O retrato mais recente da construção civil brasileira é de desaceleração com emprego resiliente. Com base nos dados de contas nacionais divulgados pelo IBGE no início de setembro, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) calculou que o PIB do setor recuou 0,4% no segundo trimestre de 2026 na comparação com o primeiro trimestre. No acumulado do primeiro semestre, porém, a construção ainda cresce 1,1% sobre o mesmo período de 2025 — ou seja, o setor perdeu fôlego no meio do ano, mas não entrou em terreno negativo no acumulado.
A economista-chefe da CBIC, Ieda Vasconcelos, atribuiu a acomodação a um ambiente de juros mais rígido do que o previsto no começo do ano, influenciado por tensões geopolíticas que adiaram a expectativa de queda mais rápida da taxa básica. A Selic segue em dois dígitos desde o início de 2022, e o custo do crédito continua entre as principais queixas dos empresários do setor, ao lado de custos de obra acima da inflação e da falta de mão de obra qualificada. Ainda assim, a entidade manteve a projeção de crescimento de 1,2% para 2026 — abaixo dos cerca de 2% imaginados no fim de 2025, mas ainda o terceiro ano seguido de expansão.
Emprego cresce mesmo com atividade fraca
O dado que mais chama atenção é o do mercado de trabalho. Segundo o Novo Caged, o saldo de empregos formais na construção subiu 6,52% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano passado, levando o setor a 3,119 milhões de trabalhadores com carteira assinada em junho. Mais revelador para entender o momento: a infraestrutura (estradas, saneamento, energia, mobilidade) gerou cerca de 65 mil novos postos no período e superou o segmento de edificações pela primeira vez na série histórica do Novo Caged. Em 2025, o setor havia fechado o ano com cerca de 2,9 milhões de empregados formais, alta de 3,08%, e um consumo de cimento de 66,9 milhões de toneladas (+3,68%).
A leitura prática é clara: a construção que está contratando hoje no Brasil não é a dos lançamentos imobiliários privados de alto padrão — travados pelo juro alto —, e sim a das obras públicas de infraestrutura e da habitação popular, puxada pelo orçamento recorde do FGTS e pelos novos contratos do Minha Casa, Minha Vida.
Pernambuco: infraestrutura e a refinaria puxam a fila
Em Pernambuco, esse padrão aparece com nitidez. Levantamento noticiado pelo Movimento Econômico em junho aponta que a construção civil pernambucana gerou cerca de 9 mil vagas formais entre janeiro e abril de 2026. O componente de infraestrutura registrou alta de aproximadamente 35% no emprego, concentrada em Ipojuca, por conta dos investimentos ligados à Refinaria Abreu e Lima e ao complexo de Suape. O mercado de seguro-garantia de obras no estado arrecadou R$ 39,7 milhões no primeiro trimestre, crescimento de 7,4% — um indicador indireto de que há carteira de contratos em execução.
Na capital, o Governo de Pernambuco informou, em vistoria em 14 de agosto de 2026, um pacote de mais de R$ 30,6 milhões em obras de habitação, mobilidade e lazer na Zona Oeste do Recife, no bairro da Iputinga. Os dois carros-chefe são o Residencial Mulheres de Tejucupapo, com 272 unidades habitacionais de 45 m² na fase final de entrega, e a Estação Elevada Bom Pastor do BRT, na Avenida Caxangá, acompanhada de um parque urbano.
Paraíba: carteira de R$ 5,3 bilhões em andamento
Na Paraíba, o vetor também é o investimento público. O programa Paraíba 2025-2026, lançado em janeiro de 2025 pelo governador João Azevêdo, prevê R$ 11,5 bilhões em investimentos (R$ 9,3 bilhões do tesouro estadual e R$ 2,11 bilhões em contrapartida federal), com 640 obras em execução que somam R$ 5,3 bilhões e a meta de 10 mil novas unidades habitacionais pelas modalidades FGTS e FAR do Minha Casa, Minha Vida e pelo Pró-Moradia. Entre os eixos estão duplicações e restauração de rodovias, segurança hídrica (canal Acauã-Araçagi), saneamento, a ampliação do Porto de Cabedelo e o sistema BRS em João Pessoa.
Em outra frente, o presidente do Sinduscon-PB, Lamartine Alves, passou a integrar a diretoria nacional da CBIC para o triênio 2026/2029, o que dá ao setor paraibano assento nas discussões nacionais de política habitacional e tributária.
O que isso significa para os negócios da região
Para quem vende material de construção, aluga equipamento ou presta serviço de mão de obra em Pernambuco e na Paraíba, o cenário de curto prazo é de demanda relativamente garantida, porém concentrada. Garantida porque a carteira de obras públicas já está contratada e as construtoras precisam entregar; concentrada porque essa demanda se dirige a itens específicos — agregados, blocos, cimento, aço, formas — e a regiões definidas, como o entorno de Suape em Pernambuco e os canteiros de rodovia e habitação no Sertão e no Litoral paraibano.
O risco que merece acompanhamento é a dependência de repasse orçamentário: obra pública travada por falta de liberação de recursos já derrubou emprego no setor em ciclos anteriores. Do lado positivo, a combinação de Selic em queda gradual, orçamento do FGTS para habitação e novo modelo de financiamento imobiliário tende a destravar também o segmento privado ao longo de 2026 e 2027 — o que ampliaria a base de clientes de fornecedores hoje muito expostos a um único tipo de contratante.
Fontes
- CBIC — PIB da Construção recua 0,4% no segundo trimestre, mas cresce 1,1% no semestre (cbic.org.br)
- CBIC — Construção civil projeta 2026 mais positivo que 2025, impulsionado por crédito e investimentos (cbic.org.br)

