Por Jairo Alves
A política costuma cobrar a conta de decisões que afetam diretamente o cotidiano da população. Em João Pessoa, a implantação da Zona Azul durante a gestão de Cícero Lucena, então prefeito da capital e posteriormente candidato ao Governo da Paraíba, tornou-se um dos exemplos de como uma medida administrativa pode ultrapassar os limites da gestão e ganhar peso no debate eleitoral.
Anunciado em agosto de 2025, o sistema de estacionamento rotativo chegou com a promessa de organizar o uso das vagas, estimular a rotatividade e facilitar o acesso ao Centro. A tarifa estabelecida foi de R$ 3 por hora para carros e R$ 1,50 para motocicletas. Na prática, porém, o modelo passou a enfrentar críticas de motoristas, usuários e representantes do comércio.
Quando a organização vira insatisfação
O problema não estava apenas em pagar pelo estacionamento. Para quem precisa resolver questões bancárias, fazer compras, trabalhar ou acessar serviços no Centro, a cobrança passou a representar mais uma despesa na rotina. As regras de permanência, a necessidade de movimentar o veículo e as dificuldades com os equipamentos e o aplicativo também apareceram entre as reclamações registradas pela imprensa paraibana.
A insatisfação alcançou o comércio. Em outubro de 2025, a Câmara de Dirigentes Lojistas da capital defendeu a revisão dos valores, diante da preocupação de que a cobrança pudesse reduzir a circulação de consumidores na região central. A discussão expôs um dilema da administração pública: como organizar o espaço urbano sem impor custos considerados excessivos por parte de quem depende dele diariamente?
A gestão municipal promoveu mudanças nas regras, incluindo a ampliação do tempo máximo de permanência em determinadas etapas da operação e a suspensão temporária de cobranças adicionais. Ainda assim, as críticas ao custo, à rotatividade e ao funcionamento do sistema continuaram aparecendo no debate público.
A Zona Azul chegou à campanha
Durante a disputa pelo Governo da Paraíba, a Zona Azul deixou de ser apenas um assunto de mobilidade urbana. No debate da TV Arapuan realizado em agosto de 2026, Lucas Ribeiro criticou o modelo implantado na capital e questionou o contrato de concessão, usando o tema para confrontar a experiência administrativa de Cícero Lucena.
A estratégia colocou o ex-prefeito diante de uma dificuldade política: defender uma decisão de gestão que tinha objetivos declarados de organização urbana, mas que também havia provocado reclamações entre setores da população. Em uma eleição estadual, o episódio oferecia aos adversários um exemplo concreto para discutir o custo das políticas públicas e a relação entre o poder público e o cidadão.
É nesse ponto que a Zona Azul ganha dimensão eleitoral. Medidas que afetam o bolso, a mobilidade e os hábitos cotidianos podem permanecer na memória dos eleitores e influenciar a avaliação que fazem de um gestor. Não significa que toda pessoa insatisfeita com a cobrança tenha deixado de apoiar Cícero, mas a repercussão do tema criou uma vulnerabilidade que pôde ser explorada durante a campanha.
Da Prefeitura à Zona Vermelha eleitoral
O resultado das urnas trouxe uma derrota expressiva para o projeto de Cícero Lucena de chegar ao Governo da Paraíba. No primeiro turno de 4 de outubro de 2026, ele terminou em terceiro lugar, com 252.884 votos, equivalentes a 11,06% dos votos válidos. Lucas Ribeiro foi eleito com 64,30%, enquanto Efraim Filho ficou em segundo, com 24,18%.
Seria precipitado, contudo, atribuir o resultado à Zona Azul. A disputa estadual envolveu alianças políticas, avaliações sobre a gestão municipal, propostas para o estado, estrutura de campanha e outros fatores. Os dados eleitorais, por si só, não permitem medir quanto cada tema pesou na decisão dos eleitores.
Mas a imagem política construída em torno da cobrança de estacionamento ajuda a formular uma hipótese: a Zona Azul pode ter contribuído para desgastar a percepção de Cícero entre parte do eleitorado, especialmente entre aqueles que vivenciaram diretamente os custos e as dificuldades do sistema. A medida também foi transformada em argumento público por um adversário durante a campanha, o que comprova sua presença no debate eleitoral, embora não determine seu impacto sobre os votos.
A expressão “Zona Vermelha”, portanto, funciona aqui como metáfora política para o resultado desfavorável, não como conclusão comprovada de que a Zona Azul causou a derrota.
A lição que fica
Governar exige tomar decisões que nem sempre agradam a todos. Sistemas de estacionamento rotativo podem ter justificativas legítimas, como ampliar a disponibilidade de vagas e evitar que veículos ocupem o mesmo espaço durante todo o expediente. O desafio está em encontrar um modelo que concilie esses objetivos com a capacidade de pagamento, as necessidades dos trabalhadores, os direitos dos usuários e a realidade do comércio local.
A experiência de João Pessoa deixa uma reflexão para gestores de qualquer município: uma política pública não deve ser avaliada apenas pela intenção anunciada, mas também pela maneira como chega à vida das pessoas, pela qualidade de sua execução e pela disposição da administração para ouvir críticas e corrigir problemas.
Na política, decisões administrativas não terminam quando a medida entra em vigor. Elas continuam sendo avaliadas nas conversas, nas ruas, nos estabelecimentos comerciais e, eventualmente, nas urnas. A Zona Azul pode não explicar sozinha a derrota de Cícero Lucena, mas tornou-se um dos capítulos mais visíveis do debate sobre sua passagem pela Prefeitura e sobre a imagem que levou à disputa estadual.
Por @jairoalves.87
Jairo Alves
É Editor do Seliga Litoral, formado em Jornalismo pela UFPB e mestrando em Jornalismo pelo PPJ da mesma Universidade.

