta-feira (18) com Evelynne Pontes, Silomar, Izabella Aranha, Aline Formiga e Lucas Bittencourt, também acompanhados pela KantoKa Band. Os shows começavam às 19h, com ingressos vendidos por lotes crescentes pela plataforma Sympla — o valor subiu de R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia) no primeiro lote para R$ 40 e R$ 20 no último, com venda também de combo para as três noites.
Um jornalista estreando como cantor
Um dos destaques da noite de encerramento foi a estreia como cantor do jornalista e apresentador Mateus Silomar, com o pocket show “Amor de Verão”, misturando MPB e música brasileira contemporânea com elementos latinos. Silomar, que atua profissionalmente com comunicação, descreveu a participação no festival como a realização de uma paixão antiga. “É uma honra participar do Festival KantoKa. Desde pequeno sempre gostei de cantar e costumava me apresentar na escola”, afirmou o jornalista em entrevista ao portal WSCOM, à véspera de sua estreia. O caso ilustra um dos objetivos declarados da escola: dar espaço a quem carrega o desejo de cantar há anos, mas nunca teve uma oportunidade formal de subir a um palco.
A Usina Cultural Energisa como palco de formação
O festival aconteceu dentro de uma programação mais ampla da Usina Cultural Energisa, que na mesma semana também recebeu o lançamento do livro de crônicas “Dito e Feito – Crônicas Possíveis”, do escritor e desembargador Adhailton Lacet Porto, e a Arirang Party, evento voltado à cultura pop coreana. A concentração de atividades de literatura, música e cultura pop na mesma semana reforça o papel do espaço, mantido pelo Instituto Energisa em área de preservação histórico-cultural de João Pessoa, como um dos principais equipamentos culturais da capital paraibana.
Criada em 2003, a Usina Cultural Energisa já sediou mais de cinco mil iniciativas culturais ao longo de mais de duas décadas de funcionamento, incluindo o Festival de Cinema dos Países de Língua Portuguesa (Cineport) e o Prêmio Energisa de Artes Visuais. O espaço reúne galerias de arte, a Tenda da Música, a Sala Vladimir Carvalho — dedicada a artes visuais, música, literatura, teatro e audiovisual —, além de biblioteca, café, loja e um espaço temático sobre a história da energia elétrica. Ao ceder a Sala Vladimir Carvalho para um festival voltado à formação musical de estudantes amadores, a Usina reafirma uma função que vai além da exibição de obras prontas: a de incubadora de novos artistas locais.
Impacto para a cena musical local
Iniciativas como o Festival KantoKa cumprem um papel duplo na cadeia cultural de João Pessoa. De um lado, oferecem palco remunerado — por meio da venda de ingressos — a estudantes que, em geral, não têm acesso a circuitos profissionais de apresentação. De outro, movimentam a economia criativa local ao gerar renda para a própria escola, para músicos da banda de apoio e para o espaço cultural que sedia o evento, em um modelo de bilheteria por lotes que já é comum em festivais de médio porte na cidade. Para o público, o festival funciona como vitrine de talentos ainda pouco conhecidos fora dos circuitos de ensino musical, mas que, casos como o de Silomar mostram, podem se tornar novos nomes da cena local.
Perspectivas
Com a terceira edição concluída, o Festival KantoKa consolida um formato que combina formação musical, discussão sobre representatividade feminina na música e uso de um equipamento cultural histórico da cidade. A expectativa, com base no crescimento das edições anteriores, é de que o coletivo amplie o número de pocket shows e mantenha a parceria com a Usina Cultural Energisa nos próximos anos, ampliando o alcance de uma proposta que nasceu como escola de canto e se transformou também em plataforma de estreia para novos artistas da capital paraibana.
O saldo da edição de 2026 reforça um ponto que costuma passar despercebido no noticiário cultural: parte relevante da vitalidade da cena musical de uma cidade não vem apenas de grandes shows e festivais consagrados, mas de escolas, coletivos e espaços de formação que dão o primeiro palco a quem nunca havia cantado diante de um público pagante. É esse tipo de investimento, silencioso e recorrente, que sustenta a cadeia de talentos que eventualmente chega aos palcos maiores da Paraíba.

