Do Sítio Acais aos terreiros e às pesquisas acadêmicas, tradição juremeira atravessa gerações e ajudou a construir uma das identidades culturais mais marcantes do Litoral Sul da Paraíba
Há lugares que carregam uma história. E há lugares em que a própria história parece continuar respirando.
Em Alhandra, no Litoral Sul da Paraíba, essa história tem o cheiro da mata, a memória dos mestres, o silêncio dos lugares sagrados e a presença de uma árvore que deixou de ser apenas árvore. A Jurema tornou-se símbolo de uma tradição religiosa, de uma memória ancestral e de uma identidade que ajudou a fazer do município uma referência para praticantes e pesquisadores em diferentes partes do Nordeste.
Não é por acaso que Alhandra é chamada de “cidade da Jurema”. Pesquisas acadêmicas apontam que o município se tornou um dos principais polos da tradição juremeira do Brasil, especialmente pela presença histórica de mestres e mestras e dos chamados espaços ou “cidades da Jurema”. Um estudo da Universidade Federal da Paraíba descreve Alhandra como município que polariza manifestações da tradição em nível regional.
Mas contar essa história exige ir além da religião. A Jurema em Alhandra também é uma história sobre ancestralidade, território, memória, resistência e patrimônio.
Antes de ser símbolo, o conhecimento
A Jurema possui raízes indígenas e, ao longo do tempo, estabeleceu relações com elementos de diferentes tradições religiosas. O próprio Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) descreve a Jurema Sagrada como uma tradição de matriz indígena e afro-brasileira, formada por rituais, cantos, conhecimentos e práticas espirituais transmitidos entre gerações.
Em Alhandra, essa permanência ganhou características próprias.
Pesquisadores identificam a relação da tradição com antigos povos indígenas do litoral paraibano, especialmente os Tabajaras, e observam como práticas indígenas sobreviveram mesmo diante dos processos de catequização e transformação cultural. Um estudo histórico da UFCG interpreta a permanência da Jurema em Alhandra como uma forma de resistência e continuidade de elementos da cultura indígena, inclusive em espaços onde símbolos cristãos também passaram a existir.
É uma história de encontros.
A mata e a cidade. A tradição indígena e as influências africanas. A oralidade e a pesquisa acadêmica.
Nada disso aconteceu de maneira completamente linear. A tradição foi sendo reelaborada pelas próprias pessoas que a praticavam.
Acais: o coração dessa memória
Se existe um lugar que concentra parte significativa dessa história, ele é o Sítio Acais.
Localizado em Alhandra, o espaço está associado à trajetória de importantes personagens da Jurema, entre eles Maria do Acais, Zezinho do Acais e Mestre Flósculo. A área também abriga a memória de antigos praticantes e está diretamente relacionada à construção da reputação de Alhandra como território juremeiro.
Maria Eugênia Gonçalves Guimarães, conhecida como Maria do Acais, é apontada por pesquisadores e relatos históricos como uma das figuras centrais dessa trajetória. De origem indígena, ela viveu no local e ficou conhecida por sua atuação como juremeira. Sua fama ultrapassou os limites de Alhandra.
Depois dela, outros nomes ajudaram a manter essa memória viva.
A história de Mestre Flósculo, filho de Maria do Acais, também está ligada à continuidade dos saberes da família. Em 2026, uma celebração em Alhandra voltou a reunir praticantes e pesquisadores para homenagear sua trajetória e seu papel na preservação da tradição do Acais.
É como se cada geração recebesse não apenas um lugar, mas uma responsabilidade: lembrar.
Quando preservar virou uma luta
A história do Acais também revela que patrimônio não é apenas aquilo que sobrevive naturalmente ao tempo. Às vezes, é aquilo que precisa ser defendido para não desaparecer.
Em 2009, o Conselho Deliberativo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (Iphaep) aprovou o tombamento do Sítio Acais. O reconhecimento foi considerado histórico por representar uma importante conquista do movimento de juremeiros e juremeiras que vinha defendendo a preservação do local.
O tombamento transformou oficialmente aquele território em patrimônio histórico protegido pelo Estado.
Mas existe uma diferença importante entre preservar uma área e preservar aquilo que ela significa.
O patrimônio material pode ser uma capela, um terreno, uma árvore, um túmulo. O patrimônio imaterial está nos conhecimentos, nas histórias, nos cânticos, nas práticas, nas memórias e nas relações que dão significado a esses lugares.
É por isso que o debate sobre a Jurema não termina no Acais.
Alhandra também é feita de mestres
A tradição juremeira não se sustenta somente pela existência de lugares sagrados. Ela sobrevive porque existem pessoas que guardam conhecimentos e os transmitem.
As pesquisas sobre Alhandra registram a presença histórica de diferentes mestres e mestras, formando uma espécie de genealogia espiritual e cultural que atravessa gerações.
