Mesmo com a força histórica do petismo na região, eleições de 2026 mostram que o apoio do presidente não é indispensável para vencer disputas estaduais. Ao mesmo tempo, aliados de Lula conquistaram governos e mantiveram a presença do campo governista no Nordeste.
O Nordeste continua sendo o principal reduto eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas as eleições estaduais de 2026 deixaram um recado importante para a política regional: é possível vencer sem transformar o presidente em cabo eleitoral. As vitórias de Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco, Eduardo Braide (PSD), no Maranhão, e JHC (PSDB), em Alagoas, mostram que a força de uma candidatura também pode ser construída a partir de fatores locais, da avaliação administrativa e da capacidade de articulação política.
Os três chegaram à vitória sem o apoio de Lula na disputa. Raquel Lyra foi reeleita em Pernambuco após uma campanha na qual evitou declarar voto para presidente, mesmo mantendo interlocução institucional com o governo federal. Eduardo Braide adotou uma postura de neutralidade em relação à disputa nacional durante a campanha no Maranhão. JHC, por sua vez, venceu em Alagoas sem fazer da eleição presidencial o eixo central de sua candidatura.
Em Pernambuco, Raquel enfrentou João Campos (PSB), candidato que vinculou sua campanha ao presidente e recebeu Lula no estado durante a reta final da disputa. Ainda assim, a governadora foi reeleita no primeiro turno, com 53,27% dos votos válidos. O resultado evidenciou que a associação direta com o presidente não garante, por si só, a vitória de um candidato ao governo estadual — assim como a ausência de um alinhamento presidencial explícito não impede o sucesso nas urnas.
No Maranhão, Eduardo Braide também conquistou o governo estadual sem apresentar a disputa como uma extensão da eleição presidencial. Já em Alagoas, JHC derrotou Renan Filho (MDB), aliado de Lula, e assumiu o comando do estado. Os dois resultados reforçam uma característica importante do federalismo eleitoral brasileiro: as disputas estaduais possuem dinâmicas próprias e nem sempre reproduzem a polarização nacional entre PT e PL.
A força do petismo continua presente
As vitórias desses três nomes, porém, não significam que Lula tenha perdido sua força no Nordeste. Os números presidenciais do primeiro turno mostram justamente o contrário. O presidente recebeu 21,49 milhões de votos na região, o equivalente a 63,77% dos votos válidos nordestinos, e venceu nos nove estados. É um resultado que confirma a permanência de uma base eleitoral expressiva, mesmo diante de derrotas de aliados em algumas disputas estaduais.
Na eleição para os governos, cinco candidatos apoiados por Lula venceram no primeiro turno, todos no Nordeste: Jerônimo Rodrigues (PT), na Bahia; Elmano de Freitas (PT), no Ceará; Rafael Fonteles (PT), no Piauí; Lucas Ribeiro (PP), na Paraíba; e Fábio Mitidieri (PSD), em Sergipe. Os três primeiros foram reeleitos, enquanto Lucas Ribeiro e Mitidieri também conquistaram novos mandatos.
O resultado revela duas forças que convivem no mapa político nordestino. De um lado, o petismo mantém uma presença eleitoral robusta e Lula continua sendo uma referência nacional decisiva para parte do eleitorado. De outro, candidaturas de centro e de direita conseguem vencer quando constroem uma identidade própria, evitam a nacionalização excessiva da disputa ou concentram a campanha em temas estaduais.
O voto estadual não é necessariamente o voto presidencial
A principal lição de 2026 é que o eleitor não necessariamente escolhe o mesmo campo político para todos os cargos. Uma pessoa pode votar em Lula para presidente e apoiar um candidato de outro partido para governador. Da mesma forma, pode escolher um governador que não declare apoio ao presidente e, na urna presidencial, fazer uma escolha diferente.
Essa autonomia ajuda a explicar por que a força de Lula na região não se traduz automaticamente em vitórias de todos os candidatos que recebem seu apoio. O presidente pode ampliar a visibilidade de uma candidatura, mobilizar aliados e fortalecer palanques, mas o resultado estadual também depende da trajetória dos concorrentes, da avaliação dos governos, das alianças locais e das prioridades de cada eleitorado.
Por isso, os exemplos de Raquel Lyra, Eduardo Braide e JHC não devem ser interpretados como prova de enfraquecimento definitivo do petismo. São evidências de que o Nordeste é politicamente mais diverso do que a ideia de um bloco eleitoral uniforme pode sugerir.
A eleição de 2026 deixa, portanto, uma conclusão relevante: é possível vencer no Nordeste sem o apoio eleitoral explícito de Lula, assim como é possível conquistar um governo estadual com o respaldo do presidente. A região continua sendo uma base decisiva para o petismo, mas suas eleições estaduais demonstram que a política local conserva dinâmica própria — e que nenhuma liderança nacional, por mais popular que seja, controla sozinha o voto dos nordestinos.
Por @jairoalves.87
Jairo Alves
É Editor do Seliga Litoral, formado em Jornalismo pela UFPB e mestrando em Jornalismo pelo PPJ da mesma Universidade.

