Brasil e Estados Unidos retomaram, em 31 de agosto de 2026, as negociações sobre o tarifaço imposto pelo governo americano às exportações brasileiras, após uma ligação telefônica entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo o noticiário sobre o encontro, Trump orientou sua equipe a buscar um acordo com o Brasil, mas o diálogo retomado ainda não produziu avanços concretos. Uma nova rodada de negociação presencial já está marcada para os dias 30 de setembro e 1º de outubro, durante a reunião dos ministros da Indústria e Comércio do G20, em Milwaukee, nos Estados Unidos. Pelo lado brasileiro, devem participar o chanceler Mauro Vieira e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa.
Como chegamos até aqui
O tarifaço contra o Brasil foi imposto em duas etapas ao longo de 2026: uma sobretaxa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros em julho, seguida, dias depois, por uma segunda tarifa de 12,5%. Nos produtos atingidos pelas duas medidas simultaneamente, a sobretaxa acumulada chega a 37,5% sobre o valor da mercadoria. Diante da pressão de setores exportadores e de parte do empresariado americano importador, o governo dos Estados Unidos abriu uma lista de exceções que retirou do tarifaço setores como carne, café, petróleo, terras raras e peças aeronáuticas — mas deixou de fora uma parcela relevante da pauta exportadora brasileira, incluindo calçados e têxteis.
Sem esboço de acordo, mas com data marcada
Apesar da retomada do diálogo, ainda não existe um esboço de acordo formal entre os dois países, e fontes ligadas à negociação reconhecem a dificuldade das tratativas. O objetivo declarado do lado brasileiro na reunião de Milwaukee é ampliar a lista de produtos poupados das tarifas adicionais, reduzindo o impacto sobre exportadores que seguem sujeitos à sobretaxa. Até lá, empresas exportadoras vivem um período de incerteza sobre se — e quando — poderão contar com alívio tarifário.
Campina Grande, na Paraíba, entre os mais expostos
Entre os setores que seguem sem proteção está o calçadista, com impacto direto sobre a Paraíba. Os Estados Unidos responderam por US$ 35,6 milhões das exportações paraibanas em 2024, equivalentes a 21,6% de todas as vendas externas do estado — e calçados representam cerca de 14,5% dessas exportações para o mercado americano, movimentando US$ 3,59 milhões naquele ano. O principal nome do setor é a Alpargatas, fabricante das sandálias Havaianas, com unidade industrial em Campina Grande, cidade que concentra cerca de 600 empresas do setor calçadista, responsáveis por aproximadamente 16 mil empregos diretos e indiretos.
Com o encarecimento das mercadorias brasileiras para importadores americanos em decorrência da sobretaxa, empresas do polo paraibano correm risco de perda de competitividade e de espaço no mercado dos Estados Unidos — cenário que já levou a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) a revisar para baixo sua projeção de exportações do setor em 2026, agora estimando queda média de 7,1% no total exportado pelo país, piora de 3,5 pontos percentuais em relação à previsão anterior, que projetava retração de 3,6%. Em Pernambuco, o quadro também preocupa: levantamentos setoriais apontam cerca de R$ 380 milhões em exportações do estado sob risco por causa do tarifaço.
Consequências para empresas e consumidores
Para as indústrias exportadoras da Paraíba e de Pernambuco, a sobretaxa se traduz em margem menor ou preço final mais alto para o comprador americano — o que, em ambos os casos, tende a reduzir pedidos e pressionar a atividade das fábricas locais, com risco direto sobre postos de trabalho em polos como o de Campina Grande. Para o consumidor brasileiro, o efeito é mais indireto: a incerteza sobre o comércio exterior tende a pesar sobre decisões de investimento das empresas exportadoras, o que pode se refletir, no médio prazo, em menor geração de empregos nessas cadeias produtivas regionais — uma inferência a partir do cenário setorial, não um efeito já confirmado nos dados disponíveis.
Relação com o Brasil
O tarifaço segue como um dos principais fatores de instabilidade nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos em 2026, com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) apontando que medidas como essa aumentam a insegurança no comércio internacional, reduzem a competitividade das empresas brasileiras e geram impactos negativos sobre produção, emprego e integração das cadeias produtivas — efeitos que não se limitam ao setor calçadista, atingindo também têxteis e máquinas, entre outros segmentos expostos ao mercado americano.
Perspectivas
Com a reunião de Milwaukee marcada para 30 de setembro e 1º de outubro e a orientação de Trump para que sua equipe busque um acordo, existe uma janela concreta para avanços nas próximas semanas — mas, sem esboço de acordo até o momento, é uma inferência otimista, não uma garantia, esperar que o encontro resulte em alívio imediato para setores como o calçadista. Enquanto isso, empresas de Campina Grande e de outros polos exportadores da Paraíba e de Pernambuco seguem operando sob a sobretaxa vigente.