Uma dissertação da UFPB dedicada à “ciência da Jurema” em Alhandra mostra como o município se tornou referência regional e como os chamados “cientistas” da Jurema são reconhecidos, dentro da tradição, como pessoas de saber, responsáveis por práticas de cura física e espiritual.
Outra pesquisa, dedicada especificamente à tradição dos mestres juremeiros na Umbanda de Alhandra, mostra como a Jurema passou por processos de transformação e aproximação com a Umbanda, sem que isso significasse simplesmente o desaparecimento de sua tradição anterior.
A Jurema, nesse sentido, não é uma fotografia antiga.
É uma tradição em movimento.
Liturgia da Jurema
Liturgicamente, a Jurema se organiza em torno de trabalhos rituais nos quais cantos, rezas, defumação, cachimbo, maracá e outros objetos sagrados ajudam a estabelecer a comunicação com o universo espiritual.
Os Mestres e Mestras, além de caboclos e outras entidades, ocupam lugar central nessa cosmologia e podem ser invocados durante os trabalhos. Em algumas vertentes, a bebida preparada a partir da jurema também integra o ritual; em Alhandra, porém, pesquisas registram formas diversas de culto, inclusive a chamada “Jurema de chão”, realizada sem mesa.
Assim, não existe uma única liturgia juremeira, mas diferentes modos de praticar uma tradição que foi incorporando elementos indígenas, católicos, afro-brasileiros e, mais recentemente, influências da Umbanda.
Do preconceito ao reconhecimento
Durante muito tempo, manifestações religiosas de matriz indígena e afro-brasileira foram alvo de preconceito e intolerância. A própria história da Jurema carrega marcas desse processo.
Em Alhandra, entretanto, a memória resistiu.
E, nos últimos anos, essa resistência ganhou também reconhecimento institucional.
Em julho de 2025, a Jurema Sagrada foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Paraíba, por meio da Lei nº 13.760. O reconhecimento estadual passou a proteger não apenas uma prática religiosa, mas um conjunto de saberes, manifestações e memórias associados à tradição.
Dois meses depois, em setembro de 2025, representantes de comunidades tradicionais e organizações ligadas à Jurema entregaram ao Iphan o pedido para que a manifestação também seja reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. O ato aconteceu justamente em Alhandra e reuniu órgãos públicos, pesquisadores e lideranças religiosas.
A cidade que durante décadas foi conhecida pela Jurema passou, assim, a ocupar também outro lugar: o centro de uma discussão nacional sobre memória, patrimônio e liberdade religiosa.
Uma cidade que carrega um nome que não está nas placas
Talvez a relação entre Alhandra e a Jurema possa ser compreendida por uma imagem simples. Não existe, necessariamente, uma placa dizendo que a cidade pertence à Jurema. Mas existe uma memória coletiva que fez essa associação atravessar gerações.
Existe o Acais.
Existem os mestres.
Existem os terreiros.
Existem pesquisadores que chegaram à cidade para tentar compreender uma tradição que resistiu ao tempo.
Existem praticantes que continuam realizando seus rituais.
E existem novas gerações que recebem uma história que não começou com elas.
A pesquisa antropológica de Sandro Guimarães Salles chegou a uma conclusão particularmente importante: a tradição da Jurema fez de Alhandra uma referência maior para juremeiros nordestinos.
É uma definição que ajuda a compreender a dimensão do município.
Alhandra não é apenas o lugar onde existem praticantes da Jurema.
É um território que, historicamente, passou a fazer parte da própria geografia simbólica da tradição.
A Jurema que permanece
Hoje, quando se fala em Jurema Sagrada na Paraíba, Alhandra aparece quase inevitavelmente.
E isso produz uma responsabilidade.
Porque reconhecimento também pode trazer risco: o de transformar uma tradição viva em peça de exposição, reduzindo uma experiência religiosa complexa a folclore, fotografia ou atração turística.
A Jurema não é apenas uma árvore. Não é apenas o Acais. Não é apenas uma história antiga. É uma tradição religiosa viva, com seus próprios saberes, símbolos, práticas e comunidades. O desafio contemporâneo talvez seja justamente permitir que essa memória seja preservada sem ser congelada.
Que o patrimônio possa proteger o passado sem impedir que a tradição continue sendo construída no presente.
Em Alhandra, a Jurema sobreviveu ao preconceito, às transformações urbanas, à passagem dos mestres e às mudanças nas próprias formas de praticar a religião.
E talvez seja essa a imagem mais forte dessa história: uma árvore que, para muita gente, não representa apenas uma árvore; representa uma raiz.
Uma raiz indígena e afro-indígena. Uma raiz religiosa. Uma raiz cultural. E, sobretudo, uma raiz que ajudou Alhandra a ser reconhecida muito além das fronteiras do Litoral Sul da Paraíba.

