O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto de 2026, divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira (11 de setembro), registrou deflação de 0,32%. O resultado veio abaixo da mediana das estimativas de mercado, que projetava uma queda de 0,29%, e representa o menor índice para um mês de agosto desde 2022, quando o indicador havia recuado 0,36%. Com o dado de agosto, a inflação acumulada em 12 meses caiu para 4,22%, também abaixo da projeção mediana de mercado (4,26%) e recuando frente aos 4,44% acumulados até julho.
O que puxou a deflação
O principal fator por trás do resultado foi o grupo Habitação, que caiu 1,87% e foi o maior contribuinte negativo do mês, impulsionado por uma queda de 7,63% na energia elétrica residencial — efeito da incorporação do Bônus de Itaipu nas contas de luz. Na sequência, o grupo Transportes recuou 0,86%, com destaque para o alívio em passagens aéreas e combustíveis, e o grupo Alimentação e Bebidas caiu 0,34%, puxado por quedas expressivas em itens como tomate e batata-inglesa. Na direção contrária, o grupo Despesas Pessoais subiu 1,30% — o maior impacto positivo do mês —, reflexo principalmente de uma alta de 20% no preço do cigarro.
Uma prévia que já havia sinalizado o movimento
O resultado do IPCA cheio confirmou a tendência antecipada pelo IPCA-15, prévia da inflação divulgada em 26 de agosto, que já havia apontado deflação de 0,40% no mês, também puxada por quedas em energia elétrica (-6,25%), passagens aéreas (-13,30%) e alimentos como tomate (-27,38%) e batata-inglesa (-25,14%). A convergência entre os dois indicadores reforça a leitura de que a desaceleração de preços em agosto foi ampla, e não um efeito pontual de um único item.
O que isso significa para a Selic
O resultado chega dias antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para 15 e 16 de setembro, que decidirá o novo patamar da Selic — hoje em 14% ao ano. Leonardo Costa, economista da gestora ASA, afirmou que “o IPCA de agosto reforça a expectativa de um corte de 25 pontos-base na Selic na reunião do Copom da semana que vem”, destacando a composição favorável do índice, com moderação na inflação de serviços e normalização de preços de industrializados após os choques recentes do petróleo. André Valério, economista sênior do Inter, também trabalha com uma sequência de cortes de 0,25 ponto e projeta a Selic fechando 2026 em 13,25%. Ainda assim, o Banco Central segue cauteloso: sua própria projeção de IPCA para o fim de 2026 gira em torno de 5%, meio ponto acima do teto da meta de 3% (tolerância de 1,5 a 4,5 pontos percentuais).
Consequências para empresas e consumidores
Para o consumidor, a deflação de agosto representa alívio imediato no bolso, especialmente em itens de peso no orçamento como energia elétrica e alimentos — ainda que a inflação acumulada em 12 meses, de 4,22%, continue corroendo poder de compra frente ao ano anterior. Para as empresas, um cenário de inflação sob controle e abertura para novos cortes de juros tende a reduzir gradualmente o custo do crédito para capital de giro e investimento, embora esse efeito só se torne relevante de forma cumulativa, ao longo de vários cortes consecutivos — um corte isolado de 0,25 ponto tem impacto limitado no curto prazo sobre as taxas cobradas ao tomador final, já que bancos embutem nelas risco de inadimplência e margem operacional.
Relação com o Brasil
O resultado se soma a um cenário de atividade econômica em expansão moderada — o PIB do segundo trimestre de 2026 cresceu 0,5% frente ao trimestre anterior — e reforça a leitura de um ciclo de afrouxamento monetário gradual, mas ainda cauteloso, por parte do Banco Central, que segue de olho no câmbio, nas expectativas de inflação e no cenário fiscal antes de acelerar o ritmo de cortes.
Relação com Pernambuco e Paraíba
A queda nos preços de energia elétrica e transportes observada no índice nacional tende a se refletir, com alguma variação regional, no custo de operação de comércios e indústrias em Pernambuco e na Paraíba — do varejo em Recife e João Pessoa à indústria têxtil do Agreste pernambucano, sensível ao custo de energia e frete. Já a perspectiva de novos cortes na Selic, se confirmada nas próximas reuniões do Copom, tende a beneficiar de forma mais visível setores intensivos em crédito nas duas unidades da federação, como construção civil e agronegócio irrigado do Vale do São Francisco — efeito que se acumula ao longo dos próximos meses, e não de forma imediata após a decisão de setembro.
Perspectivas
O próximo teste importante para essa trajetória é a decisão do Copom na semana que vem. Um corte confirmado de 0,25 ponto, seguido de sinalização de continuidade do ciclo nas reuniões de novembro e dezembro, tende a consolidar a leitura de que a inflação está sob controle; qualquer surpresa altista nos próximos indicadores — inclusive vinda do mercado de petróleo, hoje pressionado pela guerra no Oriente Médio — pode reintroduzir cautela na trajetória de cortes.
Fontes
Forbes Brasil, “IPCA cai 0,32% em agosto, aponta IBGE; resultado reforça corte de 0,25 na Selic, diz especialista” (11/9/2026); Diário do Grande ABC, “IPCA registra deflação de 0,32% em agosto, afirma IBGE” (11/9/2026); Poder360, “IPCA-15 tem deflação de 0,40% em agosto de 2026” (26/8/2026); Gazeta Mercantil, “Copom decide se reduz Selic para 13,75% em setembro” (2026).

