Entre os dias 10 e 12 de setembro de 2026, forças houthis apoiadas pelo Irã completaram uma ofensiva relâmpago que redesenhou o mapa de poder no sul do Mar Vermelho: tomaram a ilha de Mayun (também chamada de Perim), único território habitado dentro do estreito de Bab el-Mandeb, além do histórico porto de Moca e da cidade costeira de Dhubab, no Iêmen. A movimentação deu ao grupo controle físico sobre um dos pontos mais sensíveis do comércio internacional — corredor por onde passa cerca de 10% de todo o petróleo e da carga marítima mundial entre a Ásia e a Europa.
A resposta veio rápido. Autoridades sauditas confirmaram que ataques com drones — que, segundo Riad, partiram do Iraque — atingiram trechos do oleoduto Leste-Oeste, principal rota alternativa do reino para escoar petróleo sem depender do Golfo Pérsico. O ministério de Energia saudita determinou o fechamento preventivo do duto na sexta-feira (11/09), e imagens de satélite mostraram uma coluna de fumaça de cerca de 100 quilômetros de extensão ao longo do trajeto. Um comandante militar iraquiano foi afastado do cargo após o episódio, em meio a investigações sobre a origem dos ataques.
Dois estrangulamentos ao mesmo tempo
O agravante é que Bab el-Mandeb não é o único gargalo do petróleo mundial sob pressão neste momento. Desde o fim de fevereiro de 2026, o Estreito de Hormuz — por onde historicamente passava cerca de um quinto de todo o petróleo e GNL do planeta — opera a apenas 7% do seu volume normal de trânsito, em meio a ataques recíprocos entre Estados Unidos e Irã contra petroleiros na região. Na quinta-feira anterior à tomada de Mayun, apenas sete navios cruzaram Hormuz, ante uma média histórica de mais de 100. Dois navios foram atingidos por projéteis não identificados perto de Khasab, em Omã, no mesmo período.
Com Hormuz praticamente paralisado e Bab el-Mandeb agora sob controle houthi, a Arábia Saudita — maior exportadora de petróleo do mundo — ficou espremida entre dois pontos de estrangulamento simultâneos, justamente quando sua produção já havia caído ao menor nível desde 1990. O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman chegou a telefonar duas vezes ao presidente americano Donald Trump em um único dia pedindo ataques diretos contra posições houthis; Trump recusou o pedido, mas Washington vem prestando apoio logístico e de inteligência às forças sauditas.
Um conflito antigo, agora em novo patamar
A guerra entre o governo iemenita, reconhecido internacionalmente e apoiado por Riad, e os houthis se arrasta desde 2014, quando o grupo tomou a capital, Sanaa. Nos últimos anos, o conflito alternou períodos de trégua frágil com escaladas pontuais, mas a ofensiva de setembro de 2026 é descrita por analistas de segurança como um salto qualitativo: pela primeira vez, os houthis passam a deter uma base física permanente dentro do próprio estreito, e não apenas capacidade de lançar mísseis e drones contra embarcações a partir da costa continental.
“Os houthis estão atacando os dois pilares da segurança saudita simultaneamente: o território saudita ao sul e a profundidade estratégica do reino no Mar Vermelho”, avaliou o analista de segurança Andreas Krieg, para quem o risco de aprofundamento do conflito “aumentou substancialmente”. Segundo dados citados por veículos internacionais, ao menos 46 mil pessoas foram deslocadas desde a escalada dos combates nas últimas semanas, e o grupo afirma ter abatido nove aeronaves e capturado, ferido ou matado centenas de soldados adversários — números que não foram confirmados de forma independente.
O que o mercado está dizendo
O impacto nos preços do petróleo foi imediato. O barril do tipo Brent, referência internacional, chegou a operar perto de US$ 108 e teve picos intradiários acima de US$ 109 na semana da tomada de Mayun — patamar mais alto desde o pico de guerra de abril de 2026, quando o barril bateu US$ 126,41. No acumulado do ano, a alta já passa de 70%. O WTI, referência americana, fechou a sexta-feira (11/09) em torno de US$ 100.
“A questão central para os mercados de petróleo não é mais se o Brent pode romper os US$ 100 — ele já rompeu”, resumiu Priyanka Sachdeva, analista da Phillip Nova, apontando que a dúvida agora é se os preços se estabilizam abaixo de US$ 120 ou se novas disrupções de oferta empurram o barril para “um regime de preços completamente novo”. Soojin Kim, do banco japonês MUFG, apontou o efeito cumulativo do avanço houthi perto de Bab el-Mandeb somado aos ataques contínuos entre EUA e Irã contra petroleiros no Golfo. Já Ryan McKay, estrategista sênior de commodities do TD Securities, recomendou cautela com qualquer sinalização de acordo diplomático, avaliando que “é pouco provável que o Irã abra mão de suas exigências anteriores”. Analistas do RBC Capital Markets, entre eles Helima Croft, alertaram que uma guerra plena entre sauditas e houthis seria “um catalisador em potencial” para o cenário de preços mais altos do banco.
Consequências para a economia global
A Agência Internacional de Energia (AIE) já reviu para baixo sua projeção de demanda mundial de petróleo para 2026, citando o encarecimento dos combustíveis e a redução da oferta como fatores que estão “forçando um consumo menor” — a instituição fala na maior contração da demanda global desde a pandemia de Covid-19. Na prática, isso significa pressão inflacionária adicional sobre o transporte marítimo, o frete internacional e os preços de combustíveis em cadeias produtivas que dependem do trânsito por Suez, Bab el-Mandeb e Hormuz — rota usada, entre outros, por exportações de grãos, fertilizantes e produtos manufaturados entre Ásia, Europa, Oriente Médio e África.
Para o consumidor final ao redor do mundo, o efeito mais direto tende a aparecer no preço dos combustíveis e, por tabela, em qualquer produto cujo custo de transporte pese na formação de preço — de eletrônicos a alimentos importados. Para países como o Brasil, que não está na rota direta do conflito, o canal de transmissão é o de sempre em choques de petróleo: preços internacionais mais altos pressionam a paridade de importação de derivados e podem se refletir, com defasagem, no preço interno de combustíveis e no custo de insumos importados por indústrias que dependem do transporte marítimo internacional — é uma leitura de contexto a partir dos mecanismos já conhecidos do mercado de petróleo, não um efeito já mensurado especificamente para a economia brasileira nas fontes consultadas.
O que ainda não está claro
Não há, até o fechamento desta reportagem, confirmação independente sobre o número exato de baixas nos combates em torno de Moca e Dhubab, nem uma data para retomada de negociações entre Riad e o movimento houthi. Também não está definido se os Estados Unidos vão ceder ao pedido saudita por ataques diretos contra posições houthis, o que marcaria uma escalada ainda maior do envolvimento americano na região — que já mantém confronto aberto com o Irã desde fevereiro de 2026. Enquanto isso, o mercado de petróleo segue precificando o risco de que os dois principais estrangulamentos marítimos do mundo continuem operando abaixo da capacidade normal por tempo indeterminado.
Fontes: NPR, “Yemen’s Houthis capture a Red Sea island” (12/09/2026); NBC News, “Iran-backed Houthis capture Yemen’s Red Sea coastline on Bab-el-Mandeb Strait” (setembro/2026); NBC News, “Saudi Arabia’s shutdown of key pipeline limits oil flow as Yemen hits back against Houthis” (setembro/2026); The National, “Oil prices set to end the week above $100 as Houthis seize key port city” (11/09/2026); Energy Connects, “Brent Oil Trades Near $108 as Houthi-Saudi Fighting Escalates” (setembro/2026).

