O Supremo Tribunal Federal viveu nesta terça-feira (15) uma sessão inédita em seus 135 anos de história: pela primeira vez, o plenário da Corte deliberou sobre a possibilidade de abrir uma investigação contra um de seus próprios integrantes em exercício, o ministro Alexandre de Moraes. O julgamento, no entanto, terminou sem desfecho, em meio a embates públicos entre ministros, e foi adiado para o dia 23 de setembro.
O pano de fundo: o maior escândalo bancário da história do país
A sessão é um desdobramento direto do chamado Escândalo do Banco Master, considerado o maior caso de fraude bancária já registrado no Brasil. A instituição, cujo principal acionista era o empresário Daniel Vorcaro, foi alvo de liquidação extrajudicial pelo Banco Central em novembro de 2025, após a deflagração da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal. O rombo estimado ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) chega a R$ 41 bilhões, o maior já registrado na história do fundo. Vorcaro está preso desde março no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, e é investigado por gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa. Em setembro, uma nova fase de apuração da Polícia Federal resultou no bloqueio judicial de R$ 5,7 bilhões em bens ligados a ele.
Foi nesse contexto que veio à tona um relatório da Polícia Federal apontando indícios de relação próxima entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, incluindo troca de mensagens nas quais o banqueiro teria pedido ajuda ao magistrado. O mesmo inquérito também colocou sob suspeita a conduta do ministro André Mendonça em processos ligados ao Master e ao INSS, cujo julgamento em separado ficou marcado para 23 de setembro.
Uma sessão sob forte esquema de segurança
A sessão extraordinária começou às 10h desta terça-feira, sob a presidência do ministro Edson Fachin. A Corte adotou um esquema de segurança incomum: o trânsito foi interditado na Esplanada dos Ministérios, o acesso ao plenário foi restrito a pessoas previamente credenciadas, o uso de celulares foi proibido dentro da sala de sessões, e o público passou por detectores de metais e equipamentos de raio-X.
Impasse de 4 a 3 e um julgamento sem fim à vista
O ponto central do dia não foi ainda o mérito da investigação contra Moraes, mas uma questão processual: se os casos envolvendo Moraes e Mendonça deveriam ser julgados em conjunto, proposta apresentada pelo ministro Gilmar Mendes. A votação terminou em 4 a 3 contra a reunião dos processos. Votaram pela junção Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin; votaram pela separação Edson Fachin, Luiz Fux, André Mendonça e Cármen Lúcia. O ministro Flávio Dino também se posicionou a favor de reunir os processos, mas, insatisfeito com a condução da sessão, pediu vista antes da proclamação do resultado — seu voto, por isso, não entrou no placar final. Kassio Nunes Marques se declarou impedido de participar, e Dias Toffoli alegou suspeição.
Na prática, isso significa que a Corte ainda não decidiu se vai, de fato, autorizar a abertura de um inquérito contra Moraes. A decisão sobre o mérito ficou para a próxima sessão, marcada para 23 de setembro — data que também deve concentrar a análise do caso envolvendo Mendonça.
Bate-boca público entre ministros
A sessão foi marcada por trocas de farpas incomuns em plenário. Moraes classificou a investigação aberta contra ele como “fraudulenta” e chamou a condução do processo envolvendo Mendonça de “mafiosa”. Mendonça rebateu, classificando a fala do colega Gilmar Mendes de “leviana”. O tom do embate levou colunistas e parlamentares a descreverem o dia como um marco negativo para a imagem institucional da Corte.
Repercussão imediata na campanha presidencial
Como a sessão ocorreu em plena campanha eleitoral — o país elege presidente em outubro —, candidatos ao Planalto reagiram ainda durante o julgamento. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), afirmou que “a sessão no STF expôs o limite do insustentável, e não podemos nos calar diante do que vimos hoje”, acrescentando que “o bate-boca entre ministros e o espetáculo degradante constrangem o país” e que “o Brasil precisa e vai voltar a ter ordem”. Flávio Bolsonaro (PL) usou o momento para dizer que o país está “sem comando”, atribuindo a crise à divisão de poder entre o presidente Lula e Moraes e classificando o governo atual como parte de um “sistema que está apodrecido”. Já Lula (PT), que disputa a reeleição, defendeu investigações rigorosas dentro do próprio Supremo, sugeriu que Mendonça promove “vazamentos seletivos de informação” e voltou a defender uma “reforma profunda” do Judiciário. O candidato Renan Santos (Missão) reagiu de forma inusitada, chamando o desfecho de “pizza horrorosa” e afirmando que “isso aqui virou um não país”, chegando a transmitir ao vivo em suas redes um jantar com pizza enquanto comentava o caso.
No Senado, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) realizou, no mesmo dia, audiência pública para debater os desdobramentos institucionais da crise. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) resumiu o momento como “um quadro de omissão reiterada e convivência de autoridades, que deixaram de cumprir suas responsabilidades ao longo do tempo”. Já a presidente da comissão, senadora Damares Alves (Republicanos-DF), disse que o colegiado vai “monitorar não só aspectos de interferência no Legislativo, de eventual corrupção”, acrescentando que, “se um inquérito for aberto, a Comissão vai requerer que toda e qualquer violação de direitos humanos” seja apurada.
Por que isso importa
O episódio expõe, de forma pública e em tempo real, uma crise institucional que já vinha se desenhando havia meses: a suspeita de que figuras ligadas ao Judiciário, ao Banco Central e a autoridades políticas possam ter sido cooptadas ou influenciadas no contexto do colapso do Banco Master. Para o funcionamento do próprio STF, o precedente é inédito — nunca antes a Corte havia sequer cogitado formalmente investigar um ministro em exercício por supostas relações com um investigado. Para a política nacional, a crise se soma a um calendário eleitoral já tenso, alimentando o discurso de candidatos de oposição sobre a necessidade de reformas no Judiciário e dando munição também a discursos sobre seletividade nas investigações.
Do ponto de vista econômico e regulatório, o caso também reacende o debate sobre a fiscalização do sistema financeiro: um rombo de R$ 41 bilhões no FGC — fundo mantido pelos próprios bancos para proteger depositantes — é o maior já registrado e levanta questões sobre como uma fraude dessa magnitude avançou por tanto tempo sem ser detectada pelos órgãos de supervisão.
O que vem a seguir
A próxima sessão, marcada para 23 de setembro, deve retomar o julgamento sobre a abertura formal de investigação contra Moraes e definir também o destino do processo envolvendo Mendonça. Até lá, a expectativa é de que o desgaste entre os ministros continue repercutindo tanto no Congresso — onde parlamentares temem novos vazamentos ligados à investigação do Banco Master — quanto na campanha presidencial, que já incorporou a crise do Supremo como tema de disputa entre os candidatos. Prisão de Vorcaro, bloqueios bilionários de bens e agora a possibilidade inédita de um ministro do STF ser formalmente investigado por colegas mostram que o desfecho do caso Master está longe de se esgotar — e deve seguir pautando tanto os tribunais quanto as urnas nas próximas semanas.
Fontes: TV Senado e Rádio Senado (15/09/2026);

